CRÍTICA | O Formidável

Direção: Michel Hazanavicius
Roteiro: Michel Hazanavicius
Elenco: Louis Garrel, Stacy Martin, Bérénice Bejo, Micha Lescot, entre outros
Origem: França / Birmânia
Ano: 2017


O Formidável (Le Redoutable) mostra um fragmento da vida do cineasta vanguardista Jean-Luc Godard. Trata-se do novo longa do diretor Michel Hazanavicius (Os Infiéis), vencedor do Oscar de melhor direção em 2012 pelo seu trabalho em O Artista

Na trama acompanhamos o período no qual Jean-Luc Godard (Louis Garrel) conheceu e se apaixonou por Anne Wiazemsky (Stacy Martin). A história desse amor é contada usando de muita ironia, já que, para muitos, Godard é um gênio revolucionário. Dessa forma, vê-lo inseguro, birrento, arrogante, ciumento e, por incrível que pareça, descrente de sua própria obra, é algo que a maioria dos fãs nunca presenciou.

A história do casal é vista pelos olhos de Anne, porém, há momentos em que outros personagens dão o seu parecer sobre o que está acontecendo naquele relacionamento, inclusive o próprio Godard. O longa utiliza de narrações para adicionar contexto às conversas, bem como faz uso da quebra da quarta parede para concluir alguma. Há inclusive diálogos em que legendas introduziam os verdadeiros pensamentos dos personagens, algo que Woody Allen usou muito bem em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

Crédito: Imovision

O roteiro, escrito pelo próprio Hazanavicius, se baseia na autobiografia de Anne Wiazemsky, que fora modelo, atriz, escritora Anne e, claro, ex-mulher de Godard. Em seu livro, Anne conta como foi viver ao lado do cineasta enquanto ele dirigiu o filme A Chinesa, no qual ela própria atuou. Há detalhes de como o cineasta a influenciou em sua vida, assim como a eventual separação, motivada por divergências de interesses.

Em seu filme, Hazanavicius desenvolve uma comédia sutil, despindo Godard de sua áurea “formidável”, sendo essa a mais evidente ironia com o título da obra. O Formidável se apoia explicitamente na Nouvelle Vague (Nova Onda), movimento que o próprio Godard ajudou a criar na década de 60. Esse estilo de cinema tem como objetivo representar um fragmento da história de um indivíduo e dar ênfase ao amor como algo especial e transformativo em sua vida. Nesse ponto, Hazanavicius acertou em cheio.

Louis Garrel (Os Sonhadores) e Stacy Martin (Ninfomaníaca) fazem um ótimo trabalho com suas atuações. O entrosamento inicial demonstrado pelo casal, em contraste com o momento no qual a convivência é algo quase impossível de acontecer, fica muito bem trabalhado em tela. A sutileza dos olhares e os maneirismos incorporados pelos atores, ajudam a nos fazer compreender o quanto aquelas duas pessoas estavam lentamente se desassociando um do outro.

Crédito: Imovision

É claro que, para que se possa conceber tudo o que O Formidável representa, é importante conhecer os ideais políticos de Godard. A política influenciou não só a história de sua filmografia, mas também a trajetória de sua vida e das pessoas que conviveram com ele, especialmente Anne, que conviveu com esse Godard do início da Nouvelle Vague

Nunca saberemos ao certo o quão verossímil é esse fragmento da vida de Jean-Luc Goadard, porém, o filme com certeza adiciona uma camada de humanidade a ele. Ao explorar algumas verdades que podem acontecer literalmente em qualquer tipo de relacionamento, a história faz até mesmo o renomado cineasta parecer muito mais um cara infantil e ciumento, do que um gênio revolucionário com uma câmera na mão.

Ótimo

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