CRÍTICA | Mormaço

Direção: Marina Meliande
Roteiro: Marina Meliande e Felipe Bragança
Elenco: Marina Provenzzano, Sandra Maria, Pedro Gracindo, Analu Prestes, Igor Angelkorte, entre outros
Origem: Brasil
Ano: 2018


Novo filme de Marina Meliande (A Alegria), Mormaço dialoga empolgado com um movimento cada vez mais potente das cinematografias nacionais em tratar suas questões políticas de caráter emergencial, com a aflição de obstáculos intransponíveis pela ótica do fantástico invadindo o real e condenando seus personagens a um universo onde o inexplicável é via de regra. Em sua estreia solo, a diretora carrega um entendimento sóbrio de como costurar suas cenas, alcançando um ritmo muito eficiente. Logo sua primeira sequência comporta as naturezas contraditórias do processo que o longa-metragem captura: a alquimia metropolitana na cidade do Rio de Janeiro em função das Olimpíadas de 2016 e a especulação imobiliária redesenhando o mapa do horizonte, com invasões verticais de arranha-céus. 

A trama do filme acompanha a defensora pública Ana (Mariana Provenzanno) que vive uma rotina desesperadora entre lutar contra a desocupação da Vila Autódromo, na zona oeste do município, e a perda gradual de moradores em seu prédio na zona sul, aceitando indenizações para permitir demolir a residência e gerar um novo hotel.

A escolha de Ana em permanecer no prédio não é imediata e simples, não encontra uma resolução inquebrável, pois nada ali é perene. A luz é cortada, a água é interrompida, as paredes tremem, as infiltrações invadem. Essas casas pelas quais se lutam são tão firmes quanto frágeis. A obra provoca vários paralelos entre as situações sem desvincular-se da consciência de classe dos diferentes contextos e conflitos subsequentes. São vidas de famílias que administraram uma comunidade por gerações, sendo coagidas e intimidadas por toda sorte de mecanismos dos órgãos públicos num festival de baixaria, por um evento com duração de um mês.

Foto: Duas Mariola Filmes

A Vila Autódromo é o objeto perfeito para elevar as observações da narrativa. Mesmo tendo como palco uma cidade aos pedaços, as consequências brutais não são igualmente sentidas por todos. Para muitos que estão ali correndo na Praia do Flamengo no fim de semana, o Parque Olímpico não é uma interferência. Ainda assim as imensas camadas de poeira são perceptíveis no espetáculo da fotografia, uma segunda pele de escombros recobre a vida dos personagens e acinzenta seus arredores, catalizado pelas ondas de calor do verão carioca, sempre presentes, e influindo no desgaste físico de Ana, sempre em busca de uma maneira para se refrescar, mas também para se cobrir de estranhas manchas que vão possuindo seu corpo na progressão do filme.

Mormaço, essa onda de calor e umidade densa, é um nome carioca o suficiente para entender a significância do estado das coisas quando a protagonista vai se resguardando, apavorada pela infiltração que surge em sua pele, um corpo de diagnóstico impecável, mas com o anúncio inequívoco de seu ultimato. As expulsões são inúmeras pelo filme, até mesmo com Ana sendo removida de seu próprio corpo, mesmo com a recusa absoluta de ir embora. As consequências dessa resistência à violência (que vem dos poderes privados insaciáveis, vem do Estado repressor) não são bonitas (a obra também apresenta uma incrível direção de arte e maquiagem que arrancam fácil gritos roucos de aflição pelas depravações das feridas expostas), não são satisfatórias.

Foto: Duas Mariola Filmes

A vitória pode parecer em primeira vista uma derrota, pois o poder do desmonte urbano é implacável. Mas existem elementos da cidade que eles não podem invadir, sabotar e explodir em pedaços. Até podem tentar, mas encontrarão uma dificuldade impraticável em capturar sua totalidade. Isso porque, sintetizado muito bem pelo melhor diálogo da obra (apesar de muitos serem extremamente formulescos, beirando o didatismo absoluto e irrestrito), a cidade não some se a gente ainda está nela.

Ótimo

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