CRÍTICA | Nunca Deixe de Lembrar

Direção: Florian Henckel von Donnersmarck
Roteiro: Florian Henckel von Donnersmarck
Elenco: Tom Schilling, Sebastian Koch, Paula Beer, entre outros
Origem: Alemanha / Itália
Ano: 2018


Mais do que invocar o belo, a arte tem função de provocar, fazer pensar e, até mesmo, incitar revoluções. Por isso mesmo, é geralmente a classe artística uma das primeiras a ser perseguida quando ditadores - sejam eles de esquerda ou direita - assumem o poder. Em Nunca Deixe de Lembrar (Werk ohne Autor), o diretor Florian Henckel von Donnersmarck (A Vida dos Outros) usa justamente esse pretexto para contar a estória de Kurt Barnert (Tom Schilling), um pintor alemão que vive anos tolhido pela censura, inicialmente do nazismo e posteriormente do socialismo russo.

Inspirado livremente na vida de um dos mais extraordinários pintores ainda vivo, Gerhard Richter, o filme proporciona uma viagem história e reflexiva tão necessária em tempos atuais.

Somos apresentados a Kurt ainda criança (Cai Cohrs), em 1937. Junto com a tia Elisabeth (Saskia Rosendahl), o menino visita uma exposição denominada “Arte Degenerada”, na qual artistas como Kandinsky e Chagall são enxovalhados pelo regime de Hitler. Porém, Elisabeth não leva o sobrinho à exposição para doutriná-lo. Pelo contrário, após ouvir do guia que aqueles artistas produziram tais obras por terem distúrbios mentais, ela sussurra no ouvido de Kurt: “Eu gosto”. Posteriormente, a sensível moça também pede para que ele nunca desvie seu olhar dos acontecimentos, afirmando que “tudo que é verdadeiro, é belo”.

Foto: Divulgação

Elisabeth, todavia, é logo arrancada da vida do pequeno Kurt. Esquizofrênica, ela é enviada a um campo de concentração e assassinada. Após a guerra, o garoto e o que restou de sua família permanecem no lado oriental da Alemanha, dominado pelos russos. Embora pobre, ele consegue entrar para a academia de artes onde conhece a mulher de sua vida, Ellie (Paula Beer). O pai da moça (Sebastian Koch), famoso médico ginecologista, faz de tudo para separá-los, sem sucesso. Cansado da opressão tanto pessoal quanto artística, Kurt foge com Ellie para a Alemanha Ocidental, mergulhando numa busca incessante para encontrar-se como artista. 

Com uma linha do tempo de aproximadamente trinta anos, Nunca Deixe de Lembrar é apresentado ao público em três horas e oito minutos que passam rapidamente. Apesar de ser bastante melodramático e conter cenas e temas pesados, o filme também afaga o espectador, ao mostrar que é possível encontrar beleza até mesmo nas maiores tragédias. Como diria a sabedoria popular, é no sofrimento que se cresce. E é exatamente em seus traumas que Kurt encontra inspiração, tornando-se um pintor reconhecido.

Talvez a estória merecesse ser contada no formato de minissérie, dado os muitos acontecimentos que acabam sem um desfecho propriamente dito, mesmo com a duração extraordinária do longa. No entanto, perder a oportunidade de assistir a este longa-metragem no cinema seria uma lástima. A fotografia de Caleb Deschanel (A Paixão de Cristo) complementa com esmero o roteiro de von Donnersmarck, trazendo para a grande tela uma verdadeira obra-prima. 

Foto: Divulgação

No quesito atuação, o destaque vai para o ator mirim Cai Cohrs (Paths), que interpreta Kurt na infância. É lindo observar o olhar do garoto, capaz de expressar tanto espanto e curiosidade ao conhecer os artistas degenerados, quanto tristeza e luto quando acometido pelo massacre da Segunda Guerra. Além dele, Sebastian Koch (A Vida dos Outros) enche a tela todas as vezes em que aparece. O veterano representa com maestria a frieza e a astúcia necessária ao Professor Carl Seeband. 

Indicado a duas categorias no Oscar 2019 – Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Fotografia –, é uma pena que Nunca Deixe de Lembrar não tenha ganho distribuição no Brasil. Mais do que nunca, o brasileiro precisa ter acesso a obras como essa, para reviver a história e apreciar a arte.

Ótimo


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Lívia Campos de Menezes é apaixonada por filmes, séries e boa música (leia-se rock'n'roll). Adora ler e viajar. Mora em São Francisco (CA), onde trabalha como produtora de cinema independente.

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