Itinerância da Mostra Internacional de Cinema em Santos | Dia 1


Ontem começou a Itinerância da Mostra Internacional de Cinema em Santos/SP, cidade que nasci e resido. Serão exibidos 10 filmes ao longo de 4 dias para nenhum amante de Cinema botar defeito. Eu, através do Cinéfilo em Série, estarei lá cobrindo o evento de ponta a ponta.

Para conferir a programação completa da Mostra é só clicar AQUI! Se você é de Santos, da Baixada Santista, ou estará por aqui nos próximos dias, não pode perder.

A Itinerância é fruto de uma parceria entre Sesc Santos e Cine Roxy. Os filmes estão sendo exibidos no Roxy 4 do Shopping Pátio Iporanga, na Av. Ana Costa, 465, no bairro do Gonzaga.

Abaixo as críticas para os 2 primeiros longas exibidos. Até amanhã!


Diretor: Dominik Graf
Roteiro: Dominik Graf
Elenco: Hannah Herzsprung, Henriette Confurius e Florian Stetter
Origem: Alemanha/Áustria/Suiça

1) Duas Irmãs, Uma Paixão (Die geliebten Schwestern, 2014)

Um dramalhão. No melhor ou no pior sentido da palavra, mas isso dependerá de seu gosto pessoal. Duas Irmãs, Uma Paixão já entrega em seu título brasileiro o que se esperar de toda a obra, restando poucas surpresas ao espectador. Me surpreendeu saber, no entanto, que esse foi um dos selecionados da Alemanha para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, visto que de fato não temos um grande exemplar aqui.

A trama se passa em 1788, em uma cidade de interior na Alemanha. Charlotte (Henriette Confurius) é uma jovem tímida, que sonha em se casar. Sua irmã, Caroline (Hannah Herzsprung), já é casada, mas infeliz. As duas são muito unidas, porém acabam tendo sua relação abalada com a chegada de um jovem poeta a cidade, visto que ambas se apaixonam pelo rapaz.

Talvez o principal problema do longa seja que em momento algum compramos a ideia das duas irmãs se apaixonarem por um homem tão "sem sal". Com a exceção de uma cena heroica em que o mesmo mergulha num rio (sem saber nadar) para salvar um cachorro, não há mais nada de atraente no rapaz. Pelo contrário, por vezes descobrimos que o mesmo era um mulherengo de primeira linha, envolvendo-se inclusive com mulheres casadas. O que viria a fazer da vida das irmãs um tormento. Acabou sendo mais do mesmo, e o homem pouco pareceu se importar com isso ao longo da obra.

Óbvio que nem tudo é negativo. Se o roteiro não agrada, ao menos os aspectos técnicos do longa são muito bem trabalhados. Os cenários e figurinos, ainda que singelos (imagino que o orçamento não tenha sido grandioso), cumprem com o objetivo e nos fazem imergir para o século em que a narrativa se passa. O mesmo podemos dizer das belas locações campestres escolhidas, que são valorizadas pela fotografia sempre bastante iluminada e calorosa, tornando o visual do filme bem agradável aos olhos.

Outro fator agradável é o tom bem humorado que permeia quase toda a obra, sempre descontraindo momentos, por vezes, dramáticos (como quando um homem faz uma piada de família após uma grandiosa discussão entre as irmãs). O diretor Dominik Graf também mostra-se arrojado, utilizando de movimentos de câmera não convencionais, cortes rápidos, além da quebra da quarta parede em certos momentos. Tais decisões dão uma dinâmica interessante ao longa, e me fizeram lembrar de obras como Desejo e Reparação, ou mesmo alguns takes de Wes Anderson.

Contando ainda com um ou dois momentos marcantes, como quando as irmãs utilizam do calor de seus corpos para aquecer o rapaz, ou ainda quando uma delas transa pela primeira vez com o mesmo (cena extremamente sensual, sem precisar mostrar absolutamente nada), Duas Irmãs, Uma Paixão mostra-se uma obra mediana. Desenvolve aspectos interessantes, mas perde-se num roteiro pobre que não garante o bom ritmo da narrativa até sua conclusão.

