CRÍTICA | Persépolis

Diretor: Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi
Roteiro: Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi
Elenco: Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux, entre outros.
Origem: EUA/França
Ano: 2007


Bom, a gente sabe bem que, quando se trata de animações, fica difícil consumir aquelas que não sejam de origem norte-americana, blockbusters da Disney/Pixar ou DreamWorks. Nada contra, pelo amor de Deus, protejam a minha A Bela e a Fera e o meu Procurando Nemo

Agora, sejamos justos, mesmo com festivais importantíssimos como o Anima Mundi, ainda fica complicado o acesso aos trabalhos de outros países nessa área do cinema e sempre acabamos indo para o mesmo padrão. É nesse ciclo vicioso que perdemos obras incríveis, que merecem – e muito – a nossa atenção. É o caso da animação iraniana/francesa Persépolis.

O filme de 2007 conta a história da Marjane Satrapi, autora da história em quadrinhos de mesmo nome e que assina a direção ao lado de Vincente Paronnaud (Frango com Ameixas), nos entregando uma belíssima narrativa.

De cara somos apresentados a uma Marjani ainda criança, vivendo em um 1978 delicado, de crise política no Irã, com classes trabalhadoras exigindo a deposição do Xá, atual líder político, além de manifestações, greves e prisões. Uma pequena garotinha sonhando em ser a última grande profeta e que se vê em um país com dirigente destituído e com o poder passando para as mãos da direita islâmica extremista. Com apenas 10 anos, a menina Satrapi se vê obrigada a usar o véu.


Chega a adolescência e a jovem e seus ideais políticos, sua incapacidade de ficar quieta ou de se submeter às leis do novo regime no Irã, passam a ser um risco. Sua família então decide mandá-la, com apenas 14 anos, para Vienna, na Áustria e é lá que Marjane enfrentará os obstáculos de estar sozinha num país que não é o seu de origem, de procurar se encaixar e encontrar seu lugar. Também terá de enfrentar a dificuldade de se adaptar novamente quando chegar o dia de voltar e encarar a realidade no Irã pós-guerra contra o Iraque.

Persépolis deixa de ser apenas uma animação comum ao tratar de problemas políticos que ocorreram no Irã e que ainda ocorrem. Ao nos ambientar e trabalhar assuntos incrivelmente sérios, como o comunismo, o socialismo, a deposição do Xá, a ascensão da direita islâmica e posteriormente a guerra travada entre Irã e Iraque, o longa nos tira do nosso lugar comum de espectador de desenhos infantilizados e nos entrega uma carga altamente dramática.

Nele podemos encontrar questões como a religião islâmica, seus impactos nas famílias iranianas, como as mulheres são vistas dentro desse contexto e tratadas na maioria dos casos de maneira inferior, sendo forçadas diariamente a lutarem contra essa estrutura, como é o caso da protagonista. Persépolis também escancara o xenofobismo e o estereotipamento do povo imigrante do Oriente Médio.

Tudo isso é mostrado através da visão de uma garota simples, que vai crescendo e sendo obrigada a se adaptar a todas essas mudanças. Seu olhar, suas considerações, medos, ideologias, sonhos. Trata-se de um filme sensível, mas ao mesmo tempo forte e, apesar de tantos temas difíceis, ainda consegue achar espaço para ser cômico.

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