Animações "Perdidas" da Disney | Parte 1


A Disney é uma empresa incontestavelmente famosa e poderosa, seu departamento de animações é um dos maiores e mais importantes do mundo, mas, ainda assim, há muitos filmes que são desconhecidos, ou mesmo esquecidos, por grande parte do público, aquelas animações subestimadas, que não costumam ser tão lembradas e que mereciam até mesmo uma melhor atenção da própria Disney.

E no espírito de resgatar ou relembrar estes clássicos, esta é a 1ª parte do especial Animações Perdidas da Disney. As obras serão listadas sem qualquer grau de importância ou "esquecimento", já evitando possíveis debates nos comentários. Vale lembrar também que tratam-se de obras costumeiramente subestimadas do estúdio, o que não necessariamente significa que absolutamente ninguém as conhecem.


O Caldeirão Mágico (The Black Cauldron, 1985)


Dark, diferente e relativamente controverso, O Caldeirão Mágico é tido como uma grande inovação, já que foi a primeira vez que a Disney usou computadores para produzir algumas sequências desta animação. Infelizmente a turma de Taran, Hen-Wen, Gurgi, Eilowny e Flores não obteve o reconhecimento nem na época do seu lançamento, nem em futuros lançamentos em home video. Mesmo sendo deveras diferente em relação a série de livros que a originara, ainda assim consegue ser uma animação bem interessante. Um fator que prejudicou a obra foi o tom destoante e mais sombrio.

Você pode assistir o filme na Netflix clicando AQUI.


Fantasia (idem, 1940)


Provavelmente hoje em dia, o mais comentado entre os hipsters de plantão. Fantasia foi uma grande experiência, que unia música clássica com animação. Dividida em 8 segmentos, conduzidos pelo maestro Leopold Stokowski, com músicas de Beethoven, Bach e Schubert, até outros mais contemporâneos como Paul Dukas e Stravinski.

Apesar de até bem recebido por alguns críticos, infelizmente, não foi aceito pelo grande público, tanto que a Disney tinha intenção de produzir uma continuação para o projeto, desta vez, com o artista plástico Salvador Dali, chamado de Musicana. A tal continuação só receberia luz verde quase 60 depois, quando o público redescobriu o filme entre alguns lançamentos em VHS e na TV.

E foi neste filme que foi criado o mais imponente e amedrontador personagem da Disney: Chernabog, o demônio, presente no curta Uma Noite no Monte Calvo.


Fantasia 2000 (idem, 1999)


Depois de quase 60 anos, onde grande parte do material fonte ficou no anonimato, eis que o sobrinho de Walt, Roy E. Disney, resgata o projeto Fantasia e cria Fantasia 2000. Desta vez, comandada por um time que inclui Steve Martin, James Earl Jones, Bette Midler, Angela Lansbury e Quincy Jones, orquestrada pelo maestro James Levine.

Um dos melhores segmentos para mim é, sem duvidas, O Pássaro de Fogo, baseado na obra de Igor Stravinski, na qual a Mãe Natureza dá vida a uma floresta, mas é perseguida por uma fênix gigantesca. 

Aqui, temos o retorno da figura icônica do Mickey feiticeiro, que havia aparecido no Fantasia original, no curta O Aprendiz de Feiticeiro, inspirado na obra de Goethe. Essa versão do camundongo já foi parodiada a exaustão e até virou símbolo holográfico para os VHS lançados da empresa. Mesmo não sendo tão icônico quanto o primeiro, certamente existem alguns bons curtas que poderiam ter sido mais bem aproveitados, se tivessem tempo maior de duração para contar a história.


Bernardo e Bianca (The Rescuers, 1977)


Imagine uma espécie de ONU, só que organizada por ratos, que acaba recebendo uma mensagem numa garrafa, sobre uma garotinha perdida nas mãos de uma mulher cujo o interesse é leva-la até um buraco estreito, onde está enterrado um diamante raro, que só pode se acessado por uma criança.

Essa é premissa de Bernardo e Bianca, filme que demorou 4 anos para ser desenvolvido e que teve muitos conceitos descartados até encontrar sua versão final. Madame Medusa seria uma das principais inspirações para Úrsula, vilã de A Pequena Sereia, e Penny, a garotinha de Oliver e Sua Turma.


Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus (The Rescuers Down Under, 1990)


Esse filme pode ser considerado precursor em vários quesitos no estúdio Disney: primeira continuação de um longa animado, primeiro filme finalizado digitalmente (pintura e efeitos) e o primeiro a ter diretores e animadores fazendo uma pesquisa de campo, indo até a Austrália para reter informações sobre seu estilo visual e o clima local.

Esse é o 29º filme de animação da Disney e é baseado nos livros Bernardo e Sra. Bianca, de Margery Sharp. Esse filme foi bem criticado no que diz respeito a imagem e o som, falhas que podem incomodar os mais exigentes.

A história se passa no interior da Austrália, onde um garotinho, Cody, se torna amigo de uma águia dourada. Cody faz tudo para protegê-la quando um caçador se interessa em capturá-la. Então, o menino pede ajuda para os mais corajosos ratinhos que existem. É um filme cativante e bonito de se ver, que mostra o valor da amizade e tem sequências moderadamente revolucionárias para a época. Dá para assistir com prazer.


Alô, Amigos (Saludos Amigos, 1942)


Alô Amigos foi o primeiro da série que eu carinhosamente chamo de filmes segmentados. Se não foi possível entender o que quero dizer, eu explico. São obras onde o filme não é uma única história, ele é um tema. Por exemplo, Alô Amigos e Você já foi a Bahia? tem foco em falar sobre a América do Sul, já outros como As Aventuras de Ichabod e Sr. Sapo e Como é Bom se Divertir abordam outros temas, como fábulas e contos americanos.

Aqui vemos a primeira aparição do Zé Carioca, o personagem norte-americano mais brasileiro da história. São quatros histórias que compõe o filme: Lago Titicaca, onde vamos até o tal lago na fronteira entre Peru e Bolívia. Pedro, um avião que vai na sua primeira viagem pegar correspondência. El Gaucho Goofy, onde Pateta deixar de ser cowboy e vira gaúcho. Mas não o gaúcho brasileiro, mas sim o gaúcho argentino. O último, mas não menos importante, Aquarela do Brasil, onde Donald e Zé viajam pelo Brasil e o segundo apresenta para o pato mais irritadiço do planeta, o samba.

Com músicas icônicas como "Aquarela", de Ary Barroso e "Tico-Tico no Fubá", de Zequinha de Abreu, imortalizada na voz da toda poderosa Carmen Miranda, o filme é muito bom e lindo de se assistir.


Você já foi à Bahia? (The Three Caballeros, 1944)


“Se você gosta de samba então vamos lá”.

Você já foi à Bahia? é o sétimo clássico Disney e construiu socialmente a ideia de um Brasil com seus hábitos, costumes e características. O filme traz as aventuras do Pato Donald na América do Sul, com seus amigos latino-americanos. Ele faz parte da política de boa vizinhança idealizada pelos norte-americanos na época da 2º Guerra Mundial. O icônico personagem Zé Carioca foi criado justamente quando Disney fez sua turnê pela América Latina.

O longa começa no aniversário do Pato Donald, quando ele recebe uma caixa de presentes dos seus amigos, agradecendo sua visita. Na caixa tem um projetor de cinema que mostra aves da região amazônica. Depois dessa apresentação, a caixa começa a vibrar e do livro sai Zé Carioca tocando e sambando. Ele pergunta ao Pato Donald: "Você já foi à Bahia?". E os dois entram num trem e, ao som de uma música contagiante, chegam à Bahia.

Após a viagem, Donald e Zé Carioca vão ao México e lá encontram o Galo Panchito, que mostra as belezas e a diversidade natural de sua terra. Esse foi o primeiro filme da Disney que juntou humanos e desenhos. É um filme que vale a pena ser assistido e discutido, seja pela monumental trilha sonora, com Ari Barroso e Dorival Caymmi, pelas diversas cores do Brasil, ou por um Pato Donald incrivelmente adorável. Além disso, a combinação da animação com o live action tem uma qualidade ótima, se considerarmos que é um filme de 1944.


