Itinerância da Mostra Internacional de Cinema em Santos | Dia 3



E vamos para o 3º dia de Itinerância da Mostra Internacional de Cinema em Santos/SP, cidade que nasci e resido. E hoje a noite é o último dia do evento. Para conferir a programação completa da Itinerância é só clicar AQUI! Se você é de Santos, da Baixada Santista, ou estará por aqui nos próximos dias, não pode perder.

A Itinerância é fruto de uma parceria entre Sesc Santos e Cine Roxy. Os filmes estão sendo exibidos no Roxy 4 do Shopping Pátio Iporanga, na Av. Ana Costa, 465, no bairro do Gonzaga.

Abaixo as críticas dos longas exibidos no dia 3. Até amanhã!

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Diretor: Naomi Kawase
Roteiro: Naomi Kawase
Elenco: Jun Yoshinaga, Nijirô Murakami, Makiko Watanabe, Jun Murakami, Tetta Sugimoto e Fujio Tokita
Origem: Japão/Espanha/França

5) O Segredo das Águas (Futatsume no mado, 2014)

Logo em uma de suas cenas iniciais, O Segredo das Águas mostra - em um close-up visceral - um senhor raspando e abrindo um corte no pescoço de um bode. Minutos depois, no meio de uma madrugada, vemos um rapaz encontrando o corpo de um homem tatuado flutuando na beira do mar. Ambas as cenas chocam o espectador de imediato, como acontece com a morte em si. Trata-se de um acontecimento que não estamos preparados para lidar, e esse é o tema recorrente do longa-metragem da diretora e roteirista Naomi Kawase.

A trama se passa na ilha japonesa Amami-Oshima, onde as tradições que envolvem a natureza não foram perdidas. Kaito (Nijirô Murakami) foi o jovem que encontrou o cadáver à beira-mar, Kyoko (Jun Yoshinaga) é sua namorada. Juntos eles aprenderão a tornarem-se adultos, experimentando delicadas relações entre o amor, a vida e a morte.

Kawase nos entrega uma obra bastante contemplativa, de longos planos e pausas entre os diálogos, algo que, confesso, me incomodou em alguns instantes, ainda que entenda seu objetivo com tais escolhas. Há planos quase intermináveis em que a diretora enquadra, em silêncio, o rosto de algum personagem, meio que deixando que o espectador adentre seus pensamentos. Havendo conexão com a obra, esse tipo de cena pode ser um prato cheio para reflexão.

Me agrada a sutileza com que a diretora lida com a construção de cada personagem. Em uma das primeiras cenas de Kaito, por exemplo, vemos o garoto sozinho em casa quando recebe o telefonema da mãe. Sua conversa quase monossilábica com ela diz muito da relação dos dois, problemática e distante. Isso resultará em um dos clímax da narrativa, quando o garoto deixa sua emoção falar mais alto, após um longo período introspectivo e com a personalidade reprimida.

Sua parceira, Kyoko, é quem tem o arco narrativo mais interessante, pois tem uma família unida e feliz, mas está em vias de perder a mãe para uma séria doença. A fascinação dolorosa com que admira a morte do bode, em determinado momento, diz muito do que a personagem vivencia ao longo da obra, se preparando para uma grande perda.

Sou um admirador da cultura japonesa, isso por si só me deixaria encantado com o trabalho artístico desse filme. No entanto, a ambientação em uma ilha de população humilde, tornou tudo mais envolvente, visto que lá a cultura oriental ainda é muito viva. Tal escolha possibilitou cenas como a partida da mãe de Kyoko, ao som de canções e danças típicas de seus entes queridos. Foi como um ritual de passagem, um dos momentos mais tocantes da narrativa. O mesmo pode-se dizer do belíssimo desfecho em que vemos o casal nadando nu no mar límpido, algo que tem um simbolismo marcante para com a trama.

Por fim, vale destacar as belas locações da ilha japonesa, que enfrenta diversas variações climáticas ao longo da projeção, mas nunca deixa de encantar os olhos do espectador graças, claro, a eficiente fotografia empregada. O Segredo da Águas é esse tipo de filme, que enfrenta diversas variações de emoções e sentimentos, mas que em todos eles nos atrai de alguma maneira.


Muito Bom

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Diretor: Andreas Arnstedt
Roteiro: Andreas Arnstedt e Horst Fichte
Elenco: Gertie Honeck, Ralf Lindermann, Thilo Prothmann e Jan Henrik Stahlberg
Origem: Alemanha

6) O Cuco e o Burro (Der Kuckuck und der Esel, 2014)

Sabe quando você começa a assistir a algum filme, mas quase nenhum elemento dele te agrada? Foi o que aconteceu comigo e esse O Cuco e o Burro. Desde os primeiros minutos não me senti fisgado pela narrativa que era contada, o que tornou minha experiência com o longa um tanto quanto incômoda. Mas me pergunto se essa não foi uma das intenções do diretor alemão Andreas Arnstedt, passar uma sensação incomoda ao espectador.

Conrad Weitzmann (Thilo Prothmann) é um aspirante a roteirista que teve seu projeto recusado inúmeras vezes após 5 anos de incessantes trocas de e-mails com o produtor Stuckradt Halmer (Jan Henrik Stahlberg). Desesperado e com a convicção de que seu projeto é promissor, Weitzmann resolve sequestrar Halmer, na intenção de persuadi-lo a produzir seu roteiro. Obviamente isso não poderia acabar bem.

