CRÍTICA | Artista do Desastre

Direção: James Franco
Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber
Elenco: James Franco, Dave Franco, Seth Rogen, Alison Brie, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2017


Sabe aquele filme tão ruim, mas tão ruim, que acaba sendo bom? The Room (2003), uma produção independente, escrita, produzida, dirigida e estrelada por Tommy Wiseau (Homeless in America) é um deles. Considerado o “Cidadão Kane dos filmes ruins” pela crítica americana, é tão desastroso que se tornou um sucesso cult nos últimos anos, e tem sido exibido em salas lotadas pelos Estados Unidos há mais de uma década, se tornando um objeto de culto, não necessariamente como seu autor esperava. 

E é dessa história que surge Artista do Desastre (The Disaster Artist), uma sátira aos bastidores dessa estranha obra lançada em 2003 e, ao mesmo tempo, uma homenagem aos atores sem grande talento, mas que são obcecados pela ideia de serem reconhecidos em Hollywood. 

Baseada no livro "The Disaster Artist: My Life Inside The Room, the Greatest Bad Movie Ever Made", de Greg Sestero e Tom Bissell, a obra nos apresenta ao próprio Sestero (Dave Franco), um jovem ator que, acima de tudo, deseja se tornar um astro do cinema. Ao conhecer Tommy Wiseau (James Franco) em um curso de teatro, ambos identificam sonhos e dificuldades em comum, partindo para Los Angeles, na tentativa de se tornarem grandes atores, como James Dean.

Depois de meses falhando em conseguir algo concreto, os dois decidem produzir seu próprio filme, com Wiseau atuando como diretor, produtor, roteirista e ator principal, mas sem ter a menor ideia do que estava fazendo. Sestero, por sua vez, trabalharia como ator coadjuvante. Mal sabiam eles que estavam criando o melhor filme ruim já feito.

Crédito: Warner Bros

Ninguém sabe quantos anos Wiseau tem, nem onde ele nasceu, ou mesmo a origem de seu dinheiro. Ele é uma incógnita, com seus trejeitos extravagantes e uma ingenuidade que o cega, pois falta noção e talento ao aspirante a artista, que gastou 6 milhões do próprio bolso para produzir seu filme, mas só conseguiu retorno de dois mil dólares de bilheteria.

A garantia de gargalhadas depende de um conhecimento prévio sobre The Room. O filme explica a amizade entre Wiseau e Sestero, mas é no set que a magia do bizarro acontece. As inúmeras tentativas de Wiseau para rodar sua primeira cena, por exemplo, esbanja humor. A obra beira o surrealismo. É tão singular e improvável que, não fosse baseada em fatos, poderia até soar fantasiosa demais

A forte presença do humor pelo absurdo se dá em razão da própria personalidade do diretor, brilhantemente interpretado por James Franco (127 Horas), que está irreconhecível, tanto pela maquiagem e caracterização, mas pela própria interpretação, que se distancia de qualquer outro papel que o mesmo já tenha feito. Seu Wiseau é carismático, repleto de particularidades, de comportamento imprevisível, vivendo em seu próprio planeta, mas que também demonstra inseguranças. 

O roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber evidencia uma comédia a respeito dos poderes que movem Hollywood, mas, principalmente, sobre o amor pela arte, nutrido, inclusive, por aqueles desprovidos de talento.

Crédito: Warner Bros

É interessante notar que, nos últimos anos, acadêmicos começaram a usar The Room como um ótimo exemplo para o estudo do cinema, ou seja, um filme com padrão estético e narrativo fora do tradicional. Nesse sentido, é compreensível o rótulo cult empregado ao filme e a própria figura de Wiseau. 

De modo geral, Artista do Desastre acaba sendo uma homenagem ao cinema que foge do padrão hollywoodiano, e deve ser celebrado como produções de grande porte, que levam ao público conhecimento de cineastas que jamais teriam espaço na televisão ou nas telas do cinema tradicional. A história sobre a produção de um filme ruim nunca foi tão divertida.

Excelente

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