CRÍTICA | Oitava Série

Direção: Bo Burnham
Roteiro: Bo Burnham
Elenco: Elsie Fisher, Josh Hamilton, Emily Robinson, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2018


Em uma geração cada vez mais conectada e distante do mundo real, é preciso ter coragem e o olhar atento para transpor um recorte do estilo de vida atual da juventude e transformá-lo em filme. O comediante - que também é cantor e YouTuber - Bo Burnham (Chris Rock: Tamborine) se arriscou no gênero "coming of age" e estreou como diretor de longas-metragens com Oitava Série (Eighth Grade), obra de 2018, cujo roteiro também é dele.

Burnham, conhecido por seu trabalho nas plataformas digitais, declarou que usou a pressão e o sentimento de ansiedade que experimentou em sua carreira para desenvolver a história de Kayla (Elsie Fisher), uma adolescente que está prestes a integrar o ensino médio. Envolta por tecnologia o tempo todo, dos aparelhos eletrônicos que utiliza a todo momento aos vídeos motivacionais que publica em um canal próprio no YouTube, a garota é um retrato da antítese vivida por tantos jovens na atualidade: a facilidade em criar uma persona virtual que pouco (ou nada) tem em comum com a pessoa da vida real.

Oitava Série oscila entre a comédia e o drama, o que funciona muito bem e nos ajuda a compreender a garota num campo mais profundo, muito em função das poucas relações que consegue estabelecer. Outro ponto positivo na construção de Burnham é o desenvolvimento do ambiente e da própria protagonista. O filme foge do óbvio por não utilizar do bullying adolescente como mensagem, retratando a vida daquele jovem que está sempre presente e nunca é notado: o aluno "fantasma", o qual também sofre por se apresentar com uma personalidade quieta e introvertida.

Foto: A24

O ambiente escolar retratado no longa também é importante para entendermos o contexto que Burnham criou, pois a própria instituição é problemática ao incentivar estereótipos que nos acompanham da infância à fase adulta. Kayla é uma dessas jovens que sofre por não se encaixar no padrão, e por mais que a obra tenha momentos leves, as cenas de tensão não nos poupam da angústia de presenciar o quão negativa é essa divisão imposta nas relações sociais desde a nossa juventude. Divisão essa que, com o adendo da internet e das redes sociais, muitas vezes se torna uma experiência ainda mais dolorosa.

É visível o cuidado que Elsie Fisher (Meu Malvado Favorito) teve em captar todo o desespero e a ânsia por aceitação de sua protagonista, tão visíveis em seu tom de fala e na dificuldade em estabelecer contato visual. Tanto que a jovem atriz segue colhendo os frutos de seu trabalho, com o prêmio que ganhou no Gotham Award, na categoria melhor ator/atriz revelação, além da indicação ao Globo de Ouro. Uma resultado que certamente não seria possível sem o direcionamento de Burnham e sua compreensão acerca das consequências de quem cresceu no meio digital.

Por fim, destaco também as cenas dos vídeos de Kayla no YouTube. Nada melhor do que representar a nova geração por meio de pessoas que escolheram conversar por meio de uma câmera, tentando transmitir alguma mensagem. No entanto, a personagem é feliz em suas reflexões e demonstra uma perspicácia genuína para sua idade, como observadora que é. Em seus vídeos ela impressiona pela simplicidade das palavras, ao mesmo tempo que nos atinge com verdades tão óbvias, mas que insistimos em relutar. O pai da garota que está certo quando afirma que ela é incrível.

Foto: A24


Ótimo

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