CRÍTICA | Se a Rua Beale Falasse

Direção: Barry Jenkins
Roteiro: Barry Jenkins
Elenco: Stephan James, KiKi Layne, Regina King, Diego Luna, Brian Tyree Henry, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2018


Mesmo com o potente e inspirado Eu Não Sou Seu Negro (I Am Not Your Negro, 2016), que parte de um livro incompleto do escritor estadunidense James Baldwin para uma análise do panorama das lutas contra o racismo, ainda é difícil transladar para o exterior a importância deste autor para todo o contexto dos movimentos negro e LGBT, uma voz singular pela garantia dos direitos civis.

O novo filme de Barry Jenkins (Moonlight: Sob a Luz do Luar) é curiosamente bem menos ambicioso que seu antecessor e ironicamente mais abrangente, justamente por sua abordagem, desta vez não acompanhando a maturação de um jovem endurecido pela estranheza de afetos ausentes, mas contemplando as vibrações efusivas de um amor que percorre as ruas do Harlem.

O longa é a adaptação do quinto livro de Baldwin, que conta a história de Tish (KiKi Layne) e Fonny (Stephan James), jurados de amor desde a infância, se olhando por uma parede de vidro desde que op segundo foi falsamente acusado de um crime. Tish descobre que está grávida e este é o ponto de partida para as famílias de ambos recorrerem a tudo que podem para libertar o rapaz.

Todos os elementos disponíveis neste universo (as cores, a ambientação, a textura, a melodia onírica que acompanha a trama) elevam a narrativa para uma esfera da ordem do feérico. A própria condução sutil por meio de narradores (que felizmente nunca ocupa mais que o necessário) tanto revela sua genética literária quanto expõe a necessidade do próprio casal protagonista de acreditar imperturbáveis num final feliz de conto de fadas.

Foto: Sony Pictures

A construção mística que um dos parceiros faz do outro, alimentada e propagada pela distância imposta pelo poder que comanda as ruas, é sentida na pele mesmo diante de todas as dificuldades que despontam diante desse cenário suburbano e discriminatório. Existe a angústia para conseguir criar um filho da melhor maneira num mundo que os rebaixa imediatamente pela condição de sua etnia, o sofrimento de sustentar sua família economicamente num mundo que não para e espera para que você possa acompanhá-lo, o confronto com as instituições de justiça, suas fragilidades que facilmente condenam jovens negros sem motivo (isso quando não são exterminados).

A rua Beale é um território vivo, onde o amor pode florescer e ser cultivado. A forma como Barry Jenkins consegue transformar todas as gradações de ocre do filme em um ambiente quase atemporal, como se esta história pertencesse tanto ao tempo em que foi escrita (1974), quanto aos dias de hoje, onde o diagnóstico de injustiça social e racismo ainda é alarmante.

A direção tem seu toque de maestro quando conduz seus personagens em elegantíssimas danças, seu primeiro beijo, sua primeira relação sexual sendo orquestrada como uma valsa. Também é digno de nota a coragem de Jenkins em penetrar espaços visuais e ocupar o mesmo lugar dos olhos de seu casal, capturando closes diretos sem hesitar, enriquecendo de imensa humanidade aqueles que namora com a câmera.

Foto: Sony Pictures

Se a Rua Beale Falasse é um manifesto sóbrio e lírico sobre nosso direito de amar, sobre a manutenção e cuidado desse amor, mesmo ante as sevícias reservadas aos menos favorecidos. Talvez principalmente para os que são segregados do esquema social, pois a estes só resta a própria união e afeto para que se tornem maiores do que o sistema que se rejeita a escutá-los. Se rejeita a escutar o que a rua Beale tem a dizer.

Ótimo

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