CRÍTICA | Mirai

Direção: Mamoru Hosoda
Roteiro: Mamoru Hosoda
Elenco: Rebecca Hall, Daniel Dae Kim, John Cho, Victoria Grace, entre outros
Origem: Japão
Ano: 2018


Mirai (Mirai no Mirai) é como podemos falar de futuro no idioma japonês. É o nome que os pais de Kun (Jaden Waldman), uma criança de quatro anos, escolhem para o mais novo membro da família, um pequeno bebê com uma mancha de nascimento na mão direita. A introdução do novo filho no núcleo familiar modifica a dinâmica da casa, onde o pai deve fazer as tarefas domésticas enquanto a mãe trabalha fora, e todo cuidado e atenção é direcionado à pequena Mirai (Victoria Grace). Não é nenhuma surpresa que, com o comportamento egocêntrico típico de uma criança nova, Kun vai rivalizar o afeto dos pais com a bebê. Isso até que recebe um sermão de sua irmã, em uma versão de 15 anos vinda do futuro.

O diretor Mamoru Hosada (O Rapaz e o Monstro) se apropria com muita leveza de elementos da estrutura familiar, bem como se aventura neles por meio de um realismo fantástico profundamente elegante e requintado. Faltam elogios, de verdade, a esse cineasta. Ao mesmo tempo que essas características adereçam imediatamente influências do Studio Ghibli, também consagram uma individualidade que distingue perfeitamente as obras do Studio Chizu (Hosada é um dos fundadores). Mas, talvez, por acumular tantos elementos apaixonados em seus trabalhos anteriores, Mirai ressoe com muito menos vibração no contexto geral.

Foto: Studio Chizu

Na trama, Kun experimenta uma série de viagens temporais, episódios onde é advertido sobre uma atitude sua, e assim vai aprendendo a amadurecer por meio de empatia de membros de sua família em diferentes épocas, desde sua irmã no futuro até seu bisavô depois da guerra e, inclusive, uma versão antropomórfica de seu cachorro. A fluidez não só da animação belíssima - consequente de uma operação esforçada de celebrar os detalhes do movimento humano, do seu arfar e do seu soluço -, mas também das trocas entre os personagens, que autoriza um organismo vívido em cena, onde misticismos e fantasias que invadem a verossimilhança são muito bem-vindos, sem nunca parecerem invasões criativas sem lugar naquele mundo. Mesmo a planta da casa desta família se consolida de uma maneira tão viva para o espectador que é fácil projetar querer viver ali. 

É neste cenário caprichado que brilha uma árvore chamada por Mirai de "índice" daquele lar, daquelas pessoas, um mapeamento histórico e sentimental de tudo que foi aprendido e preservado para o futuro, as próximas gerações. O próprio kanji que remete a futuro é, na verdade, uma árvore de longos galhos. Tudo está tematicamente bem pontuado, mas é um pano de fundo para uma narrativa que desenvolve muito pouco, ou quase nada. 

O risco de comprometer a recepção calorosa que aquele lar oferece, omite conflitos inerentes no filme e abandona seu protagonista à uma série de esquetes, com lições de moral fáceis em frames bonitos. Claro, Kun é uma criança pequena, mas a opção por desenhar um arco de aprendizado inteiro a cada vinte minutos para, na sequência seguinte, sermos quebrados por um novo comportamento impensado e infantil tira uma força tremenda de qualquer análise. Torna  a animação uma ideia bem montada, mas que não executa nada com seu material.

Foto: Studio Chizu

A ausência de uma trama coesa que integrasse as diferentes etapas do personagem principal em torno de um aspecto mais nítido, o põe menos ambicioso do que Guerras de Verão (2009), e a hesitação com as temáticas fantásticas não elucida as questões vividas pelos seus personagens, deixando-os sem as camadas existentes em Crianças Lobo (2012), por exemplo, ambos incríveis trabalhos anteriores do diretor, que souberam abraçar o extraordinário e mágico para investigar relações familiares e seus dilemas como a maternidade, a herança cultural ou a construção de uma identidade humana. Mirai é lindo e carinhoso, mas com muito pouco vigor e uma proposta que ousa muito menos do que deveria.

Bom

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