Os filmes de Denis Villeneuve


De tempos em tempos, o cinema é agraciado com novos talentos que eternizam seus trabalhos na história. No que diz respeito a direção, um excelente exemplo é Alfred Hitchcock (Psicose), sempre referenciado como "o mestre do suspense", graças aos clássicos que registrou em sua filmografia e pelas novas técnicas que inovou em seus trabalhos. Já o francês François Truffaut (Os Incompreendidos) é sempre lembrado por ser um dos fundadores da nouvelle vague, um dos maiores movimentos cinematográficos da europa, que se tornou uma ruptura na forma tradicional de se  fazer filmes.

Para os diretores que estão surgindo, fica a difícil missão de construir um legado respeitável e transgressor como o de seus antecessores. Desde a década passada, porém, surgiu o nome de Denis Villeneuve, o qual tem provado em seus projetos a importância de um trabalho voltado para o desenvolvimento da história sem o uso massivo da tecnologia. O canadense estreou com seu primeiro longa no fim dos anos 90, e até seu quarto filme foi responsável pela direção e roteiro. Não demorou muito até que chegasse em Hollywood, trabalhando em grandes produções, com atores renomados e firmando grandes parcerias.

Villeneuve é um dos maiores de sua geração. Seus filmes são marcados por protagonistas de intensa força e complexidade, pontos que ele explora e valoriza ao máximo com sua câmera. Outra característica interessante é a recorrente utilização de personagens femininas; ao todo, são seis protagonistas de um total de nove produções, todas distintas, mas sempre carregadas de carga dramática. Seu grande trunfo como cineasta é a variedade de seus projetos, sem jamais perder a qualidade e a minucia, por mais díspares que sejam. Abaixo, teci opiniões sobre cada um dos trabalhos desse diretor tão talentoso, que merece o reconhecimento do público e a expectativa pelos seus próximos trabalhos.


32 de Agosto na Terra (Un 32 Août sur Terre, 1998)


A estreia "oficial" de Villeneuve nos cinemas aconteceu com 32 de Agosto na Terra, que foi exibido no Festival de Cannes e indicado para representar o Canadá no Oscar de 1998, na categoria de melhor filme estrangeiro. Apesar de não figurado entre os indicados finais, o longa mostra qualidades admiráveis para um debute.

Na trama, escrita pelo diretor, acompanhamos o "nascer" de Simone (Pascale Bussières), que sofre um acidente de carro logo no início do longa. Assustada e impressionada com o quase fim de sua vida, a mulher decide que quer ter um filho, convocando seu melhor amigo (que é apaixonado por ela há anos em segredo) para ser o pai. A princípio, Philippe (Alexis Martin) aceita o pedido e os dois viajam juntos, compartilhando buscas individuais que refletem a solidão e os sentimentos reprimidos de ambos. 

Apesar de apresentar algumas oscilações de ritmo - o que é plenamente compreensível -, o filme aborda questões interessantes, debatendo a fragilidade humana perante a morte e as inesperadas circunstâncias da vida, a qual estamos sujeitos diariamente, brincando com a continuidade do mês de agosto com o uso de uma metáfora de amplos significados.


Redemoinho (Maelström, 2000)


Aqui é possível notar uma confiança maior em Villeneuve, que se arrisca mais com a câmera, apresentando novamente a mulher como protagonista, só que desta vez, com um desenvolvimento mais trabalhado. Em Redemoinho nos deparamos com um narrador nada comum: um peixe em péssimo estado. Sua fala nos introduz à vida da jovem Bibiane (Marie-Josée Croze), a qual conhecemos deitada em uma mesa de hospital, realizando um aborto. Dias depois, com dificuldade em lidar com sua decisão, somada à notícia de que está sendo afastada dos negócios pelo próprio irmão, a mulher acaba se embriagando ao sair para uma festa e atropela um homem, fugindo sem prestar socorro.

A atuação de Marie-Josée Croze (O Escafandro e a Borboleta) capta toda a culpa da personagem, que entra em uma espiral de sentimentos negativos. No entanto, a luz no fim do túnel para reverter sua situação acaba vindo da pessoa que ela menos poderia esperar. É através da lente de Villeneuve que somos capazes de criar empatia com a jornada tortuosa dessa mulher.

