Black Mirror 4x03 | Crocodile

Direção: John Hillcoat
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Andrea Riseborough, Kiran Sonia Sawar, Andrew Gower, entre outros

Quando foi divulgado o nome e o pôster oficial do 3° episódio dessa temporada de Black Mirror, fiquei pensando: por que Crocodile? A primeira interpretação que tive foi com o termo “lágrimas de crocodilo”, o que se mostrou real posteriormente, mas falaremos disso adiante. Esse é um episódio que não foca tanto na tecnologia em si e mais nas atitudes das pessoas que vão se englobando e se juntando como uma bola de neve para manter a sua reputação. Resumindo, você mataria outras pessoas para não perder tudo o que ganhou em 15 anos?

Em Crocodile acompanhamos a história de Mia (Andrea Riseborough) que, voltando de uma festa com seu namorado, Rob (Andrew Gower), alcoolizado e na direção do carro, atropela um ciclista, que falece. Ele, desesperado, decide esconder o corpo, coisa que Mia é contra naquele momento, mas decide acatar a ideia. 15 anos se passam e enquanto Mia ganha notação como arquiteta, ministrando palestras e ganhando muito bem, Rob sente mais a cada dia a culpa de ter escondido o corpo. Eles se encontram depois desse tempo todo para Rob avisá-la de que iria mandar uma carta de desculpas para a esposa do ciclista, na tentativa de amenizar sua culpa.

Trata-se de um paralelo muito interessante, pois a trama contrapõe a visão dos protagonistas em diferentes momentos de suas vidas. Se na época do atropelamento Rob vislumbrava um grande futuro e o assassinato acabaria com sua carreira, agora é Mia quem se preocupa em perder o que construiu ao longo dos anos, ela que era contra esconder o corpo, 15 anos atrás. É então que seu instinto faz o que ela acha melhor para o momento: matar seu ex-namorado. 

Foto: Arnaldur Halidorsson / Netflix

O episódio continua após esses eventos, com Mia presenciando um acidente que será investigado por Shazi (Kiran Sonia Sawar). Tudo muda quando somos introduzidos ao “Relembrador”, um aparelho que puxa cenas de nossa memória e as exibe em um pequeno monitor. Preocupada em expor seu passado, a protagonista novamente se vê disposta a matar para manter o seu status social, mas, outra vez, lágrimas caem de seus olhos. E ela continua a sua série de assassinatos com a morte do marido de Shazi e, logo depois, do filho do casal, um momento revoltante que fiquei sem palavras ao assistir. O agravante é que a criança era cega, ou seja, o “relembrador” não teria utilidade nele.

O termo “lágrimas de crocodilo” foi criado devido a forma como os crocodilos ficam depois que comem algum animal. Eles choram. Mas não é de arrependimento ou remorso, e sim porque os corpos são pressionados com força no céu da boca do réptil, fazendo suas glândulas lacrimais comprimirem, vindo as lágrimas em seguida. Ou seja, o termo significa que a pessoa, mesmo chorando, não está sofrendo, e que na maioria das vezes está sendo falsa. A cada assassinato Mia chora, muito. No entanto, percebemos que não são lágrimas de tristeza. É o seu instinto de sobrevivência falando mais alto, como o de um réptil.

Penso que Crocodile entra no hall dos ótimos episódios de Black Mirror. Perturbador e que nos faz refletir sobre a natureza humana e do que somos capazez de fazer em diversas situações. Além da belíssima fotografia (o episódio foi filmado na Islândia) e da atuação de Andrea Riseborough (A Guerra dos Sexos).

Foto: Netflix

O coral do filho de Mia ocorre no final do episódio, onde ele e as crianças entoam essas frases:

“Podíamos ter sido qualquer coisa que quiséssemosE ainda dá tempo de mudarDecidimos mudar um pouco a respeito
Você deve concordar que precisamos mesmo.”

No caso de Mia não dá mais. Ela fez suas escolhas e escolheu ser aquilo. Ela quis se manter no topo, a qualquer custo. Apenas não imaginou que um porquinho da Índia existia onde ela não podia imaginar.

Ótimo

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