CRÍTICA | Os Inocentes

Direção: Jack Clayton
Roteiro: William Archibald, Truman Capote e John Mortimer
Elenco: Deborah Kerr, Martin Stephens, Pamela Franklin, entre outros
Origem: Reino Unido
Ano: 1961

“Deitamos meu amor e eu sob o Salgueiro-Chorão
Mas agora sozinho me deito e choro junto à árvore
Oh, Salgueiro, eu estou morrendo
Oh, Salgueiro, eu estou morrendo.”
(Willow Waly)

Crianças são o símbolo da inocência. São aqueles que ainda não foram corrompidos pela sociedade, que não carregam maldade ou amargura dentro de si. Quando, porém, nos deparamos com várias histórias de terror e suspense, essas crianças aparecem sobre outro viés e isso, ao mesmo tempo em que nos amedronta, também nos instiga. É através do contraste entre ingenuidade e malícia, loucura e sanidade que o clássico de terror psicológico Os Inocentes (The Innocents) foi construído. Dirigido pelo britânico Jack Clayton (O Grande Gatsby), o longa foi indicado tanto ao BAFTA de Melhor Filme quanto de Melhor Filme Britânico.

Apesar das inúmeras diferenças, o filme é uma adaptação da obra A Volta do Parafuso (Henry James, 1898), seguindo, assim, a mesma temática e tom de sugestão implícita ao longo de toda a história.

Em plena Inglaterra vitoriana, Mrs. Giddens (Deborah Kerr) é contratada para ser a governanta de duas crianças órfãs, tendo autonomia e responsabilidade total sob a educação delas. Logo que se estabelece no novo emprego, em uma mansão isolada no campo, ela começa a notar alguns comportamentos estranhos dos irmãos Milles (Martin Stephens) e Flora (Pamela Franklin). Tudo aquilo, parece estar relacionado ao nefasto destino da ex-governanta e de seu amante secreto, por isso Mrs. Giddens começa a desconfiar que os espíritos dos amantes estejam não somente assombrando a casa, como também possuindo os órfãos.


A questão central do filme é o processo progressivo de perda da inocência que todos os personagens vivenciam ao longo da trama. Para muito além das crianças, até mesmo Mrs. Giddens enfrenta essa transformação, já que ela também é corrompida por seus medos e pelas suas dúvidas. Além disso, é interessante destacar o viés sexual presente em no subtexto do filme. Se por um lado os espíritos podem ser verdadeiras manifestações do sobrenatural, eles também podem ser interpretados como respostas à repressão sexual da governanta. Em uma das cenas mais inquietantes da obra, por exemplo, Mrs. Giddens beija o pequeno Milles, e o que poderia ser visto apenas como um ato inocente, ganha novos ares, graças a toda sugestão por detrás daquele momento.

A direção de Jay Clayton, através do jogo de iluminação, sombras realçadas e luz mínima, consegue criar o cenário ideal, além de marcar de forma suave, porém essencial o contraste entre claro e escuro. Ademais, não poderia deixar de citar a abertura do longa, que me parece única em comparação a outros filmes da década de 60. São 45 segundos de tela preta, acompanhados apenas pela infantil e sinistra canção “Willow Wally”, que, aliás, conduz o público durante todo o filme. 


Grande parte do sucesso do longa se deve a talentosa atuação de Deborah Kerr (O Rei e Eu). A própria atriz reconhece que esse foi o melhor papel de sua carreira, e não podemos discordar. Em uma época em que os efeitos especiais ainda estavam engatinhando, dificilmente a narrativa nos parecia tão verossímil, se não fossem pelas atuações certeiras do trio de protagonistas, em especial de Kerr.

O impacto positivo causado por Os Inocentes não se limitou apenas a ótima recepção nas bilheterias e pela crítica, visto que se tornou fonte de inspiração para tantas outras obras que seguiram seu modelo como, por exemplo, A Inocente Face do Terror (The Other) e Os Que Chegam com a Noite (The Nightcomers).

Ótimo

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