Redemoinho consegue misturar pequenas doses de humor em meio a tanta desgraça, criando situações inusitadas. A utilização dos peixes é essencial para a história, criando relação entre as cenas vividas pela personagem, evidenciando o sentimento de culpa. Como no momento em que sente o cheiro constante de peixe dentro do carro após a morte do sujeito, ou quando a câmera capta pequenas imagens que lembram o animal na espuma de seu café, quando descobre o nome da vítima.


Politécnica (Polytechnique, 2009)


Filmes baseados em fatos reais são arriscados por si só, mas um que ousa falar sobre uma tragédia tão pesada quanto a de Montreal, é realmente um desafio. Trata-se da história do assassinato de 14 mulheres da Escola Politécnica de Montreal, em 1989, por um rapaz mentalmente doentio e misógino. Politécnica é o terceiro trabalho de Villeneuve nos cinemas, após uma pausa de oito anos em sua carreira, e fez parte da seleção oficial do Festival de Cannes.

Optando acertadamente por uma fotografia em preto e branco, o diretor é paciente em recapitular os fatos com detalhes, não nos poupando de sentimentos que tornam o horror mais palpável. Apesar de não se aprofundar no desenvolvimento dos personagens, o que eu vejo como uma escolha do roteiro em respeito as vítimas, o filme consegue discutir o pior do ser humano através de suas imagens estarrecedoras. Ainda assim, mesmo após todo o sentimento de desolação, o desfecho busca uma fagulha de amor e esperança.


Incêndios (Incendies, 2010)


Incêndios abriu as portas para Denis Villeneuve em Hollywood. O filme foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e ao BAFTA, porém não venceu nenhum prêmio, ainda que tenha tido uma ótima repercussão. Aqui acompanhamos a história de dois irmãos gêmeos que acabaram de perder a mãe. Em seu testamento, a mulher deixa uma missão para os filhos: encontrar o pai, que nunca conheceram, e o irmão, que nem sabiam que existia. Para isso, será preciso uma viagem para o Oriente Médio, e é nessa jornada que mais segredos são trazidos a tona. 

Trata-se de um drama familiar, com contornos políticos e religiosos, e um plot twist que nos deixa atordoados e pensando na obra por dias. Todo o talento do diretor está presente neste longa, desde a construção narrativa, que nos conduz ao presente e ao passado com transições que nunca quebram a lógica do filme, até as cenas mais fortes, como a do ônibus. Uma história trágica, violenta e impactante na medida certa.


Os Suspeitos (Prisoners, 2012)


Esse foi o primeiro trabalho de Villeneuve com grandes nomes do cinema norte-americano em seu elenco. Em Os Suspeitos, duas famílias sofrem com o sequestro de suas filhas pequenas na mesma ocasião. O policial Loki (Jake Gyllenhaal) toma conta do caso e inicia a busca pelas garotas, mas em paralelo, Keller (Hugh Jackman), um dos pais, se mostra insatisfeito com as ações da polícia e inicia uma investigação por conta própria.

Cada um dos personagens encontra informações do caso à sua maneira e, dessa forma, Villeneuve utiliza sua experiência para desenvolver o ótimo roteiro de Aaron Guzikowski, que aponta dicas certeiras para o espectador de forma paciente, desenvolvendo a trama investigativa e a questão moral dos envolvidos em constante clima de tensão.

O filme teve uma ótima recepção e alcançou números expressivos de bilheteria, o que foi importantíssimo para consolidar a carreira do diretor em solo norte-americano.


O Homem Duplicado (Enemy, 2013)


O Homem Duplicado é, definitivamente, o filme do diretor que mais divide opiniões e críticas. Baseado no livro homônimo de José Saramago, o suspense nos apresenta a vida de Adam (Jake Gyllenhaal), um professor de história que leva uma vida pacata, até assistir um filme e observar que um personagem coadjuvante é interpretado por um homem fisicamente idêntico a ele. Intrigado com isso, ele decide atrás do rapaz para confirmar a semelhança entre eles.

