REVIEW | The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story


O mundo da moda vive se transformando, apresentando novidades e tendências, mas poucos são tão influentes quanto Gianni Versace. Quando o canal FX introduziu a série American Crime Story, baseando a sua primeira temporada no famoso julgamento do ex-astro do futebol americano O. J. Simpson, e se mostrando um imenso sucesso crítica e público (além de ganhar prêmios), logo especulou-se sobre qual seria o crime notório que daria título ao segundo ano da produção.

Antes de falar sobre a série, acho válido contextualizar um pouco sobre quem era o famoso estilista. Giovanni Maria Versace nasceu na região da Calábria, em 2 de dezembro de 1946, junto com o seu irmão Santo e sua irmã mais nova Donatella. Começou a trabalhar ainda jovem, trabalhando como aprendiz na loja de costuras de sua mãe. Ficou interessado em arquitetura, mas aos 26 anos mudou-se para Milão, onde começou a trabalhar em design de moda.

Seu primeiro desfile de moda ocorreu em setembro de 1973, lançando sua primeira boutique no ano seguinte. Logo virou sensação no cenário internacional. Seus desenhos combinavam cores vivas, estampas ousadas e cortes sexys, que serviam de contraste as cores frias e a simplicidade. Sua estética atraía críticas de todos os lados. Ele dizia que não acreditava em bom gosto, visto que suas roupas eram consideradas descaradamente desrespeitosas perante as regras da moda. Um de seus rivais, Giorgio Armani, outro ícone da moda, dizia sem pudor:

"Armani veste noivas, Versace veste putas."

Foto: FX

Em 1978, fundou sua companhia com a ajuda de Donatella e Santo, nomeados como vice-presidente e presidente da empresa, respectivamente. O alcance de sua irmã se estendeu a supervisão criativa, onde atuava como consultora chave de Versace, que era muito orgulhoso com relação a sua origem italiana, imbuindo seus designs com motivos inspirados na história da moda e nos movimentos artísticos, especialmente a arte Greco-Romana. Isso se evidencia notar a logo de sua marca, a cabeça da Medusa.

Versace era incomum, sempre mantendo o completo controle criativo de todos os aspectos de sua empresa, que mais tarde expandiria para o ramo de joias e mobílias. Em 1989 ingressou na alta costura com o lançamento do Atelier Versace, tornando-se conhecido por convidar celebridades para desfilar em suas campanhas. Por conta disso acabou creditado por inventar a era das "supermodelos" dos anos 1990, lançando talentos como Naomi Campbell, Christy Turlington e Linda Evangelista.

Dito isso, chegamos ao ponto de The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story.

Um fato curioso da produção é que ela não tem intenção de contar a origem de Gianni Versace (Edgar Ramirez), culminando no dia de sua fatídica morte. O protagonista da série é o seu algoz, Andrew Cunanan (Darren Criss), que assassinou outras 4 pessoas, dentre elas, um ex-fuzileiro da marinha, um arquiteto promissor, um dos empresários mais famosos de Chicago e um coveiro.

Aliás, a temporada inicia justamente no instante em que o estilista é baleado brutalmente em frente a sua casa. Sete anos antes, vemos Cunanan encontrando Versace pela primeira vez, em uma boate gay de São Francisco, e se gabando por isso. Voltamos ao tempo presente e Andrew evade da cena do crime, enquanto o estilista é dado como morto e começa a intensa caçada a um dos maiores vilões da história do país.

Foto: FX

O roteiro então passa a estudar a figura do assassino desde o seu nascimento, suas primeiras interações com homens mais velhos e ricos, culminando no encontro com aquelas que seriam suas vítimas. Essa dinâmica prende a atenção desde o primeiro episódio, com o foco sempre no passado Cunanan, revelando pouquíssimo sobre a caça ao assassino, ao menos até o último episódio, onde tudo é resolvido. Não que isso seja um problema, mas uma melhor dosagem entre presente e passado traria um tom mais envolvente a série.

A identidade visual adotada é algo a se destacar nessa temporada, com um fotografia que aposta em uma paleta de cores que segue a linha das criações de Versace, com cores bem chamativas. O design de produção segue a mesma linha, assim como o figurino, é claro. A exceção visual é Cunanan, que sempre é apresentado com cores sóbrias, discretas e contidas, causando um óbvio e bem-vindo contraste visual.

Aqui American Crime Story retrata as mortes de forma gráfica. O sangue jorra com violência em todos os cantos, mesmo que o ato em si não seja mostrado explicitamente. A câmera passeia pelo ambiente, escolhendo focar no sangue que espirrou, intensificando a tensão da cena.

No que diz respeito as atuações, Darren Criss (Glee) faz um bom trabalho como Andrew Cunanan, indo de um extremo emocional à outro de forma imediata. Seu olhar diz muito a respeito de como se sente em relação a pessoa com quem está lidando. Penélope Cruz (Amando Pablo) dá um tom muito interessante para Donatella, abalada pela morte do irmão que sempre inspirou coragem. Ricky Martin  (Glee), por sua vez, consegue uma química interessante com Edgar Ramirez (Joy: O Nome do Sucesso). Enquanto um adota uma linha "festa todo o dia", o outro segue a linha voyeur, só observando a situação.

Foto: FX

Ao público LGBT, a série pode soar um tanto machista, opressora, mas tenham em mente que nos anos 1990 poucos casais podiam assumir sua sexualidade. A "afronta ao padrão estabelecido" era considerado quase um crime, o que nos mostra que mesmo tendo avançado em algumas questões relacionadas a aceitação da comunidade, ainda temos um longo caminho a percorrer, visto que atualmente o preconceitos ainda faz parte de nossa realidade.

The Assassination of Gianni Versace é uma série que intriga ao desenvolver o passado de um protagonista que poderia ser retratado simplesmente como um psicopata qualquer. De certa forma, mostra que mesmo uma figura grotesca ainda possui um lado humano, ainda que isso não o torne menos culpado pelos assassinatos que cometeu. De forma diferente e competente, American Crime Story soube manter a qualidade entregue em seu ano de estréia. E que venha logo a terceira temporada.

Ótimo

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