As Aventuras de Ichabod e Sr. Sapo
(The Adventures of Ichabod and Mr. Toad, 1949)


O 11º longa-metragem da coletânea de clássicos da Disney, assim como os outros dessa época, é uma junção de dois curtas-metragens, ou seja, um filme segmentado. Embora seja obscuro, As Aventuras de Ichabod e Sr. Sapo é um dos poucos que teve um público grande. No Brasil, se chamou Dois Sujeitos Fabulosos, e é inspirado em contos famosos. O primeiro, O Sapo Maluco (The Wind in the Willows), de Kenneth Grahame, é sobre um sapo chamado J. T. Sapo ou Sapo Tadeu, dono de Toad Hall, e que é dado a manias de grandeza e novidades como um novo carro. Isso acaba levando-o a ter problemas, e seus amigos Verruga, Rato e MacBadger literalmente precisam salvá-lo de si mesmo.

O segundo A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (The Legend of the Sleepy Hollow) é baseado no conto de Richard Irving e possui mais fama. Numa cidade do interior da Nova Inglaterra, um novo professor, Ichabod Crane, se apaixona por Katrina, uma bela jovem filha de um rico fazendeiro daquele vilarejo. Sua paixão faz ganhar um rival chamado Bronco Ossos (Brom Bones, em inglês), um valentão do vilarejo que também é apaixonado por Katrina e faz tudo para impedir que esse romance. Então, usa o medo de Ichabod para afastá-lo de Katrina. E é aí que aparece o fantasma do homem sem cabeça.

Interessantemente, foi premiado com o Globo de Ouro de Melhor Fotografia a Cores. Apesar de seu sucesso, houve críticas por ter se distanciado das obras originais, mas essa foi uma das mais bem-sucedidas tentativas de adaptação de uma história da literatura inglesa. Trata-se de um dos últimos filmes segmentados da Disney.



Como é Bom se Divertir (Fun and Fancy Free, 1947)


Seguindo a tradição dos grandes clássicos da Disney, Como é Bom se Divertir apresenta músicas, ação e divertimento, reunindo pela única vez, os quatro personagens mais famosos e inesquecíveis do estúdio, Mickey Mouse, Pato Donald, Pateta e Grilo Falante, em dois contos: Bongo e Mickey e o Pé de Feijão.

A história começa com o Grilo Falante contando a história de Bongo, um urso de circo que deseja ser livre na selva. Ele escapa de seu cativeiro e logo percebe a dificuldade em se adaptar no mundo selvagem.

Depois, uma menina é convidada para uma festa com um ventríloquo, e o boneco conta a história do Vale Feliz, com Donald, Mickey e Pateta, que acaba virando "João e o Pé de Feijão". No conto, o Vale da Felicidade é atormentado por uma grave seca após uma harpa dourada que cantava para trazer felicidade às pessoas foi roubada. Os moradores não têm nada para comer, exceto um pedaço de pão, e isso incomoda tanto Donald que ele até quebra a quarta parede, dizendo que não pode suportar essa situação. Os três amigos acabam usando feijões mágicos e indo saciar sua fome na casa de um gigante. Eles são trancafiados em uma caixa e tem que lutar não só para escaparem, mas por retornarem à felicidade aos cidadãos do Vale.


Tempo de Melodia (Melody Time, 1948)



Tempo de Melodia tem como base músicas folclóricas dos EUA. O filme é divido em 6 segmentos: Era uma vez no inverno, A Dança do Zangão, Johnny Semente-de-Maçã, O Rebocador Apitinho, Árvores, A Culpa é do Samba e Pecos Bill.
  • A Dança do Zangão traz um zangão num pesadelo com instrumentos musicais. Tudo ao som de "O Voo da Abelha", de Rimsky-Korsakov.
  • Johnny Semente-de-Maçã fala sobre John Chapman que ganhou o apelido, pois dedicou sua vida a plantar sementes da fruta pelo território americano.
  • Rebocabor Apitinho é uma adaptação de um poema escrito por Hardie Gramatky, onde um barquinho tenta imitar seu pai, mas acaba se dando mal.
  • Árvores é uma adaptação de um poema homônimo de Joyce Kilmer, onde mostra as passagens das estações do ano e a mudança nas folhagens e cores das plantas.
  • Em A Culpa é do Samba, Zé Carioca volta a sambar com Donald, junto com um personagem chamado Aracuã.
  • Pecos Bill é uma adaptação de uma das maiores lendas de caubói, mostrando-o como exemplo de força, virilidade, coragem e humor.


