Blade Runner | 35 anos e seu impacto cultural


Alguns filmes precisam de tempo.

Em 1982, quando Blade Runner: O Caçador de Androides chegou aos cinemas, ninguém soube muito bem como interpretá-lo. Haviam críticas muito positivas e também bastante negativas. O público pareceu não compreender muito bem, ou completamente, a história que fora apresentada. Hoje, 35 anos depois, o filme se tornou um clássico cult, que certamente vai figura qualquer conversa que se tenha sobre o gênero de ficção científica.

O longa é baseado no livro "Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?", de Philip K. Dick, escrito em 1968, e foi o que acordou Hollywood para suas histórias, uma série delas tendo sido adaptadas para o cinema nos anos seguintes. Para citar alguns, O Vingador do Futuro foi adaptado de “Podemos Recordar para Você, por um Preço Razoável”, "Minority Report" se transformou no filme de mesmo nome e, mais recentemente, o conto “Adjustment Team” encontrou sua versão cinematográfica no filme Agentes do Destino.


No livro, também acompanhamos Rick Deckard, o caçador de androides interpretado por Harrison Ford (Busca Frenética) na adaptação para o cinema, enquanto ele sai em sua busca pelos replicantes rebeldes. Ainda que seja uma adaptação bastante fiel, o autor do livro não gostou quando leu o roteiro. Segundo ele, livro e filme se dividiam e tornavam-se histórias distintas. Depois, quando assistiu um corte do longa durante sua pós-produção, mudou de ideia e disse que um complementava o outro, destacando a profundidade com que o universo de sua obra tinha sido criada. Philip nunca chegou a assistir a versão que chegou aos cinemas naquele ano, tendo morrido alguns meses antes, vítima de um infarto.

No entanto, o que o autor destacou em 1982 é ainda o principal destaque de Blade Runner: sua ambientação. A história se passa em Los Angeles, no ano de 2019, e tudo que vemos é no mínimo deslumbrante. Os grandes anúncios que ocupam trechos enormes de construções já gigantescas, com suas luzes muito fortes dançando sobre as pessoas pequenas e sujas que andam abaixo deles, os estabelecimentos com fachadas em luzes neon, e a interminável chuva. Tudo que ilumina os personagens parece artificial, revelando-os apenas parcialmente, criando essa sensação triste, de opressão, de abandono dos que ali ainda existem, em um lugar que, embora precise dessas pessoas, não mais as deseja.


O futuro de Blade Runner: sujo, chuvoso, sem espaço para humanidade

O grande questionamento que Blade Runner faz é justamente sobre identidade. A narrativa dos replicantes, que querem encontrar respostas, prolongar seus anos de existência além daqueles que lhes foram permitidos colide com a narrativa dos humanos, que querem destruí-los apesar de terem os criado, e em como isso pode ser considerado justiça. A linha se torna muito difícil de enxergar, e é esse o objetivo, questionarmos o que nos torna humanos e que direito essa humanidade teria de eliminar os replicantes. É surpreendente como a obra aborda tais discussões e, ao colocar nosso protagonista, Deckard, podendo ser replicante ou não, a questão da identidade fica ainda mais fascinante.


Esse questionamento se sustenta e se torna mais forte, nas características técnicas do filme. O design de produção, das luzes neon misturadas a sujeira e a iluminação parcial, o design de som e a trilha sonora composta por Vangelis, são elementos que atribuem uma sensação de sonho ao longa. É como se nunca pudéssemos realmente acreditar em tudo que é dito e mostrado, ampliando a ideia da paranoia e mistério que inevitavelmente envolve um mundo onde não se sabe quem de fato é humano e nem em quem se pode confiar.

Blade Runner é também muito contemplativo, que dá tempo para os personagens e para o espectador absorverem tudo que está acontecendo. Ridley Scott (Alien, o Oitavo Passageiro) não entrega um filme de pura ação, que era o que costumava-se esperar da ficção científica oitentista, e não tem medo de fazer isso. A obra leva seu tempo e deixa espaço para que os personagens possam pensar, observar, desenvolver uma opinião sobre algo que vêem ou leem e, no processo, faz o mesmo com o espectador. Não existe uma necessidade gritante de respostas, não é a proposta aqui. Na verdade é o contrário, o diretor quer que o espectador pense à partir do que a história apresentou. 

É interessantíssimo perceber que um longa-metragem filmado em 1982, baseado em um livro escrito em 1968, seja ainda tão atual. Tanto em suas ideias, quanto em sua realização. Blade Runner serve como inspiração até hoje, tendo criado um visual icônico que, na época poderia parecer muito futurista, mas que agora, a dois anos de se passar no presente, parece se encaixar perfeitamente para os dias atuais, com seus anúncios gigantes pairando sobre a população que caminha nas ruas, sua paranoia e questionamentos sobre o que significa ser humano e, em sua essência, sobre o quanto de humanidade nos resta. Para essa resposta, talvez precisemos de ainda mais tempo.

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