A Música nos Filmes



O cinema é uma arte que tem espaço para encaixar todas as outras. Pode-se até dizer que é o conjunto delas que o faz. No longo caminho que começa em uma ideia e termina em um filme, todo tipo de arte tem vez de existir e contribuir, e a combinação de imagem e áudio que vemos foi cuidadosamente preparada para moldar nossa experiência. Nada do que vemos ou ouvimos está lá por acaso.

Um bom filme conduz nossas emoções, quase sempre nos indicando como deveríamos estar nos sentindo frente à situação que estamos presenciando, com base no contexto que fomos apresentados. Isso pode ser feito de muitas formas: diálogo, enquadramento, montagem, fotografia, som. O que escutamos em um filme é sempre relevante e sempre tem um motivo de ser.

Escutamos um diálogo ou vemos dois personagens conversando mas não escutamos a conversa. Um enquadramento foca em algo que a princípio consideramos desnecessário, um jogo de luzes de repente altera a fotografia. Tudo depende do que o filme quer nos contar. O cinema é sempre uma troca, ele precisa da nossa resposta emocional para funcionar.

Quando se pensa em como a música pode ajudar a contar essa história, as possibilidades são inúmeras. Música é uma arte tão abundante quanto o cinema, tanto que é impossível não encontrar alguma canção que se encaixe perfeitamente para determinado momento, mesmo não tendo sido criada para ele. Seja ela utilizada de forma diegética (o personagem está escutando a música) ou não diegética (apenas o espectador escuta, não faz parte da realidade do personagem), a música ajuda a história a crescer.

Podemos observar o poder que a música tem, por exemplo, nessa cena de Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums, 2001) de Wes Anderson. Nela, temos dois personagens: Richie (Luke Wilson) e Margot (Gwyneth Paltrow).

Richie e Margot no momento em que se vêem

Após um ano sem se falarem, é a primeira vez que Richie vê Margot, sua irmã adotiva. A cena tem pouco diálogo e é bem curta, mas traz uma emoção muito grande. A canção ("These Days", de Nico) é o ponto principal aqui, usada de forma não diegética, carregando todos os sentimentos que os personagens ainda não conseguem verbalizar, com sua letra, "I don't do too much talking these days" ("eu não tenho falado muito esses dias", numa tradução livre) e seu ritmo melancólico, acentuado pelo uso da câmera lenta.


Aqui, até a letra se torna importante e se encaixa bem. Em poucos minutos, reconhecemos a nostalgia, a tristeza e a felicidade desses personagens com muito mais eficiência que diálogos expositivos teriam.

Em outro filme, Quase Famosos (Almost Famous, 2000), de Cameron Crowe, a música é também responsável por mover a história, usada aqui de forma diegética. O filme gira todo em torno de fazer e viver de música, o que torna o momento ainda mais genial. Nesta cena, temos o grupo principal de personagens em uma viagem de ônibus. Aqui, o deslumbramento inicial da vida de rockstar já deu lugar a realidade e aos inevitáveis problemas de relacionamentos que todas as pessoas têm.


Personagens antes da música

Personagens durante a música

Então, recorrendo ao que esses personagens têm em comum acima de todas as suas diferenças, o filme os reúne com uma canção que todos conhecem ("Tiny Dancer", de Elton John), que nem faz muito o estilo deles, mas cuja energia se amplia em todos e, pelo menos ali, ou quem sabe dali pra frente, essas diferenças possam ser ultrapassadas. É um pequeno momento de esperança trazido justamente pela natureza da música.

Para que tenhamos o impacto, não é necessariamente obrigatório que a música tenha letras. É o caso da composição de Max Ritcher, "On the Nature of Daylight", exemplificada aqui em dois filmes diferentes, mas que tem o objetivo de transmitir o mesmo sentimento para as duas histórias: A Chegada (Arrival, 2016) e Ilha do Medo (Shutter Island, 2010).

À esquerda, Louise de A Chegada, e à direita, Teddy e Dolores de Ilha do Medo

Nestes dois filmes, a música é utilizada para transmitir pesar, tristeza, a incapacidade de ver algo acontecer e não poder mudar nada (no caso de Teddy), ou talvez poder mudar, mas sentir que essa não é a decisão que mais vale a pena (no caso de Louise). Os dois personagens sentem uma dor que não os cabe, uma dor vacilante, e a melancolia da música é quem melhor nos transmite esse sentimento.

O final de A Chegada

A cena em que Teddy precisa deixar a memória da esposa em Ilha do Medo

Na trilha sonora de Ilha do Medo, existe ainda uma faixa de "On the Nature of Daylight" com uma sobreposição de uma canção de Dinah Washington chamada "This Bitter Earth". A letra questiona se a vida vale a pena, se existe algo de bom no mundo, e sua construção acompanhada da tristeza que a melodia carrega se encaixa perfeitamente no contexto de Teddy. Para ver a letra e a tradução, clique aqui. Para ouvir a canção, clique aqui.

Em Moonlight (idem, 2016), de Barry Jenkins, Chiron e Kevin não se viam há anos, separados de forma brusca pelas decisões e caminhos que tomaram, que nunca foram fáceis. No último ato do filme, os dois se reencontram e a cena composta tem alguns elementos que diferem do que vimos no primeiro e segundo ato: a música é surpreendentemente doce e vulnerável ("Hello Stranger", de Barbara Lewis), sentimentos tão raros na história destes dois personagens e, para acompanhá-la, existe ainda uma paleta de cores quentes, que o longa também não nos mostra com muita frequência.

Kevin e Chiron se olham quando a música começa a tocar

No início da cena, Chiron está inseguro quanto ao que Kevin poderia querer falar com ele, embora saiba se tratar de tudo que ficou mal resolvido entre os dois. O peso dessas palavras não ditas paira sobre os dois.

Kevin diz a Chiron que lembrou dele quando ouviu essa música e, quando ela começa a tocar, sem nenhuma palavra dita por nenhum dos dois, Chiron baixa sua guarda e aquele peso entre os dois parece diminuir um pouco. A letra da canção, que fala sobre um reencontro, unida a sensação acolhedora que as cores passam, diz muito mais do que esses personagens conseguem no momento. Tanto para eles, quanto para o espectador.


A música é uma força muito grande, cheia de sentimentos e emoções que podem ser transmitidos com facilidade, quando bem aplicada. Por isso funciona tão bem para, não só compor uma cena, como também mover a história dos personagens, do grupo ou do ambiente em que ela existe. É algo muito pessoal, e talvez por isso seja ainda mais tocante ouvir uma música em um filme – porque sabemos que ela foi cuidadosamente escolhida, especificamente naquele trecho para tocar naquele momento. É quase como alguém nos dedicando uma canção.

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