CRÍTICA | Polícia Federal: A Lei é Para Todos

Direção: Marcelo Antunez
Roteiro: Gustavo Lipsztein e Thomas Stravos
Elenco: Antonio Calloni, Flávia Alessandra, Marcelo Cerrado, Bruce Gomlevsky, Ary Fontoura, entre outros
Origem: Brasil
Ano: 2017


“A gente não vai mudar o Brasil, mas alguma coisinha a gente sempre faz.”

Essa frase, com algumas alterações, poderia facilmente vir de um filme hollywoodiano de super-herói. A própria formação da equipe da Polícia Federal responsável pela investigação da Operação Lava Jato é retratada como se eles fossem “Os Vingadores Brasileiros”, heróis geniais preparados para salvar o país das vilanias da corrupção. Só que até em filmes de super-heróis, os personagens têm que apresentar imperfeições ou defeitos, algo que não acontece em Polícia Federal: A Lei é Para Todos.

Ainda assim, nossos "heróis", os personagens que representam os membros da Polícia Federal (fictícios, mas baseados em pessoas reais) são construídos melhor e de forma mais humanizada que os "vilões" apresentados. Os criminosos da trama são abordados de forma bem caricata, principalmente o ex-presidente Lula (Ary Fontoura), que não apresenta qualquer carisma.

A narração do longa, com uma abordagem bem didática, acontece pela visão do chefe de polícia Ivan (Antônio Calloni), que é o único que parece refletir sobre a situação em sua totalidade. O filme apresenta bastidores da Operação Lava Jato desde o seu início, em 2013, com a apreensão de uma carga de cocaína, passando pelas relações dos doleiros com as empreiteiras e executivos da Petrobras, até à condução coercitiva de Lula, seguida pela divulgação na grande mídia das escutas coletadas durante o processo no celular do ex-presidente. Assumindo um tom de thriller político, a obra foca no trabalho de delegados e procuradores da PF durante esse caso, se apoiando na técnica, no ritmo e no gênero para construir e levantar considerações sobre o momento político.

Crédito: Downtown Filmes

Se encaixando nos clichês do gênero, mas executando-os de forma bem-feita, Polícia Federal: A Lei é Para Todos se aproxima da realidade, utilizando locações onde os fatos realmente aconteceram, fazendo a reprodução fiel de alguns depoimentos, além de inserir passagens jornalísticas ao longo do filme, que relembram que a ficção é baseada em fatos. A empolgação do ritmo da montagem com essa aproximação da realidade faz com que o longa envolva o espectador.

Considerando o fato de os trabalhos recentes do diretor Marcelo Antunez serem comédias, o cineasta surpreende na construção de momentos de tensão. Antunez, com a ajuda dos roteiristas Gustavo Lipsztein e Thomas Stravos, consegue fazer bem a conexão entre como a apreensão de um caminhão de palmito levou a uma importante investigação anticorrupção. 

O longa é bem produzido e filmado, utilizando de movimentos de câmera característicos desse estilo. Acredito ser um filme que funcionaria bem em mercados estrangeiros, mas se torna problemático para o público brasileiro, pois quer abordar as relações político-sociais atuais, mas apresenta os fatos como se fossem a versão definitiva do ocorrido. A obra pretende ser apartidária, mas mostra a história atual do Brasil sob um rumo questionável e com falácias evidentes e abordagens equivocadas dos fatos.

Embora tenha problemas evidentes de discurso, vale ressaltar que o principal defeito da obra não é seu posicionamento político, e sim o seu desenvolvimento narrativo. Apresentar neutralidade seria o meio ideal de abordar um tema polêmico como esse, todavia, qualquer discurso é inseparável de sua ideologia. Mesmo quando pretende ser neutro, Polícia Federal: A Lei é Para Todos falha. Trata-se de uma missão quase impossível em tempos de polarização como esse. 

Crédito: Downtown Filmes


Logo no primeiro ato, e outros momentos da trama, há a apresentação da origem do mal da corrupção, que se iniciou no Brasil com a chegada dos portugueses. Essa noção foi bem apresentada no longa, em forma de animação, e mostra o desenvolvimento das relações sócio-econômicas que acabaram se tornando o que conhecemos hoje como roubo, desvio de dinheiro, pagamento de propina, entre outros desvios da lei. A ideia é propagar que a corrupção existe no Brasil desde a chegada de nossos colonizadores, no entanto, ser corrupto é algo natural do ser humano. Para o filósofo inglês Hobbes, o homem é essencialmente mau e corruptível. O problema não está na política, e sim, no homem. 

Porém, não é isso o que vemos em tela. Antunez diz que não fez um filme contra o PT, nem contra Lula. Fez um longa sobre a Lava Jato. Contudo, é visível que certas decisões apontam para a parcialidade, como frisei antes. Os policiais federais são homens movidos apenas por boas intenções, intocáveis, sempre no lado bem-intencionado, como se nada, nem mesmo seus problemas pessoais, desequilibrassem sua conduta, como se a dúvida não fosse presente naquela instituição, parecendo não aparentar nenhum aspecto negativo em suas personalidades, algo que desataquei no inicio dessa crítica, mas vale citar novamente.

Ainda segundo Marcelo Antunez, o longa não pretende ser uma obra política, mas uma produção que leve entretenimento e reflexão ao público. O cineasta quer propagar o debate saudável, mas será que as pessoas estão dispostas a debater o assunto?

Bom

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