Aristogatas (The Aristocats, 1971)


Todo mundo quer a vida que um gato tem, principalmente se já viu Aristogatas. Neste filme, uma senhora aristocrata estabelece em seu testamento que sua família de gatos será herdeira de sua fortuna, o que enfurece seu mordomo Edgar, por ser deixado de lado por simples gatos. Edgar, ganancioso e de olho na fortuna da patroa, faz o possível para mudar a situação e tenta se desfazer dos gatos, abandonando-os no interior da França. Perdida no meio do campo, a encantadora família felina entra em uma aventura cheia de dificuldades para voltar para casa, acompanhada por O’Malley, um gato vira-lata que é par romântico de Duquesa.

A essência da história é o confronto de classes, e se assemelha um pouco com A Dama e o Vagabundo e 101 Dálmatas, pois os protagonistas tem um choque de realidade e começam a viver de forma mais simples. A trilha sonora marcante é ótima para exemplificar essa vida modesta, pois se baseia no Jazz, que era antigamente o “som das ruas".

Aristogatas foi o último filme de animação aprovado para produção por Walt Disney. Lançado nos cinemas dos Estados Unidos em 1970, teve sucesso suficiente para garantir a continuidade de seu legado. É um desenho diferente, tanto visualmente quanto narrativamente, e por isso vale a pena ser visto. O filme é divertido e tem um charme parisiense, ainda que não seja totalmente memorável.


A Espada Era a Lei (The Sword In The Stone, 1963)


As lendas arturianas fazem parte do panteão da empresa, mas não do jeito tradicional. Pela Disney, a lenda do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda foi mostrada de outro ângulo. Ao invés de batalhas épicas, vemos Arthur ainda na infância, sendo lecionado pelo mago Merlin sobre a vida de alguns animais, como esquilos, peixes e pássaros. Aqui vemos também a introdução de Madame Min ou Kim, bruxa icônica que viria a ser vilã nas historias em quadrinhos da Disney.

Mesmo não sendo fiel aos relatos do que realmente aconteceu naquele período, o filme é realmente divertido, seja com Merlin fazendo trapalhadas, Arquimedes se metendo nas encrencas em que Merlin e Arthur entram ou com um coiote mais idiota da história, mais burro até que o Coiote dos Looney Tunes (se é que já era possível fazer um mamífero ainda mais atrapalhado que ele).

 Agora, é de pensar, já que era tão divertido, porque foi esquecido? Simples, sua bilheteria naufragou, mesmo com relançamentos no cinema. Não chamou atenção, já que fora lançado diversas vezes em home video na terra do Tio Sam, mas nunca foi um titulo que todos amavam. Depois de 2001, seu ultimo lançamento, caiu num ostracismo quase que total.



O Cão e a Raposa (The Fox and the Hound, 1981)



Está aí um filme que tem tudo para emocionar os espectadores. O Cão e a Raposa conta a história de Dodó, um filhote de raposa que fica órfão depois de sua mãe levar um tiro, sendo adotado e criado como um animal doméstico por uma senhora. Ao mesmo tempo o cãozinho Toby é adotado por um caçador que detesta raposas e é vizinho da senhora. Por serem filhotes e morarem próximos, os dois prometem serem amigos para sempre, mas acabam sendo separados depois que Toby é levado por seu dono para transformar o cachorro em um cão de caça habilidoso.

O Cão e a Raposa é baseado na obra de Daniel Pratt Mannix e é uma história diferente simplesmente pelo fato de um cão caçador de raposas se tornar o melhor amigo de uma, já que deveriam ser inimigos mortais. Não se trata apenas de um filme sobre a amizade, típico do estúdio. Ele aborda indiretamente questões muito mais complexas, como os estereótipos criados pela sociedade que acabam contribuindo para uma separação maior entre indivíduos diferentes, o que sempre esteve presente em nossa história. E todos esses preconceitos são apresentados de maneira sutil e delicada. Esses conflitos internos assim como várias outras situações da trama, e também o grande carisma de Toby e Dodó, nos apresentam protagonistas totalmente cativantes, dando interesse ao público em saber como tudo será solucionado.

A obra faz parte de uma fase um pouco apagada do estúdio, cujas produções não são tão conhecidas, mas nem por isso perde o seu encanto, pelo contrário, o clássico é um dos longas-metragens mais tocantes já apresentados pela Disney.

Essa foi a primeira parte do nosso especial. Semana que vem tem mais, fiquem de olho no site!

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