Black Mirror 4x02 | Arkangel

Direção: Jodie Foster
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Rosemarie DeWitt, Anya Hofge, Sara Abbott, Brenna Harding, entre outros


Primeiro episódio de Black Mirror dirigido por uma mulher (Jodie Foster), Arkangel conta a estória de Marie (Rosemarie DeWitt), uma mãe solteira que decide implantar um chip em sua única filha, Sara (Anya Hodge e Sarah Abbott na infância e Brenna Harding na adolescência), a fim de ter total controle sobre os passos da menina. À medida em que os anos passam, porém, a superproteção da matriarca passa a influenciar negativamente a vida da menina. Por isso, mesmo que relutante, Marie resolve inutilizar a “unidade parental”. O problema é que, devido aos muitos anos conectadas, a interdependência permanece, fazendo com que liberdade e confiança existam de modo delicado no relacionamento entre mãe e filha.

Esse segundo episódio da quarta temporada não traz tantos aparatos futurísticos, muito pelo contrário, a narrativa se passa em um subúrbio qualquer, onde a tecnologia super avançada não está presente. Os tons cinzentos e as ruas quase sempre vazias de pedestres dão a impressão de insegurança, o que ajuda a justificar a escolha equivocada de Marie. Afinal, que pai ou mãe não gostaria de assegurar que seus filhos ficassem livres dos perigos do mundo? 

Obviamente, controle demais nunca é bom. Em Arkangel, acompanhamos a tragédia derivada da boa intenção de uma mãe. De modo bastante interessante, a trama gira em torno de dois pontos de vista. Assistimos como o experimento de supercontrole molda tanto a vida da mãe quanto da filha. Vemos a perspectiva de cada uma sobre sua interdependência e sofremos com a expectativa do que ocorrerá caso a relação cordial seja colocada em cheque. 

Foto: Christos Kalohoridis / Netflix

Rosemarie DeWitt (Mad Men) está muito bem no papel da mãe-helicóptero, que faz de tudo para resguardar a filha, não percebendo que sua neurose encerrará por construir uma amizade falsa entre as duas. O medo de perder a cria é maior do que sua consciência de certo e errado. Dizem que quando temos um filho nunca mais conseguimos dormir sossegados. O semblante constantemente perturbado de DeWitt transparece magistralmente tal ideia. Ela parece estar sempre cansada. Mesmo quando sorri, seus olhos entregam preocupação, desconforto e zelo.

Porém, nem tudo é perfeito nesse episódio. Embora a estória seja uma das que mais chama a atenção no trailer lançado pela Netflix meses atrás, Arkangel tem ritmo um pouco arrastado. Talvez seja a expectativa frustrada, pois a peça promocional entrega um thriller demasiadamente tenso e o episódio, em si, é mais ameno. Há, claro, cenas chocantes, mas há momentos em que o conflito poderia ser mais bem explorado. 

De toda forma, embora imperfeito, o episódio deveria ser mandatório aos pais da atualidade. Num mundo onde a violência leva à constante abdicação da privacidade, é preciso deixar que as crianças voltem a ser apenas crianças e que cresçam não em uma bolha de perfeição, mas sabendo reconhecer o que é certo e errado. Afinal, os pequenos de hoje serão os tomadores de decisão de amanhã.

Ótimo

Foto: Christos Kalohoridis / Netflix

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Lívia Campos de Menezes é apaixonada por filmes, séries e boa música (leia-se rock'n'roll). Adora ler e viajar. Desde 2015 mora nos Estados Unidos, onde faz MFA em Cinema na UNC School of the Arts.

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