CRÍTICA | O Estranho Que Nós Amamos

Direção: Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola
Elenco: Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning, Colin Farrell, Angourie Rice, Oona Laurence, Addison Riecke e Emma Howard
Ano: 2017
Origem: EUA


Durante a Guerra Civil Americana, um soldado da União ferido em combate (Colin Farrell) é resgatado e levado até um internato feminino no Sul do país. Por conta da guerra, o internato está praticamente vazio, e sua diretora Martha (Nicole Kidman) e a professora Edwina (Kirsten Dunst) o mantém aberto apenas para as alunas que não tem para onde ir, a adolescente Alicia (Elle Fanning) e as quatro crianças Jane, Amy, Marie e Emily (Angourie Rice, Oona Laurence, Addison Riecke e Emma Howard, respectivamente). Criada primeiro em um livro de Thomas P. Cullinan, lançado em 1966, essa história já foi adaptada para o cinema em um filme de mesmo nome, de 1971, estrelado por Clint Eastwood e dirigido por Don Siegel, mas esta adaptação mais recente nada tem de remake.

O que Sofia Coppola (Encontros e Desencontros) decide fazer para tornar esta adaptação interessante e até mesmo para justificar o remake, é mudar o ponto de vista de quem a conta: as mulheres. Tudo que vemos é através de seus olhos, são suas percepções que absorvemos, elas conduzem o filme. A filmografia de Coppola, em sua maioria, gira mesmo em torno de mulheres em algum processo de descoberta, de como elas percebem o ambiente em que se encontram e como isso as afeta, e O Estranho Que Nós Amamos não difere dessa narrativa.


Fazendo um bom trabalho em equilibrar cada personagem, a história tem como ponto central os conflitos que surgem tanto internamente em cada um deles, como no convívio entre todas as mulheres, uma vez que suas rotinas são completamente alteradas pelo soldado inimigo.

Existe a tensão da guerra, onde elas se questionam se deveriam deixá-lo para morrer ou ajudá-lo, existe o medo que mulheres conhecem tão bem, o primeiro comentário de uma das meninas é de que o soldado poderia estuprar alguma delas, e existe também a tensão sexual que se expande de uma maneira muito forte justamente por ser um ambiente onde é muito suprimida. O soldado, John, é interpretado aqui com muito mais nuances que na versão de Clint Eastwood, e a ausência de seu ponto de vista torna tudo ainda mais misterioso. Por vezes, trata as crianças de forma muito gentil, e também muito sutilmente lança seus olhares galanteadores para as adultas da casa, deixando o espectador sem saber exatamente se é possível confiar nele ou não.


Mas, ainda que a obra busque ser um estudo de personagens, na tentativa de mostrar toda esta tensão, o roteiro acaba tornando-os contidos demais ao ponto de limitá-los. Não conseguimos uma aproximação muito substancial que permita com que tornem-se importantes para nós durante sua trajetória, uma vez que parecem figuras quase que pertencentes a alguma fantasia, algo muito irreal. Não há nada de errado em construir personagens que sejam assim tão fantasiosos, mas é necessário algo que os traga para nosso campo de identificação. Todos eles são sempre posicionados como que saídos de uma pintura de época, com a câmera se demorando sobre eles em um enquadramento muito contemplativo.


Visualmente, é um filme impecável. O figurino criado por Stacey Battat (que trabalhou com Coppola em Bling Ring, Um Lugar Qualquer e A Very Murray Christmas) tem tons de cores pastéis e muito branco que ajudam a compor tanto a inocência das meninas, como transmitem muito bem a ideia do feminino, delicado, e suas saias longas e esvoaçantes atribuem ainda mais a sensação de fantasia. Atrelado a isso, os enquadramentos mostram muito bem o isolamento dessas mulheres, algo que o filme estabelece logo no início, com longas estradas e enormes espaços abertos completamente vazios, acompanhados do silêncio, quebrado apenas pelo ocasional som de pássaros. A atmosfera é densa e, de certa forma, sufoca tanto o espectador quanto parece sufocar essas personagens.

Esse sufocamento é construído muito bem e dentro dos aspectos técnicos, O Estranho que Nós Amamos funciona, mas de nada adianta criar toda essa atmosfera se ela não se conclui ou não culmina em alguma modificação desses personagens que seja satisfatória. Ao sair do cinema, o longa parece um sonho que, com toda sua poética, deixa uma sensação de vazio e inacabado.

Bom

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