Toda a sinopse acontece logo no início da obra, de forma que, em menos de 15 minutos de projeção já vemos Halmer confinado no porão da pequena casa de campo dos Weitzmann. O grande problema é que Conrad envolve toda sua família no sequestro, tornando a situação surreal e, de certa maneira, assustadora. Porém, é da bizarrice de toda essa bagunça que o diretor constrói o humor de sua narrativa.

A situação é tão absurda, mas tão absurda, que o espectador acaba rindo do que vê em tela. Como nas cenas em que a irmã do protagonista se apaixona pelo sequestrado, ou nas ameças do patriarca que soa extremamente perigoso, mas que é um doce quando lida com a família. O que talvez tenha prejudicado a minha imersão é a completa falta de carisma dos atores, que em nenhum momento me fizeram me afeiçoar a algum deles, nem mesmo o sequestrado, que merecia alguma compaixão.

O clima incomodo que citei, acredito, deve-se ao fato de rirmos de algo assustador que acontece em tela, mas que logo depois nos conscientizamos do quão terrível foi. E isso, ao meu ver, é uma falha de direção, pois falta empatia para que nos importemos com aqueles personagens. Diferente dos mafiosos nos filmes de gangsteres, aqui não consegui me afeiçoar a nenhum dos sequestradores para achá-los minimamente engraçados.

Se algo se salva, certamente é o interessante monólogo do patriarca da família, que fala sobre as consequências da Segunda Guerra e do nazismo na cultura alemã, bem como a Síndrome de Estocolmo que é retratada, basicamente, durante toda a projeção. Mas isso é muito pouco para que o longa se sustente.

Ruim

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Diretor: Miroslav Slaboshpitsky
Roteiro: Miroslav Slaboshpitsky
Elenco: Grigoriy Fesenko, Yana Novikova e Rosa Babiy
Origem: Ucrânia/Holanda

7) A Gangue (Plemya, 2014)

O primeiro plano de A Gangue mostra um enquadramento estático de um ponto de ônibus. Na cena vemos diversos elementos interagindo: uma mãe segurando a mão da filha pequena, um carro abandonado ao fundo, uma idosa que se senta para aguardar o transporte, um garoto que pede informação através de mimicas para um desconhecido. Como a principio não sabemos quem são nossos protagonistas, como saber no que devemos focar nossa atenção? Foi então que percebi que não tratava-se de uma obra comum. Havia alguém conhecedor de técnica cinematográfica no comando.

Um jovem surdo-mudo começa a estudar num internato especializado que abriga secretamente uma rede de crime organizado e prostituição entre seus estudantes. Neste novo ambiente ele é forçado a aceitar duras regras da gangue e passa a participar de assaltos para ganhar o respeito dos colegas. Um filme rodado inteiramente em linguagem de sinais, sem narração ou legendas, já que o amor e o ódio não precisam de tradução (trechos da sinopse oficial).

A constatação que fiz no primeiro parágrafo deve-se ao fato do diretor Miroslav Slaboshpitsky ter posicionado nosso protagonista no principal ponto de atenção do espectador em tela, comprovadamente o centro-direito. O conhecimento das principais técnicas de Cinema é o segredo do sucesso do longa-metragem, visto que, na ausência de diálogos ou legendas, o entendimento da trama dependerá dos movimentos de câmera e enquadramentos, bem como do trabalho dos atores.

Slaboshpitsky optou por rodar seu filme inteiro com longos e impressionantes planos sequência, algo que deve ter gerado um trabalho de ensaio e repetição descomunal durante as gravações. O diretor constantemente acompanha os passos dos atores utilizando uma steadycam, para logo em seguida enquadrar seu destino de forma estática, quase como um retrato propriamente dito da cena que assistimos. Essa escolha passa uma sensação de realismo constante, pois é quase como se acompanhássemos aqueles personagens lado a lado.

A fria cidade ucraniana é um personagem a parte, ajudando na ambientação de um longa que aparenta ter sido rodado quase inteiro em locações. Destaca-se a fotografia noturna, que utiliza de pouquíssimos, mas precisos, pontos de luz para iluminar somente o que precisamos enxergar. O que é muito importante, visto que é essencial que enxerguemos a expressão corporal dos atores para compreendermos a narrativa. A ausência de trilha sonora também é uma decisão acertada, dando espaço para o som ambiente do imenso silêncio causado pela falta de diálogos.

Todos os aspectos técnicos citados não impedem que a obra tenha um quebra de ritmo no fim do segundo ato, algo que não prejudica o resultado final, mas torna a experiência levemente cansativa. Digo isso pois foi nesse ponto da trama que comecei a sentir falta de alguma linha de diálogo. Uma falta que logo foi suprida por impactantes momentos que o roteiro reservava.

Dono de uma trama instigante e naturalmente chocante, por se tratar de uma organização criminosa de adolescentes, A Gangue mostrou-se uma grata surpresa, por retratar com realismo visceral a degradação de um jovem que busca aceitação através da violência, alguém que precisa pagar para ter a atenção da garota que admira. Há cenas que ficarão por algum tempo na minha lembrança, como a do atropelamento silencioso ou o aterrorizante aborto feito em uma das personagens.

Certamente um dos melhores filmes de 2014.


Excelente!

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A cobertura da Itinerância da Mostra Internacional de Cinema em Santos só foi possível graças ao convite do Cine Roxy, que realiza o evento com sucesso na região já pelo 3º ano consecutivo. Deixo aqui registrado meu agradecimento em nome do Cinéfilo em Série.

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