CRÍTICA | A Costureira de Sonhos

Direção: Rohena Gera
Roteiro: Rohena Gera
Elenco: Tillotama Shome, Vivek Gomber, entre outros
Origem: Índia / França
Ano: 2018


Muito vezes, para agradar e entreter o público, não é preciso ter muita criatividade, e sim saber executar o básico. Este é o caso de A Costureira de Sonhos (Sir), longa-metragem da diretora indiana Rohena Gera (What's Love Got to Do with It?).

Na trama, Ratna (Tillotama Shome) trabalha como empregada doméstica na casa de Ashwin (Vivek Gomber), membro de uma família rica. Enquanto ele tem tudo de que precisa, mas está perdido após um término de noivado, ela tem muita esperança e determinação para alcançar o seu sonho de se tornar uma designer de moda, mesmo contra todas as perspectivas de sua origem pobre. Dois mundos muito distintos que se aproximam por uma inesperada conexão, mas que possuem barreiras complicadas de se ultrapassar.

Gera trata de um assunto delicado ainda hoje na Índia, a relação entre a classe média e seus ajudantes domésticos, com muita leveza e respeito. O título original “Sir” é a distância imposta com que Ratna trata o patrão Ashwin durante quase todo o filme. A cineasta trabalha o tempo todo com contrastes, seja utilizando elementos imagéticos ou através de diálogos explicativos. Além disso, também apresenta uma visão feminina da opressão patriarcal na sociedade indiana e como uma mulher simples pode romper barreiras por meio da sua perseverança e esforço para concretizar seus desejos.

Através da protagonista, o roteiro nos envolve em uma dinâmica simples, mas conflituosa, ao deixar resplandecer a pureza dos anseios da personagem e as suas abnegações por conta dessa construção social. 

Foto: Imovision

Quando tudo parece entrar nos eixos, um relacionamento amigável com o patrão e a possibilidade de fazer aulas de corte e costura, a protagonista recebe a notícia de que sua irmã mais nova vai casar e mudar para Mumbai, antes de terminar os estudos. A diretora evidencia que depois do casamento é uma decisão do marido deixar a mulher estudar ou trabalhar. A sociedade em que Ratna está inserida é fundamental para entendê-la e admirar a sua benevolência diante das dificuldades. 

Pequenas questões do cotidiano da personagem vão nos mostrando sua combalida liberdade. Por ser viúva, por exemplo, ela não pode estar presente na cerimônia de casamento da própria irmã, muito menos aparecer nas fotos. Por conta de sua vestimenta pobre, sua presença em uma loja de roupas é impugnada. Ela come sempre sentada no chão e com as mãos em razão de sua posição na pirâmide social. São vários singelos exemplos que recobrem essa mensagem e nos fazem admirar a personagem por lutar ao invés de ressentir-se.

Como uma mulher indiana, a diretora faz um ótimo trabalho sobre as perspectivas femininas inseridas nessa cultura. Embora Ashwin apaixone-se por Ratna, a resolução do embate entre o desejo e a perspectiva futura de vida, encontra uma saída real. A cena final é a concretização de Ratna, é a prova de que o filme não é sobre o romance dos dois, e sim sobre seus sonhos. É quase um La La Land indiano, só que sem ser musical.

As boas interpretações ajudam muito na aproximação do espectador com as personagens, especialmente a química entre a dupla de protagonistas Tillotama Shome (Um Casamento à Indiana) e Vivek Gomber (Tribunal), que é um dos pontos altos do longa-metragem.

Foto: Imovision

Além disso, em nenhum momento o filme deixa de ser colorido. Sua fotografia quente retrata não apenas o espírito do país onde a história se passa, mas também reforça a leveza com que as coisas acontecem. 

A Costureira de Sonhos é um longa-metragem leve, que segue com uma narrativa fluida e no ritmo da rotina. Pode parecer, à primeira vista, apenas um drama leve, e poderia se tornar uma comédia romântica clichê. Mas ao final é, na verdade, um tapa na cara dos sonhadores que não conhecem a dura realidade da Índia. Uma singela e esperançosa mensagem sobre liberdade

Ótimo

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