Transparent | 4ª Temporada


Transparent, criada por Jill Soloway para a Amazon em 2014, sempre foi um sucesso de crítica, mesmo que não seja um sucesso de público – suas três temporadas anteriores foram sempre presentes em premiações, tendo recebido o Globo de Ouro por Melhor Ator (Jeffrey Tambor, que representa Maura) e por melhor Direção (Jill Soloway). Apesar dos recentes escândalos envolvendo acusações de assédio por Tambor e uma indefinição quanto ao futuro do personagem e da própria produção, o que tivemos de material artístico até o momento foi de extrema qualidade e sensibilidade, discutindo temas importantíssimos no período atual e trazendo visibilidades a parcelas da população que não costumam se ver representadas como protagonistas de uma série.

A quarta temporada se constrói sob a premissa da viagem de Maura a Israel para palestrar sobre gênero e judaísmo, e, ao longo da temporada, o resto da família Pfefferman a acompanha. Vários novos desafios se impõem aos personagens tanto antes quanto durante essa jornada: Josh (Jay Duplass) recebe sua mãe, Shelly (Judith Light), em sua casa, após ela decidir deixar o condomínio onde morava; Len (Rob Huebel) e Sarah (Amy Landecker) conhecem Lila (Alia Shawkat, conhecida por seu papel como Maeby em Arrested Development) e iniciam uma relação a três; Ali (Gaby Hoffmann) se encontra um pouco perdida após o término ocorrido na temporada passada, e é a primeira a embarcar com Maura na viagem a Israel.

Foto: Amazon Prime

O mais interessante de Transparent sempre foi a capacidade de interligar todas as histórias de seus personagens de maneira que cada uma dessas histórias potencializa todas as outras, num movimento que sempre soma e é capaz, como poucas outras obras, de demonstrar como dinâmicas familiares são complexas. Ao termos cada vez mais... “familiaridade” com os personagens, somos mais capazes de entender suas motivações e suas emoções mais internas, nos tornando, como espectadores, observadores cada vez mais próximos daquelas pessoas.

No caso da quarta temporada, por exemplo, já acompanhamos com Ali sua jornada não só pela descoberta da sua sexualidade, mas também a relação com os elementos “queer” presentes em seu passado familiar, iniciada pela transição de sua “Moppa” Maura, mas indo tão distante no tempo quanto os desafios enfrentados por sua bisavó. Portanto, quando vemos Ali reagir da forma que reagiu aos seguranças do aeroporto, denunciando uma “anomalia na virilha” de Maura no segundo episódio dessa temporada, sabemos a revolta que ela deve estar sentindo, e ao mesmo tempo um intenso sentimento de solidariedade pela vergonha que Maura está passando.

Esses pequenos momentos em que somos “gratificados” com o reconhecimento das emoções daqueles personagens que acompanhamos é, definitivamente, o que esta temporada tem de melhor, mas não tenho certeza se isso é um mérito dos realizadores. Apesar de, a cada ano, os atores estarem mais confortáveis com os seus personagens, os roteiristas é quem se sobressaem, deixando boa parte do esforço de entender as jornadas pessoais dos personagens aos espectadores. Isso se mostra, por exemplo, na história de Shelly: personagem que, nesta temporada, ganha contornos tão irritantes que fica difícil assistir às cenas em que ela aparece, principalmente nos confrontos com Josh, sem pensar que os roteiristas só desejam que ela seja vista como a mulher idosa histérica.

Foto: Amazon Prime

Porém, a viagem para Israel é um bom mecanismo de roteiro, que tira os personagens das suas respectivas zonas de conforto e traz um pouco de frescor à história, além de aprimorar a dimensão coletiva das relações já estabelecidas. A situação-limite a que todos chegam no episódio “Babar, o Borrível” é bastante interessante e consegue nos situar nos problemas de comunicação (sejam eles a falta de comunicação ou o excesso) pelos quais a família Pfefermann constantemente passa. Similarmente, é interessante perceber que a jornada de Ali em Ramallah, cidade palestina vizinha de Jerusalém, traz finalmente uma problematização acertada do excesso de sionismo presente em sua família e até mesmo nos guias turísticos encarregados de transportar os Pfefermann por Israel.

Ao tocar no assunto tão delicado da rivalidade entre palestinos e judeus que se arrasta por séculos, e da opressão do primeiro povo pelo segundo mais recentemente, Transparent é coerente em nunca ter a intenção de “tomar partido” ou mesmo levantar qualquer voz opinativa sobre o conflito. Vemos tudo pelos olhos de Ali, que, pertencente a uma família judia de classe média dos Estados Unidos, sabe muito pouco sobre tudo o que acontece ali, assim como a maior parte dos espectadores da série. À medida em que ela descobre novas perspectivas que fogem da narrativa hegemônica a que provavelmente já teve contato, Ali se abre também a novas possibilidades no tocante à sua identidade de gênero: e esse movimento duplo (identidade religiosa/étnica – identidade de gênero) é bem amarrado nesta temporada também com o que se desenvolve entre Maura e seu recém-descoberto pai, que ela acreditava estar morto. 

Afinal, Transparent sempre foi sobre a maneira como nos identificamos e como a sociedade reage e age em relação a isso. Nesta quarta temporada, novas dimensões de identificação se adicionam àquelas já discutidas anteriormente: temos o grupo de “viciados em sexo” que os irmãos frequentam no começo da temporada, por exemplo; temos a viagem a Israel e todo o questionamento de Ali em relação ao seu gênero, à sua família, à sua etnia. Mesmo com o futuro incerto, o que a série já nos mostrou até aqui é digno de nota e de ser visto.

Foto: Amazon Prime

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