CRÍTICA | O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos

Diretor: Peter Jackson
Roteiro: Peter Jackson, Philippa Boyens, Guillermo del Toro e Fran Walsh
Elenco: Martin Freeman, Richard Armitage, Ian McKellen, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Lee Pace, Luke Evans, Cate Blanchett, 
Hugo Weaving, Chistopher Lee e Benedict Cumberbatch
Origem: Estados Unidos/Nova Zelândia
Ano: 2014




Quando escrevi sobre Uma Jornada Inesperada e A Desolação de Smaug, ressaltei a frustração de constatar que Peter Jackson (Um Olhar no Paraíso) havia se rendido a indústria, sacrificando a qualidade de sua obra em prol do retorno financeiro que uma trilogia daria. É evidente que a adaptação de um único livro - que tem uma história bem mais singela, se comparada a O Senhor dos Anéis - em três filmes abriria espaço para muita enrolação e adição de conteúdo de qualidade duvidosa. E assim foi. Enquanto o primeiro longa soou mágico e nostálgico pelo retorno à Terra Média, o segundo foi uma decepção, quase uma enganação, pela forma que foi conduzido e montado. O que nos traz a esse O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos (The Hobbit: The Battle of the Five Armies), que novamente apresenta uma série de problemas, mas que afinal é um bom filme.

Após o dragão Smaug (Benedict Cumberbatch) deixar a Montanha Solitária em direção ao vilarejo, onde acontece o aguardado confronto com Bard (Luke Evans), Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) e os anões presenciam Thorin (Richard Armitage) sucumbir perante a ambição de preservar o vasto tesouro de sua raça. Longe dali, Gandalf (Ian McKellen) enfrenta a ameaça do necromante, ao mesmo tempo em que um exército de orcs, um exército de elfos e um exército de anões caminham em direção a Montanha.

Logo de início temos a constatação de um grave erro cometido por Peter Jackson ao reservar o ataque de Smaug para essa terceira parte ao invés de mostrá-la no encerramento do filme anterior. De imediato somos apresentados ao vilarejo sofrendo com labaredas de fogo da criatura, algo que acaba soando anti-climático, pois não tivemos tempo de entrar na história e absorvermos todas as nuances que aquele momento envolve. Não há tempo, por exemplo, para nos importarmos novamente com a motivação de Bard. E se levarmos em conta a importância desse personagem dali em diante na trama, entendemos o quanto a cena é problemática. Se não bastasse, o cenário excessivamente escuro prejudica um pouco a experiência, visto que o longa é filmado em 3D.

Seguindo a lógica da franquia, A Batalha dos Cinco Exércitos mostra-se uma obra rica no que diz respeito a direção de arte, cenários, locações, objetos de cena e figurinos. E se há algo que posso apontar como negativo é a maquiagem digital empregada em Orlando Bloom. É evidente que o ator envelheceu dez anos desde que interpretou Legolas pela primeira vez, não sei se havia necessidade disso. O arqueiro, aliás, continua sendo um deleite visual nas cenas de ação, com suas acrobacias inimagináveis. Por mais inverossímeis que elas possam ser - até mesmo para os elfos -, me pergunto se é possível não se empolgar em suas batalhas. E foi interessante notar como um combate ia se interligando com os demais que aconteciam por perto, trazendo uma dinâmica admirável para as cenas de ação.

O roteiro não é particularmente inspirado e tampouco consegue acrescentar no aspecto emocional, o que é uma pena, pois dificilmente nos importamos por completo com o destino dos protagonistas. Apresenta também alguns personagens secundários dispensáveis, como o serviçal de caráter (e humor) duvidoso, que só faz passar os outros para trás. Na verdade, a obra é inteira um grande clímax, que tem, por característica, o destaque às cenas de ação e a conclusão da trama. Nesse ponto o filme funciona muito bem, visto que as 2 horas e 20 minutos de projeção passam rapidamente.

E se me incomodei com a falta de apego emocional para com a trama, devo dizer que fui fisgado nos momentos em que a obra fez referências à trilogia O Senhor dos Anéis. Seja mais explicitamente na batalha de Elrond (Hugo Weaving), Galadriel (Cate Blanchett) e Saruman (Christopher Lee) contra o necromante, ou mais sutilmente, quando Legolas conversa com Thranduil (Lee Pace) sobre Passolargo, e escutamos brevemente, ao fundo, a melodia de A Sociedade do Anel. A trilha de Howard Shore não conseguiu me empolgar durante o longa, mas esse momento foi de arrepiar, confesso.

