CRÍTICA | Death Note

Direção: Adam Wingard
Roteiro: Jeremy Slater, Vlas Parlapanides e Charley Parlapanides
Elenco: Nat Wolff, Willem Dafoe, Lakeith Stanfield, Margaret Qualley, Shea Whigham
Origem: EUA
Ano: 2017


Quando a Netflix anunciou que faria uma adaptação de Death Note, muitos ficaram empolgados, outros tiveram medo. Em uma coisa todos concordavam, tratava-se do anime “não-shonen” (shonen é um estilo de anime baseado em lutas) mais famoso no ocidente. A história criada por Tsugumi Ohba em 2003 trazia um roteiro único e inteligente, ligando a cultura oriental com um estilo investigativo do ocidente, nos trazendo Raito Yagami, um vilão cheio de camadas, genial e um grande psicopata. E também L, um detetive excêntrico e igualmente genial, um Sherlock Holmes moderno. Questões como impunidade e justiça com as próprias mãos foram altamente discutidas no enredo, trazendo um caráter político e pertinente ao conteúdo. Infelizmente, tudo isso fica apenas na obra original.

Recentemente, Adam Wingard (diretor do filme) respondeu a uma pergunta, declarando que os protagonistas de seu longa eram ocidentais porque não acharam nenhum japonês com inglês fluente para o papel. Uma desculpa para o famoso “whitewashing” (transformação de personagens de outras etnias em norte-americanos brancos). O mesmo despreparo de Adam para responder tal pergunta, é vista no produto que ele entrega.

Resumidamente, Death Note conta a história de um garoto do ensino médio, Light Turner (Nat Wolff), que encontra um caderno mágico, que mata as pessoas cujo nomes são escritos em suas páginas. Sabendo-se da complexidade da obra original, a preocupação já surge com a duração do longa: 1 hora e 40 minutos. Era necessário muito mais para o desenvolvimento de um enredo que, basicamente, é transformado em um filme teen, sem coerência com a atitude e a construção de seus personagens.

Crédito: James Dittiger / Netflix

Hollywood sente a necessidade de ocidentalizar tudo que toca e aqui não é diferente. Qualquer interação adolescente que vá além do filho problemático que perdeu um ente querido, ou a líder de torcida que vira o interesse amoroso, ou o ambiente escolar hostil, simplesmente não existe. Os clichês ocidentais, quando bem trabalhados, podem funcionar, mas aqui está longe disso. 

A atuação de Nat Wolf (Cidades de Papel) é uma piada, bem como a caracterização de seu personagem. Temos uma sequência de "overactings" e caras e bocas dignas dos melhores memes do Facebook (ainda não sei como a Netflix aprovou essa escalação de elenco). Seu Light não transmite nem de longe a inteligência e a sagacidade que o mangá original estabeleceu. Para vocês terem ideia, a solução do roteiro para mostrar que o personagem é inteligente, é o fato de que ele cobra para fazer a lição de casa dos colegas de classe. Sério mesmo?

Então temos Misa Amane (Margaret Qualley), a líder de torcida que, por algum motivo não explicado, se apaixonou pelo nerd estranho da escola. Margaret Qualley (Dois Caras Legais) é carismática e consegue transmitir a sedução necessária para a personagem, mostrando-se interessante em alguns momentos, ainda que mal dirigida. Infelizmente a função de sua personagem não fica clara, chegando, em alguns momentos, a reduzir a vilania e o tamanho do protagonista.

Keith Stanfield (Corra!), por sua vez, se sai muito bem como "L", especialmente nos 2 primeiros atos, imitando os trejeitos do personagem original e passando credibilidade ao mesmo, ainda que desande no terceiro ato, como todo o restante do filme. Já Willem Dafoe (De Volta ao Jogo) passa quase despercebido, uma vez que seu Ryuku não tem um décimo do carisma do original. O visual, no entanto, é bem fiel (mesmo com a computação gráfica exagerada), pena que o roteiro o coloque como um vilão extremamente mal resolvido.

Crédito: James Dittiger / Netflix

A grandeza da investigação não é vista aqui, tudo parece se passar na mesma cidade, Seatlle (embora existam cenas no “Japão”), passando a sensação de que faltou orçamento para um enredo melhor aproveitado. Os plots e as soluções de roteiro são previsíveis e, por vezes, bizarras. Toda a complexidade de entender as regras do livro e a construção inteligente dos assassinatos da série original dão lugar a mortes exageradas e baratas. Os furos existem aos montes, mas o que mais chamou minha atenção foi a facilidade com que o dono do Death Note tem de controlar alguém durante 48 horas antes da morte. O que me faz pensar: por que Light não fez alguém matar L? Resolveria todo o filme.

Eu poderia continuar apontando vários erros e problemas nesta produção da Netflix, mas vou limitar-me a dizer que trata-se da pior adaptação de anime já feita desde Dragon Ball Evolution, visto que falar que foi apenas um tropeço seria muita bondade. Se ainda assim você ficou interessando num verdadeiro longa-metragem sobre Death Note, a indicação é que você assista o live-action japonês, filmado em duas partes, e que é bastante fiel ao material fonte, com adaptações em seu desfecho que alguns fãs consideram até mais interessantes do que o próprio anime.

Ruim

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