CRÍTICA | Ninguém Está Olhando

Direção: Julia Solomonoff
Roteiro: Julia Solomonoff e Christina Lazaridi
Elenco: Guillermo Pfening, Pascal Yen-Pfister, Katty Velasquez, Nadja Settel, entre outros
Origem: Argentina / Espanha / Colômbia / Brasil / EUA
Ano: 2017


Imagine um filme com roupagem de novela, que explora os conflitos internos de seu protagonista, bem como contextualiza as dificuldades de adaptação e as barreiras burocráticas enfrentadas por imigrantes que tentam a sorte na terra do Tio Sam. Certamente você já viu muitas produções com essa premissa, mas não da forma como a cineasta argentina Julia Solomonoff (Hermanas) nos traz em Ninguém Está Olhando (Nadie nos mira), longa vencedor da mostra competitiva do Cine Ceará 2017.

Nico (Guillermo Pfening) é um jovem ator de muito sucesso na Argentina, seu país natal, e que tenta engrenar uma carreira internacional nos Estados Unidos, se instalando na cidade de Nova York. No entanto, o artista começa a enfrentar barreiras, sente que não se encaixa nos padrões do show business e sofre diversas discriminações por conta de sua raça e origem latina. Para piorar, nosso protagonista está com o visto de permanência prestes a expirar e tem dificuldades em obter dinheiro para suas necessidades básicas, fazendo de tudo para sobreviver, aceitando trabalhos de garçom e sendo babá do filho de uma amiga (Elena Roger). O ator, diante de um cenário caótico e com baixas perspectivas, assume atitudes bastante questionáveis e testa ao extremo seus limites moral e psicológico durante a obra.

Temos aqui uma narrativa extremamente envolvente, que não só explora a dramaticidade e as emoções de Nico em um contexto bastante complexo, bem como sua solidão é retratada com uma perfeita nuance, principalmente nas cenas em que transita pelas ruas de Nova York sem ser notado por ninguém. E a válvula de escape que ele encontra é em seu trabalho como babá, mesmo que a contragosto, na esperança por um futuro melhor. Além disso, o enredo permite que os personagens secundários ganhem importância na história e mostrem a cada interação uma nova vertente de Nico. 

Foto: Vitrine Filmes

Compreender todos os conflitos pelos quais o protagonista passa fica mais fácil a medida em que a trama vai se desenrolando. O espectador se envolve cada vez mais com suas questões psicológicas e se depara com uma moral e dignidade gravemente afetadas, sem margem para grandes questionamentos.

Guillermo Pfening (O Médico Alemão) consegue com sua atuação entregar um personagem que passa sinceridade, aflição e todos os elementos essenciais que contribuam para o arco dramático no qual está inserido, com melancolia, desespero e culpa. Nico é um homem que ainda tem muitos obstáculos a superar, além de questões mal resolvidas no passado e um dos seus maiores desafios, de lidar com a frustração, que é bem conduzida pelo ator até o desfecho.

Apesar do ritmo irregular do segundo e terceiro ato e de não apresentar as melhores soluções para os conflitos que o protagonista vive, abordando superficialmente a questão dos entreveros que os imigrantes ilegais enfrentam nos Estados Unidos, Ninguém Está Olhando ilustra uma persona que transborda sinceridade e veracidade, além de possuir uma história com liberdade dramatúrgica, permitindo ao espectador se envolver e se importar com o que vemos em tela, em um cenário adverso e repleto de percalços.

Bom

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