Contando ainda com o momento mágico em que elfos e anões se unem no campo de batalha, além do grande duelo entre Thorin, Escudo de Carvalho e Azog, A Batalha dos Cinco Exércitos encerra a trilogia de maneira digna, mas sem conseguir maquiar as irregularidades de um projeto que visou primeiramente o lucro, abrindo mão de uma narrativa coesa. Prova disso é ver que Bilbo Bolseiro (Martin Freeman, fantástico) quase passou batido nessa crítica, desperdiçando um grande ator em tela, além, claro, do personagem que da nome ao filme.


Bom


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 Trailer legendado: 



O Cinéfilo em Série conferiu a pré-estreia de O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos à convite do Cine Roxy. O cinema estreou um novo sistema de projeção 4K Digital, um novo sistema de som Dolby Digital Imersivo e o primeiro 3D Smart Crystal Diamond da América Látina. Se você é de Santos ou região, não deixe de conferir a nova tecnologia da sala, a qualidade de som e imagem é absurda. Seguramente uma das melhores opções da região.

Comentários

  1. Novamente, parabéns pelo formato do programa. Muito bom o esforço em manter uma pauta.


    Até hoje não assisti Following e Insomnia. Suspeito que esses sejam os únicos filmes do Nolan lançados em dvd/blu-ray com trilha de comentários.


    Meus 3 filmes favoritos do Nolan são The Dark Knight, Inception e The Prestige.


    Gosto muito mesmo de The Prestige. Entendo e gostei muito da argumentação sobre o caráter "inexplicável" da invenção apresentada no filme pelo David Bowie. Porém esse aspecto não me incomodou, talvez por eu ficar tão deslumbrado na parte técnica, principalmente na quantidade de "pistas/recompensas" plantadas ao longo do filme.


    Acho que no próprio blu-ray lançado nos EUA de The Prestige há um extra interessante onde comentam que existe um certo, digamos, "mito" sobre as invenções reais de Tesla. Há crença que nem todas invenções do Tesla são de fato conhecidas. Era algo especial para o Nolan homenageá-lo, e ele sempre tinha em mente que teria que ser interpretado pelo David Bowie.


    Inception é fantástico. Mas tem um ponto fraco que me incomodou um pouco ao revê-lo depois da primeira vez: há muitas falas "technobabbles" com a Ariadne. Isso foi algo que acabou se agravando muito em Interstellar.


    Concordo em tudo que vocês falaram sobre The Dark Knight. Minha experiência foi muito positiva ao vê-lo nos cinemas porque não conhecia o Nolan até então, não tinha assistido Batman Begins, e baixa expectativa.


    The Dark Knight, imagino, foi concebido para atingir maior público possível. E, nesse ponto, sou obrigado a apontar algo nele que poderia ser melhor. Notem que mal aparece sangue na tela. Seria talvez uma experiência mais interessante se pudéssemos ver não só o efeito psicológico das ações do Coringa, mas também um pouco da "carnificina" que o Coringa causa.


    O filme do Nolan que mais me incomoda é também The Dark Knight Rises. Além das falhas que vocês comentam, eu gostaria de adicionar também que me incomoda em não termos uma boa noção do espaço geográfico da ação, isso fica mais evidente nesse filme na sequência em que o Batman reaparece. Um amigo até notou e chamou atenção que é estranho porque a seqüência parece começar durante a luz do dia e, de repente, já está tudo escuro.


    Um outro ponto interessante que vocês comentam e me incomoda muito: os extras dos filmes do Nolan. Perfeita a observação que eles acabam se resumindo a detalhes técnicos. Fiquei muito desapontado ao conferir os extras do segundo disco do blu-ray norte-americano de The Dark Knight, por exemplo. E engraçado que ele acaba lembrando o Tarantino nessa questão de evitar lançar trilhas de comentários do próprio filme.


    Novamente parabéns pelo site. Ótimo conteúdo.

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