CRÍTICA | The Void

Direção: Jeremy Gillespie e Steven Kostanski
Roteiro: Jeremy Gillespie e Steven Kostanski
Elenco: Ellen Wong, Kathleen Munroe, Kenneth Welsh e Aaron Poole
Origem: Canadá
Ano: 2016


As obras do escritor de horror norte-americano Howard Phillip Lovecraft (1890-1937) estão entre as mais influentes de todos os tempos. Os seus tentáculos podem ser vistos enrolados em muitas produções da cultura popular contemporânea, dos quadrinhos aos games, passando pela música e, claro, pelo cinema, especialmente entre os anos 70 e 90. No entanto, são praticamente inexistentes os filmes que conseguiram fazer jus à qualidade assustadora de sua obra nas últimas décadas. Pois bem, parece que as estrelas se alinharam novamente, Cthulhu despertou e fomos abençoados com um longa que consegue capturar perfeitamente a essência do horror cósmico criado pelo autor, além de prestar digníssima homenagem aos seus antecessores. Vindo diretamente de realidades transplutonianas, chega The Void (O Vazio, numa tradução livre).

O filme conta a história de Daniel Carter (Poole), um policial de uma pequena cidade rural que, ao resgatar um estranho ferido no meio de uma estrada e levá-lo ao hospital local, se vê envolvido em uma situação terrível e muito além da sua compreensão, no melhor estilo Lovecraftiano (aliás, o nome do protagonista é claramente inspirado em Randolph Carter, um personagem recorrente das histórias do autor). Como é madrugada, o local está praticamente deserto, com poucos funcionários trabalhando. É aí que as coisas começam a se tornar perigosamente bizarras: um grupo de misteriosos e violentos cultistas de robes brancos cercam o local, impedindo a entrada e a saída do hospital. Ao mesmo tempo, a energia elétrica é cortada e criaturas estranhas começam a surgir. Tudo que resta aos ocupantes do hospital é tentar sobreviver a essa noite de horror e loucura cósmica.


The Void, apesar de demonstrar nuances originais e únicas, é explicitamente uma grande homenagem aos filmes de horror corporal dos anos 80, remixando elementos de obras como Terror nas Trevas, (Lucio Fulci, 1981), O Enigma do Outro Mundo (John Carpenter, 1982) e Do Além (Stuart Gordon, 1986) com toques autorais próprios de Gillespie e Kostanski, resultando numa mistura interessante que consegue, ao mesmo tempo, parecer diferente e familiar. Quando se trata de filmar um longa claramente retrô, é muito comum acabar com uma obra que parece genérica, mas esse não é o caso, felizmente.

O ponto mais alto do filme (e sua principal ligação com os longas supracitados) certamente é o uso extremamente eficiente de efeitos práticos em detrimento dos efeitos especiais via computação gráfica, a opção mais fácil e barata (essa está presente, mas muito pouco e somente quando realmente necessária). Temos aqui próteses e maquiagens que vão perturbar os estômagos mais sensíveis, além de habitar seus pesadelos por umas boas semanas.

Outra evidência clara que entrega as raízes oitentistas do longa é a estrutura do seu roteiro, que segue aquele padrão tão comum nos filmes de outrora: temos um grupo de personagens que são pessoas comuns, isoladas em um ambiente hostil, com praticamente nada que possa ser usado para se defenderem e as quais fazem pouca ou nenhuma ideia do que está realmente acontecendo. É louvável a escolha dos diretores de revelar praticamente nada sobre a natureza do culto que aparentemente adora um triângulo preto e da sua relação com as criaturas que começam a surgir. Essa ignorância por parte dos personagens facilita a identificação do espectador com eles, fazendo com que embarquemos juntos nessa estranha jornada mortal rumo ao desconhecido.


Se por um lado o elenco faz um ótimo trabalho de encarnar essas pessoas amaldiçoadas e seus terrores, por outro o roteiro deixa um pouco a desejar no que diz respeito ao desenvolvimento desses personagens. Carter é sem dúvida o mais interessante, mas ainda assim não o suficiente para levar o filme todo nas costas. No entanto, isso acaba não fazendo muita diferença justamente pela natureza do filme e do seu propósito, o qual está longe de ser um estudo de personagem. Essa constatação ganha ainda mais força se levarmos em consideração que a fonte de inspiração para o longa (os textos de Lovecraft) nunca foram famosos pelo desenvolvimento de seus protagonistas, mas sim pelo terror ao qual eles são expostos e a forma como reagem, e isso o roteiro garante com tranquilidade.

The Void é o filme de horror que os fãs de H.P. Lovecraft estavam esperando há muito tempo. É quase certeza que o público médio, não iniciado no universo do autor, não gostará do final bastante aberto e hermético do longa, mas mesmo esse público ainda tem muito o que admirar nessa pequena joia do horror grotesco. A esperança é que o portal transdimensional por onde a obra rastejou para a materialização permaneça aberto por muito tempo.

Excelente

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