CRÍTICA | Antes Que Eu Me Esqueça

Direção: Tiago Arakilian
Roteiro: Luisa Parnes
Elenco: José de Abreu, Danton Mello, Guta Stresser, Letícia Isnard, entre outros
Origem: Brasil
Ano: 2018


Não estamos acostumados a assistir filmes em que o elenco é majoritariamente compostos por pessoas na terceira idade, abordando a realidade da velhice e trazendo a atenção do espectador para essa fatia da sociedade. Muito menos quando falamos de cinema brasileiro. É então que nos deparamos com a "dramédia" Antes Que Eu Me Esqueça, que vem com a proposta de mudar esse cenário e fez um ótimo papel. 

A obra conta a história de Polidoro (José de Abreu), um senhor de 80 anos que decide acabar com a monotonia de sua solitária e confortável vida de juiz aposentado, virando sócio de uma boate de strip-tease em Copacabana. Sua filha Bia (Letícia Isnard) percebe que há algo de errado e que ele precisa de ajuda, então, decide interditá-lo judicialmente. Mas para que o juiz autorize o pedido, o seu irmão Paulo (Danton Mello) também precisa concordar. Na audiência, o filho se declara incapaz de opinar sobre as decisões do pai, já que não fala com ele há anos devido a desentendimentos do passado. Eis que o juiz determina que seja feita uma avaliação de Polidoro por Paulo, em encontros regulares entre pai e filho, fazendo com que voltem a conviver.

Luísa Parnes (Fé na Tábua) traz um roteiro repleto de delicadeza e humor negro, consegue mostrar os ecos do tempo na vida de um homem. Seu texto aborda tabus como a sexualidade na terceira idade, os conflitos das relações familiares e como a solidão pode afetar a vida, principalmente dos idosos. A história é envolvente e emocionante do início ao fim.

Foto: Primeiro Plano

O diretor Tiago Arakilian (Os Irmãos Roberto) demostra uma habilidade incrível na condução dos atores e no curso de seus arcos dramáticos. Por mais que o filme toque em assuntos delicados e tristes, há uma harmonia de sensações que são méritos da direção. Arakilian exemplifica os dilemas de seus personagens e ao mesmo tempo suas alegrias, sabendo a hora certa de tirar o peso dramático e levar um riso ou mesmo arrancar lágrimas da plateia, sem nunca soar melodramático. 

Outro aspecto que merece destaque é a trilha sonora, que acompanha quase sempre o personagem Paulo, visto que o mesmo é um pianista fracassado que quer se profissionalizar. As cenas em que ele toca o instrumento são uma bela combinação do trabalho de trilha, dos enquadramentos inteligentes e não repetitivos, e da montagem, que consegue mesclar com destreza o ritmo da música com os acontecimentos em tela.

E o que dizer desse elenco? José de Abreu (O Tempo e o Vento) e Danton Mello (O Palhaço) emocionam o espectador com a relação conturbada de pai e filho. Abreu entrega uma atuação divertida, já Mello vive um personagem carregado de mágoas do passado, mas que vai evoluindo conforme encontra em seu pai o carinho que sempre buscou.

A participação de Mariana Lima (Amor em Sampa), que tem um arco interessante aqui como Maria Pia, se descobre empoderada quando se liberta de suas convicções. Já Guta Stresser (A Grande Família) funciona principalmente como alívio cômico, mas ainda assim apresenta sua relevância na trama. 

Foto: Primeiro Plano

Antes Que Eu Me Esqueça se permite rir da tristeza e ao mesmo tempo chorar. Abraça situações delicadas com um perfeito senso de humor, típico do cinema brasileiro. É sensível, tocante, divertido e encontra um olhar otimista e bem-humorado para situações trágicas da vida, que as vezes merecem ser enxergadas com outro olhar.

Ótimo




Recentemente participei de um debate mediado pelo Professor de Cinema Brasileiro da PUC-Rio, Sérgio Mota, com o diretor de Antes que eu me Esqueça, Tiago Arakilian.

Abaixo um trechinho da discussão para vocês:


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