4 Filmes Sobre Jesus Cristo


O livro mais lido de todos os tempos também é uma das maiores fontes de inspiração para o cinema. Inúmeras foram as releituras do antigo e do novo testamento da bíblia, recontadas através das visões particulares de seus diretores. A arca de Noé, o êxodo liderado por Moisés no Egito, a criação do mundo, nenhuma delas ganhou tantas versões como a história e vida do filho de Deus.

Ao longo de décadas cinematográficas, muitas foram as fases e faces de Jesus Cristo. Do carpinteiro e filho dedicado ao líder dos homens, do nascimento na manjedoura à crucificação. Representá-lo em tela é caminhar por uma linha tênue entre divindade e homem. Mas é na fraqueza do lado humano que muitos dos diretores focam suas versões. O Cristo que duvida, que é tentado pelo diabo no deserto, que não tem certeza de suas capacidades. Longe do divino, abre-se o espaço para a identificação.

Nenhuma outra pessoa gerou tantos seguidores e causou tantas discussões e controvérsias na história ocidental. Jesus Cristo, seja ele o Messias ou o homem, é personagem inspirador de vários filmes indispensáveis para quem ama a sétima arte.


A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ, 1988)

Foto: Divulgação

O romance dirigido por Martin Scorsese (Os Bons Companheiros) retrata o Jesus Cristo da dúvida. Vivido por Willem Dafoe (Projeto Flórida), o filho de Deus passa o filme lutando contra diversas formas de tentações. Em uma delas, sonha estar envolvido em relações sexuais e até possuindo filhos e família, o que gerou certos questionamentos da comunidade cristã.

Apesar da obra possuir um aviso explicando que não se baseia nos evangelhos e que sua história se distancia um pouco da conhecida na bíblia, boa parte de sua narrativa acompanha os acontecimentos presentes nas escrituras. Das tentações no deserto a santa ceia, do Getsêmani a sua morte. Tudo está representado.

A exceção na fidelidade fica para o último ato, que acontece logo após a crucificação. Um anjo retira Jesus da cruz e o leva até Maria Madalena (Barbara Hershey). A partir daí, Jesus se casa com ela, depois com as irmãs de Lázaro, possui filhos e, posteriormente, se vê em seu leito de morte. Ao fim, tudo não passava de uma visão do próprio diabo, tentando uma última cartada para conquistar o messias. Literalmente, na visão do diretor, a última tentação de Cristo.


A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ, 2004)

Foto: Divulgação

É no excruciante sofrimento de Cristo que o diretor Mel Gibson (Até o Último Homem) pauta sua versão. Apesar de narrar alguns dos principais marcos de suas história, como a Santa Ceia, o filme foca, prioritariamente, nas últimas 12 horas de Jesus, vivido por Jim Caviezel (Alta Frequência), culminando na crucificação e posterior ressurreição dos mortos.

O longa não suaviza ao representar o calvário do filho de Deus. Sua via-crucis transpira sangue e a dor transcende a tela. A flagelação de Cristo beira o sadismo, representado muito pela postura dos soldados romanos e de alguns judeus. À época de seu lançamento, muitas foram as críticas dirigidas a violência desenfreada e visceral que Gibson optou por mostrar, mas é também esta mesma violência que o fez tão real e representativo para boa parte da comunidade cristã.

Apesar das repercussões controversas, o filme de 2004 foi um sucesso estrondoso de bilheteria, arrecadando mais de 600 milhões de dólares no mundo todo.


Jesus Cristo Superstar (Jesus Christ Superstar, 1973)

Foto: Divulgação

Em meio ao deserto, um micro-ônibus estaciona. Dele saem hippies carregando, dentre outros objetos, uma cruz. Enquanto a maioria festeja, Judas Iscariotes (Carl Anderson) inicia a primeira música da ópera rock que narra parte da ascensão e queda do rei dos judeus.

Adaptado para as telas em 1973 pelo diretor Norman Jewison (Justiça Para Todos), Jesus Cristo Superstar retrata a última semana da vida de Jesus de maneira bastante irreverente. No filme, Judas é apresentado como uma pessoa realista e trágica, cuja traição é resultado não de sua vaidade, mas de seu conflito político com o Mestre. Segundo ele, Jesus (Ted Neeley) deixou-se levar pela popularidade e não percebe quão perigosa é sua fama, não apenas para ele, mas também para quem o segue. 

Como é de imaginar, a obra sofreu duras críticas na época de seu lançamento. Cristãos o taxaram como uma blasfêmia e judeus denunciaram o caráter antissemita do enredo. Isso sem falar na polêmica de que Judas é vivido por um ator negro e Jesus por um ator branco. Controvérsias à parte, Jesus Cristo Superstar é uma obra prima que merece figurar entre as melhores adaptações bíblicas para o cinema. Com atuações fantásticas e canções inesquecíveis, o filme conta a mesma história que todos conhecemos, mas de maneira completamente única.


Últimos dias no Deserto (Last Days in the Desert, 2015)

Foto: Divulgação

Escrito e dirigido pelo colombiano Rodrigo García (Albert Nobbs), o filme dramatiza as tentações vividas por Jesus (Ewan McGregor) nos 40 dias em que ficou em jejum no deserto. Livre adaptação da história bíblica, no longa, as tentações e debates com Satanás tem como pano de fundo o destino de uma família que Jesus encontra em sua peregrinação. O peso da missão, sua identidade como filho de Deus e os dramas de seu caráter divino são algumas das questões levantadas no drama.

O mais interessante da obra de García são os toques existencialistas. Em Últimos Dias no Deserto, o cineasta propõe um debate complexo sobre finitude e o significado da fé cristã. Enfatizando a figura humana de Jesus, a obra mostra os conflitos do Mestre diante da certeza de que, mesmo Ele, não pode - ou não deve - solucionar todos os problemas do mundo. E é esse conflito, o interior, que mais pesa. Assim como para qualquer ser humano, é o caráter psicológico que Jesus precisa vencer, pois é através da reconciliação consigo mesmo que conseguirá forças para continuar sua jornada.

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Lívia Campos de Menezes é apaixonada por filmes, séries e boa música (leia-se rock'n'roll). Adora ler e viajar. Desde 2015 mora nos Estados Unidos, onde faz MFA em Cinema na UNC School of the Arts. 

Eduardo Fernandes é jornalista, fã de animação e descobriu, com o filme do Rodrigo García, que o meme do Obi-Wan Jesus não estava tão errado assim.

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