[crítica] Serpico

Direção: Sidney Lumet
Elenco: Al Pacino, John Randolph, Barbara Eda-Young e Cornelia Sharpe
Ano: 1973


O que foi a década de 70 para o cinema? Aqueles que apreciam a 7ª arte sabem que esse foi um dos períodos mais ricos da história cinematográfica, que nos presenteou com obras grandiosas ano a ano. Filmes como “Operação França” (1971), “O Poderoso Chefão” (1972), “O Exorcista” (1973), “Chinatown” (1974), “Um Dia de Cão” (1975), “Rocky – Um Lutador” (1976), “Star Wars – Episódio IV” (1977), “O Franco Atirador” (1978) e “Apocalypse Now” (1979) e tantos outros que deixo para citar em uma próxima oportunidade. “Serpico” (1973) ocupa posição privilegiada nessa lista por ser, por si só, uma grande obra, mas também por estabelecer seu protagonista e diretor na indústria do cinema. 

Al Pacino é Frank Serpico, um policial ítalo-americano de caráter integro e honesto que, com o passar dos anos, encontra-se rodeado pela corrupção da corporação em que trabalha e da “sujeira” das ruas da Nova York pós-guerra do Vietnã. Saber que a história desse oficial de fato existiu, ajuda a dar credibilidade e verossimilhança ao personagem, no entanto, é a atuação de Pacino que a torna memorável. Logo no primeiro terço do filme constatamos a paixão de Serpico por sua profissão e o impulso incontrolável de cumprir seu dever. Sentimento que é explicitado quando, ao ouvir pelo rádio que um crime acontece nas proximidades, é informado por seu parceiro de patrulha que não podem atender a ocorrência por a mesma estar fora do limite territorial pré-estabelecido. O protagonista então não hesita e atende a ocorrência ainda assim. Faz parte de sua obrigação para com a população que jurou proteger. 

A ascensão de Serpico na corporação, no entanto, é sabotada justamente por suas maiores qualidades. Em meio à corrupção a sua volta, um policial honesto não é uma pessoa confiável, e o fato de não aceitar propina e benefícios provenientes da ilegalidade, torna do protagonista uma ameaça direta a seus colegas corruptos que o cercam. E é nesse ponto da trama que notamos a transformação na atuação de Pacino. Se antes a jovialidade e empolgação do personagem chamavam a atenção, o sentimento que toma conta é o de constante tensão e preocupação, geradas pela lamentação e decepção sofridas ao perceber que a profissão que tanto amava, agora é motivo de sua vergonha e indignação. O ator demonstra esses sentimentos com maestria quando, a paisana, realiza uma prisão em flagrante e, ao mesmo tempo, grita desesperadamente com outros policiais que atiravam em sua direção (tensão), para logo em seguida conceder à prisão aos mesmos, que a solicitaram, para tentar compensar com a chefia o erro que cometeram (indignação). 
 
E se o clima denso e envolvente cresce a cada momento na trama, certamente também se deve a direção apurada de Sidney Lumet, que mescla com exatidão a trajetória turbulenta de seu protagonista e as conseqüências que esta causa em sua vida pessoal e amorosa. E é justamente em sua vida pessoal que ratificamos a bondade e o caráter de Serpico, quando trata com carinho seu cão de estimação, quando fala com sua mãe em sua língua nativa e no bom humor com que flerta com suas namoradas. Momentos retratados com beleza por Lumet, sem tirar o crédito do roteiro baseado no livro de Peter Mass e escrito a duas mãos por Waldo Salt de “Perdidos na Noite” (1969) e Norman Wexler que viria a escrever “Os Embalos de Sábado à Noite” (1977). 

Ainda que o elenco de apoio, pouco conhecido, em nada deixe a desejar e a fotografia remeta com maestria a realidade crua da Nova York dos anos 70, a trilha sonora de Mikis Theodorakis merece maior menção, retratando de forma bela o período em que se passa a trama e destacando as raízes italianas do protagonista. Partes fundamentais de uma obra que merecia maior destaque em tempos contemporâneos, especialmente se notarmos que sua temática, após tantos anos, ainda é atual. O sentimento de esperança perdida ao término do filme é o mesmo que, provavelmente, deve permear a mente de muitos que o assistiram.


Excelente!

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