Regular

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Diretor: Olivier Assayas
Roteiro: Olivier Assayas
Elenco: Juliette Binoche, Kristen Stewart e Chloë Grace Moretz
Origem: Alemanha/França/Suíça

2) Acima das Nuvens (Clouds of Sils Maria, 2014)

Maria Enders (Juliette Binoche) é uma atriz de sucesso mundial que é convidada para reencenar uma peça que protagonizou 20 anos mais jovem. Na ocasião, a mesma interpretava o papel de Sigrid, uma jovem sedutora que acaba levando sua chefe ao suicídio. Agora interpretará Helena, a chefe que se suicidou. Para preparar-se para o trabalho, Maria viaja com sua assistente pessoal, Valentine (Kirsten Stewart), para Sils Maria, uma região remota nos alpes suíços, onde enfrentará dilemas pessoais nutridos ao longo dos anos.

A primeira vista Acima das Nuvens aparenta ter uma trama simples, sem grandes reviravoltas. Ledo engano, pois a obra de Olivier Assayas (Paris, Te Amo) vai além da expectativa, nos apresentando discussões interessantes sobre carreira profissional, a mídia contemporânea, aceitação do envelhecimento e, por que não, uma análise do próprio Cinema enquanto indústria. Se isso não bastasse, o roteiro - também de Assayas - centraliza suas atenções quase que exclusivamente em personagens femininas multifacetadas, ou seja, independentes, munidas de personalidade, atitude e sem esteriótipos rasos, algo ainda muito raro em longas-metragens, infelizmente.

Personagens tão ricas em sua concepção costumam ser um prato cheio para grandes atrizes, é o caso de Juliette Binoche (Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada), que costumeiramente não decepciona. Sua Maria vive um eterno conflito entre aparentar uma imagem confiante e radiante de uma celebridade internacional, e vivenciar as agruras das inseguranças para com sua idade e seu trabalho atual. Se no primeiro ato da trama a vemos belíssima em tela, produzida e decotada como toda grande estrela, nos atos seguintes, em que vive isolada para ensaios, a vemos se trajar da forma que se sente confortável, mudando bruscamente de aparência.

Ainda que Binoche se destaque com sua sensível atuação, é Kirsten Stewart (Corações Partidos) quem rouba a cena (algo que nunca me imaginei afirmando). A composição visual de sua personagem é marcante: óculos no rosto, cheia de tatuagens, figurino despojado, celular sempre a mão. Aliado a isso, Stewart entrega aquele que pode ser considerado seu melhor trabalho até hoje, sabendo dosar muito bem os momentos dramáticos e a intimidade com que lida com sua chefe. Por vezes os ensaios que as duas protagonizam se misturam com suas relações, o que torna o desfecho da obra ainda mais atrativo.

O roteiro também é hábil em trabalhar os diálogos - sempre fluídos - que elevam sutilmente uma conversa amigável para uma discussão emocionalmente catastrófica. Gosto especialmente de quando os personagens citam personalidades reais como Harrison Ford e Sidney Pollack, ou mesmo quando fazem referência a quantidade de filmes de super heróis que são produzidos atualmente. Tudo isso traz verossimilhança a narrativa, fazendo com que qualquer espectador se relacione minimamente com o que está sendo visto em tela.

Se nem tudo é perfeito, o longa-metragem não saber lidar ao certo com a personagem de Chloë Grace Moretz (Kick-Ass 2), retratando-a de forma diferente em 3 momentos distintos da trama, fazendo com que soe deslocada daquela realidade e causando estranheza no espectador. Afinal, vemos a personagem tomar atitudes que não condizem com o que fora apresentado até então. Essa situação especifica, além da ausência de Valentine no ato final, prejudicam o resultado do filme.

Ainda assim, Acima das Nuves mostra-se uma obra competente, com boas interpretações e visuais belíssimos. Afinal, não tem como uma fotografia nos alpes suíços ficar feia.

Muito Bom




A cobertura da Itinerância da Mostra Internacional de Cinema em Santos só foi possível graças ao convite do Cine Roxy, que realiza o evento com sucesso na região já pelo 3º ano consecutivo. Deixo aqui registrado meu agradecimento em nome do Cinéfilo em Série.

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