CRÍTICA | Culpa


Direção: Gustav Möller
Roteiro: Gustav Möller e Emil Nygaard Albertsen
Elenco: Jakob Cedergren, Jessica Dinnage, Omar Shargawi, entre outros
Origem: Dinamarca
Ano: 2018


O cinema já mostrou que é possível estabelecer um alto grau de suspense, mesmo que não existam imagens explicitas do que se passa, com o desenrolar das ações apenas permeando o imaginário da imaginação do espectador. Essa era uma premissa de Alfred Hitchcock (Um Corpo Que Cai), o mestre do suspense, que também é utilizada em Culpa (Den skyldige), longa-metragem dinamarquês dirigido por Gustav Möller (I mørke), exibido nos festivais de cinema de Rotterdam e Sundance, e representante do país na briga por uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar 2019.

O policial Asger (Jakob Cedergren) trabalha em uma delegacia no setor de emergências e, perto do encerramento de seu turno, recebe uma ligação. É a chamada de uma mulher desesperada que sofreu um sequestro e está com medo de ser descoberta, pedindo auxílio ao policial para saber o que fazer e como ajudar seus filhos, que ficaram em casa sozinhos: um bebê e uma menina de seis anos. Durante o diálogo com Asger, a mulher simula um diálogo com a filha Mathilde, mas a ligação é encerrada subitamente, deixando o protagonista desolado. Com o auxílio de um computador e um telefone, o policial se empenha em encontrar a vítima e prestar socorro a ela.

O filme inteiro é rodado em um único cenário: uma delegacia. Tudo se passa basicamente em dois cômodos: a sala principal do distrito policial e a particular, do policial Asger. Todas as imagens estão concentradas no personagem principal e boa parte da ação não é traduzida em imagens, como quando temos unicamente os sons dos sussurros da mãe, o choro e apelos da filha, as solicitações de outros policias acerca do crime, entre outros. Na medida em que a narrativa se desenrola, tudo o que é escutado durante as ligações é imaginado pelo espectador, que não conhece a aparência física de Iben (Jessica Dinnage), a mulher, e sua filha, nem onde estão.

Foto: California Filmes

O principal atrativo da obra não está na ação, mas na estratégia do protagonista, já que o mesmo é impedido por seus superiores de ir para a rua, motivo que posteriormente é revelado. Ele tem pouco tempo para pensar em um plano e quais medidas tomar para conseguir resgatar a vítima, antes que o pior aconteça. O tempo vai passando, a ansiedade, angústia e desespero de Asger contaminam o espectador, fazendo com que o clima torne-se eletrizante em determinados momentos. Quando se pensa que o sequestrador está prestes a ser apanhado, ainda é necessário mais uma ou outra informação que melhor esclareça sobre sobre o mesmo, e assim o caso desenvolve-se um pouco mais.

O fato da trama se passar em um único ambiente, com imagens concentradas em um único personagem, poderia soar tedioso, repetitivo e sem apelo, mas o trabalho de Gustav Möller é primoroso nesse sentido. O cineasta utiliza de ângulos de câmera inventivos, além de apostar em uma fotografia escura, com poucos pontos de luz e muita sombra, refletindo a real dimensão das emoções do policial, que tenta dar o melhor de si. O uso de sons ambiente, como o de freadas bruscas, setas do carro, para-brisas e os pneus em alta velocidade no asfalto compõem uma espécie de trilha sonora que ajuda a criar o clima de suspense para o público.

A atuação de Jakob Cedergren (Tristeza e Alegria) é sóbria e passa segurança. Mesmo nos momentos mais difíceis, como o desfecho do longa, demasiadamente surpreendente, o ator consegue fazer com que seu personagem segure as rédeas da situação, mantendo o suspense até o fim. Todas as emoções do personagem foram bem transmitidas e absorvidas pelo espectador, que torce pelo melhor desfecho possível, algo essencial nesse tipo de narrativa.

Foto: California Filmes

Filmes rodados em um único cenário não são novidade, mas Gustav Möller garante uma produção bem executada de resultado satisfatório. Culpa mostra que é possível por em prática uma boa ideia, mesmo utilizando de poucos recursos. Se o roteiro for interessante e o elenco competente, basta o trabalho de um bom diretor.

Ótimo

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