Trata-se de um longa bem experimental, com uma linguagem mais visual e uma ambientação tensa e sombria, deixando o espectador sem saber o que esperar a cada nova cena. Há também o uso constante de metáforas e simbolismos em tela, que vão desde os diálogos do professor até a constante presença de duas figuras semelhantes, representadas, por exemplo, pelos prédios da cidade em paralelo à existência dos dois personagens. Há um porquê para cada pequeno detalhe da trama e é bastante comum que haja confusão com a quantidade de elementos que são expostos.


Sicario: Terra de Ninguém (Sicario, 2015)


Em Sicario temos um thriller policial não convencional, que nos dá poucos minutos para respirar, devido a grande tensão que o filme constrói. Somos iniciados na trama por meio de Kate Macer (Emily Blunt), uma agente do FBI que se junta a uma força-tarefa do governo em uma luta direta contra o cartel de drogas mexicano. O filme também conta com uma das melhores atuações da carreira de Benicio Del Toro (21 Gramas), que interpreta um dos agentes na missão.

Uma sequência que nunca esqueço é aquela em que a força-tarefa policial está atravessando a fronteira entre Estados Unidos e México. Diferente do que estamos acostumados a ver no gênero, não há explosões ou cenas mirabolantes. Tudo ali é construído da forma mais real possível, e é a condução da câmera de Villeneuve que te dá a imersão na cena. A grande força do filme é não cair nos clichês policiais e na "luta entre o bem e o mal", e nesse ponto o roteiro de Taylor Sheridan é extremamente eficiente em traçar a ambiguidade das ações daqueles agentes. A trama não é partidária e traz o questionamento do que consideramos ser "justiça" contra o crime e o limite dos princípios de cada um em busca de uma resolução na guerra contra o narcotráfico.


A Chegada (Arrival, 2016)


Baseado no conto "A História de sua Vida" (1999), de Ted Chiang, e com roteiro adaptado por Eric Heisserer, A Chegada foi a primeira ficção científica de Villeneuve. O pouso de doze OVNIS ao redor do mundo é o pontapé inicial para o desenvolvimento da história. Para descobrir o motivo pelo qual esses seres desconhecidos vieram à Terra, a Dra. Louise Banks (Amy Adams) é convocada pelo governo norte-americano para usar seu conhecimento linguístico e estabelecer alguma comunicação em prol de descobertas com os extraterrestres.

Em meio a esse fato, o mundo entra em caos e o medo do desconhecido gera reações violentas e extremistas por parte da população, que logo atingem também as ações dos governantes. Com pouco tempo para encontrar uma solução, Banks será a intermediária da situação, cumprindo um papel muito mais importante do que pensava. 

Temos aqui uma abordagem de viagem no tempo fora do convencional em termos de atuações, roteiro e direção. A Chegada rendeu notoriedade a Villeneuve, recebendo 8 indicações ao Oscar (incluindo Melhor Diretor e Melhor Filme).


Blade Runner 2049 (idem, 2017)


O mais recente lançamento do diretor foi Blade Runner 2049, a aguardada sequência do clássico cult Blade Runner: O Caçador de Androides (1982). O projeto demorou a sair do papel e, segundo o cineasta, teve até algumas adaptações no roteiro para ficar mais com a "sua cara" em termos de estilo e sensibilidade.

É até complicado dizer que este filme é uma continuação, pois em muitos momentos parece apenas que se passa no mesmo universo do original, desenvolvendo outras questões morais e individuais acerca do mundo distópico co-habitado por humanos e replicantes, e explorando ainda mais as camadas dessa relação. Para os adoradores do clássico, há muito fan service e Villeneuve claramente se esforçou para manter a ambientação noir e a decadência futurista de seu antecessor, não poupando o espectador de planos que valorizam o deslumbrante cenário construído. 

Apesar das impressões positivas dos fãs e da crítica, a bilheteria ficou abaixo do esperado, caracterizando o que seria uma "baixa" em termos de arrecadação na carreira do diretor. Quanto a isso, cabe a cada um julgar se o problema está realmente na obra ou na forma com que o público atual encara a temática. Se pararmos para lembrar, o longa original também não foi bem recebido em 1982.

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