CRÍTICA | Excelentíssimos

Direção: Douglas Duarte
Roteiro: Douglas Duarte
Elenco: -
Origem: Brasil
Ano: 2018


O golpe de estado vivenciado pelo governo PT no Brasil em 2016 ainda é uma memória fresca, diluída por uma sequência violenta de capítulos misturados, nuances pouco claras e desconfiança acerca de todas as figuras públicas e veículos de mídia aliada a uma aceitação sagrada da oratória de outras figuras públicas e aceitação irrestrita das verdades de outros veículos. Um acirramento de discursos que não abre margem para debates sadios e alimenta bestas delirantes por poder. Em algum momento a fantasia popular de ter ocorrido uma vitória movida pelas camadas populares será remodelada em outras conjunturas. Atualmente lançou o Brasil frente a um governo de pretensões mórbidas, afeito à intimidação e repressão.

O futuro segue uma incógnita amedrontadora e seu passado ainda é lembrado como uma convulsão de impulsos, histeria e palanques que dificulta mesmo ao mais arguto dos intelectuais a apreensão do que está sendo experimentado no processo democrático destas terras tupiniquins. Muito astutamente grupos de cineastas já haviam intuído os fluxos improváveis da história alçando novas ribanceiras, subindo o nível das águas de seu rio.

Maria Ramos (Morro dos Prazeres) trouxe em O Processo (2018) uma visão desarmada de paixões, consciente do pesadelo pulsante de um impeachment que jogou o país em profunda crise política e apresenta seus argumentos para considerar o procedimento inteiro uma farsa, observando com frieza dolorosa toda a sorte de recursos que o governo da então presidente Dilma Rousseff se esvaírem frente um frenesi de artifícios dúbios no senado. Em Excelentíssimos, Douglas Duarte (Personal Che) trás muito mais comoção ao evento, naufragando nas câmaras, auditorias, repartições, capturando fragmentos de momentos históricos como a horripilante votação de deputados "pela família, pela minha prima de terceiro grau e meu time de futebol na segunda divisão", até mesmo em reuniões de portas fechadas, políticos duvidosos vestindo a indumentária de paladinos da ética.

Foto: Vitrine Filmes

Existe uma ironia histórica perversa que conduz o filme. É doloroso e beira o cômico observar a ovação por Eduardo Cunha e seus métodos transparentes, quando sabemos agora, em 2018, de sua condenação por lavagem de dinheiro e propina. Que Onyx Lorenzoni, acusado de caixa 2 milionário, é figurinha marcada na bancada, agora, isento de julgamento, se tornará ministro. A aprovação do governo de Michel Temer ser a mais baixa da história democrática da nação (um pavor de 3%). Todos os elementos apresentam suas sementes diabólicas em processo de semeação diante do documentário, que mistura com personalidade material de arquivo e filmagens inéditas conquistadas pela equipe.

Entrevistas obtidas não só revelam o caráter nefasto das estratégias das forças conservadoras do cenário político, mas também põem em cheque os equívocos e fraquezas nos planos de Dilma e seu time, também observando como alguns personagens do lado governista tanto se assemelhavam ao outro lado em sua compleição e pessoalidades, como Silvio Costa do PTdoB.

Os eventos organizados por Excelentíssimos são embaralhados, não parecem ter início nem fim claros, por mais que uma estrutura de capítulos imposta arrisque uma coesão didática dessa sequência da história brasileira, até mesmo voltando para o palco das eleições de 2014 (seria possível voltar até um pouquinho mais, em 2013) para avaliar a incipiência do tabuleiro que veríamos ser movido pelos próximos anos através de panelas, patos de borracha, confetes e a desmoralização absoluta das instituições.

Foto: Vitrine Filmes

Ótimo

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