CRÍTICA | Assassinato no Expresso do Oriente

Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: Michael Green
Elenco: Kenneth Branagh, Daisy Ridley, Johnny Depp, Josh Gad, Judi Dench, Leslie Odom Jr., Michelle Pfeiffer, Penélope Cruz e Willem Dafoe
Origem: EUA / Malta
Ano:2017


O mais famoso personagem de Agatha Christie, o inspetor Hercule Poirot, está de volta às telas com o remake de Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express). Lançado em 1934, o livro já ganhou inúmeras edições durante os anos, assim como outras produções de igual qualidade. Christie é uma referência da literatura até hoje, mesmo tendo falecido em 1976. Além de ter publicado mais de cem sucessos literários, seus trabalhos serviram de inspiração para inúmeras produções cinematográficas e teatrais. Não é à toa que ela faz parte da santíssima trindade dos autores de romance de detetives, ao lado de Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle.

Em 1974, o romance ganhou sua primeira versão para o cinema, que é considerada uma das melhores adaptações de seus livros, com Albert Finney (Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas) no papel do renomado detetive. Mais de quarenta anos depois, é a vez do britânico Kenneth Branagh (Harry Potter e a Câmara Secreta) assumir não apenas a direção do filme, mas também o protagonismo do mesmo.

A comparação entre as duas adaptações é inevitável, mas essa nova versão consegue contar a mesma história com uma abordagem bastante diferente, se destacando em diversos pontos, graças às sensibilidade teatral do diretor e uma adaptação dinâmica em parte do roteiro.

Foto: Fox Film do Brasil

Ao mesmo tempo em que é burocrático, correto e com um leve TOC, o Poirot de Branagh acrescenta um jeito divertido e atrativo ao personagem, tornando-o carismático e diferente da figura repetitiva do livro. Pouco humilde, ele sabe que é o melhor detetive do mundo, mas também um homem que pode ser quebrado em suas certezas. É um personagem resoluto, mas também vulnerável, nostálgico e arrependido. Branagh não o torna egocêntrico e esnobe, soando muito diferente de personagens como Sherlock Holmes, por exemplo. 

Na trama, Hercule Poirot acaba de resolver um caso em Jerusalém e está pronto para conseguir suas tão desejadas férias. No entanto, por ironia do destino, ele é chamado a Londres e pega uma carona com seu boêmio amigo Bouc (Tom Bateman), dono da companhia do luxuoso Expresso do Oriente, onde acaba se deparando com um misterioso assassinato e passageiros misteriosos. 

Esse protagonista imperfeito e também cansado de tanto atender às infinitas requisições do seu talento, encontra seu maior desafio na morte do detestável gângster Ratchett (Johnny Depp), que é encontrado morto em sua cabine com 12 facadas pelo corpo. Um dos aspectos mais criativos da história original de Christie, é justamente o fato do vilão não ser o único antagonista, uma vez que a vítima também o é. Isso é o suficiente para "tirar Poirot dos trilhos". É então criada uma dinâmica similar ao clássico Os 7 Suspeitos (Clue, 1985), quando o trem fica preso em meio a neve, e o assassino só pode estar entre os passageiros do vagão. Inicia-se então, uma busca inalcançável pelo culpado.

Um dos elementos da obra que merece destaque é a fotografia. O crime no trem de Branagh é um pesadelo subjetivo, por assim dizer. Quando acaba de se apresentar como investigador, a câmera corta para a visão subjetiva de Poirot, que enxerga os suspeitos através das portas de vidro e vê seus reflexos duplicados. Quando analisa as cenas do crime, é de uma câmera de cima, destacando o método que Poirot afirma praticar de “analisar o comum para destacar o incomum”. Um tipo de angulação que pode ser um tanto impessoal por não estarmos acompanhando as expressões, mas nos obriga a compartilhar da impessoalidade analítica do detetive.

Foto: Fox Film do Brasil

Inclusive, é interessante notar como o diretor trabalha bem as limitações espaciais. Raras vezes os personagens são enquadrados em um único plano e, quando são, é porque a câmera está viajando ao redor do trem em um plano sequência de alta complexidade técnica, ou porque o diretor posiciona janelas e portas entre personagens e o espectador. Branagh engenhosamente aproveita esse espaço de meias-verdades. Nas cenas de flashbacks de vítima e suspeitos, o cineasta escolheu apresentá-los com um toque de cinema clássico, através da fotografia preto-e-branca e da janela quadrada (4:3). Além disso, os cenários e figurinos conseguem trazer o espectador para a época em que a trama acontece.

Como era de se esperar, o elenco se destaca, sendo contemporâneo e representativo. É o que, somado ao mistério, mantém o espectador atento até os minutos finais. Johnny Depp (Animais Fantásticos e Onde Habitam), apesar dos pesares que todos conhecemos, consegue quebrar o seu estereótipo de personagens excêntricos e entregar um típico antagonista de trama policial, carismático em sua antipatia e mau-caratismo (qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência).

Como o longa tem muitos personagens para apresentar, há um desnivelamento da importância que cada um tem na história. Josh Gad (A Bela e a Fera), por exemplo, interpreta o homem falido que trabalha para Ratchett, e tem excelentes momentos, mas some quase que completamente quando o crime é descoberto. O contrário ocorre com Michele Pfeiffer (Batman: O Retorno) que, de início soa um tanto apagada, mas acaba trazendo peso dramático a seu papel. 

É interessante vermos Willem Dafoe (Homem Aranha), Daisy Riley (Star Wars: O Despertar da Força) e Leslie Odom Jr (Smash) trazendo uma abordagem de temas políticos da época, como fascismo e racismo, ainda abertamente comuns. Além disso, o longa também aborda a xenofobia, o alcoolismo e o fanatismo religioso, tendo como tema central a ética da justiça, que forma o arco de Poirot, dando a clássica e inusitada solução um contexto temático e emocionalmente ressonante.

Foto: Fox Film do Brasil

Como boa parte do livro consiste simplesmente no detetive entrevistando os suspeitos no vagão-restaurante do trem, o filme tenta variar locações e introduzir sequências de maior tensão, cenas de ação que ajudam a trazer mais dinamismo cinematográfico e um senso maior de perigo à narrativa.

Em tempos onde o romance de detetive clássico não tem mais a força de antes, é agradável ver um filme que presta tanto carinho a esse gênero apagado. A cena final evidencia o desejo de produzirem uma sequência (já confirmada, inclusive), que com certeza promete ser tão boa quanto a primeira. 

Diferente do que muitos podem pensar, não é necessário conhecimento prévio do livro, do personagem ou de outras adaptações para entender a história ou o que está por vir por aí, mas quem tiver interesse em mergulhar mais profundamente naqueles personagens ou em contos policiais, recomendo que conheçam essas obras. 

Ótimo

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