CRÍTICA | A Forma da Água

Direção: Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro e Vanessa Taylor
Elenco: Sally Hawkins, Richard Jenkins, Michael Shannon, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg, Doug Jones, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2017


Quem conhece o aclamado diretor Guillermo del Toro (A Colina Escarlate) sabe que boa parte de seus filmes se tornaram marcantes por representarem fábulas com relações entre seres humanos e monstros, num misto de encantamento e estranheza, com importantes mensagens embutidas. Aconteceu em Cronos (1993), A Espinha do Diabo (2001), O Labirinto do Fauno (2006) e volta a acontecer eu seu mais novo trabalho, A Forma da Água (The Shape of Water), com destaque para uma belíssima história de amor entre seres de espécies diferentes.

A trama se passa durante a década de 1960, em plena Guerra Fria, época em que a rivalidade e a corrida espacial entre Estados Unidos e a antiga União Soviética eram latentes. O agente federal Strickland (Michael Shannon), descobre e captura uma estranha criatura (Doug Jones), parte anfíbia, parte humana, e a leva para ser estudada pelos militares em uma base secreta. Eliza Esposito (Sally Hawkins) é uma faxineira muda que trabalha no local e que acaba por se afeiçoar ao "monstro", nascendo um forte sentimento de amizade e amor improvável. Com a cumplicidade de sua amiga Zelda (Octavia Spencer) e de seu vizinho Giles (Richard Jenkins), Eliza executa um arriscado plano de resgate a criatura, colocando a vida de todos em risco. 

O roteiro, assinado pelo próprio del Toro e por Vanessa Taylor (Game of Thrones), não traz apenas a paixão existente entre Eliza e a criatura humanóide, mas também conta com algumas subtramas, todas bem entrelaçadas com a história central, além de abordar questões que até hoje fazem barulho na sociedade, como o racismo, a homofobia, a misoginia e o machismo. E mesmo com tantos temas, tudo se faz necessário, soando não apenas como um recado às massas, mas também um fortalecimento da luta pelos direitos civis, que já acontecia de forma intensa nos anos 1960 e que ainda parece longe de se consolidar.

Foto: Fox Film do Brasil

Ao passo que o longa se desenvolve, o espectador também se impressiona com o plano visual, belo e convidativo, composto por cenários e locações que remetem ao tempo da Guerra Fria, representados por um estilo lúdico característico do diretor e paisagens compostas por cores frias, que variam do azul para o verde. Há ainda um tributo à sétima arte, com cenas de filmes clássicos dos anos 1950 passadas em um cinema antigo, que serve como um dos palcos da história

Evidentemente, um filme com tantos atrativos técnicos não poderia carecer de grandes atuações, a começar por Sally Hawkins (Blue Jasmine). A britânica, mesmo sem o uso da linguagem verbal, é capaz de transmitir todas as suas emoções e pensamentos ao espectador, fazendo com que nos relacionemos instantaneamente com a personagem. Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo) apesar de segura em cena, traz ao público uma personagem que não é muito explorada na trama, funcionando mais como alívio cômico e a válvula de escape que o longa precisa para aliviar a dramaticidade de grande parte de suas cenas.

Doug Jones (Hellboy II: O Exército Dourado) vive o "homem anfíbio", transcendendo a aparência física aterrorizante, com suas escamas e o enorme globo ocular, em um personagem único, quase como uma divindade em meio aos humanos. Michael Shannon (Animais Noturnos), por sua vez, vive o verdadeiro monstro da história, um homem violento, sadomasoquista e sociopata. Não é fácil reunir em um só personagem diversas características negativas e conseguir transmitir tudo com autenticidade, e Shannon o faz com primazia.

Foto: Fox Film do Brasil

A Forma da Água é um misto de fantasia e realidade, uma ode ao cinema e aos excluídos. O retorno triunfal de Guillermo del Toro após suas últimas obras terem sido deveras contestadas. Com suas 13 indicações ao Oscar 2018, o filme tem chance de alçar voos maiores. E que mais obras originais de fantasia possam surgir a partir disso.

Ótimo

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