CRÍTICA | Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese

Direção: Martin Scorsese
Elenco: Bob Dylan, Allen Ginsberg, Patti Smith, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2019


No elogiado documentário No Direction Home: Bob Dylan (2005), Martin Scorsese (O Lobo de Wall Street) montou pela primeira vez um quebra-cabeça referente à carreira desse grande artista. Ao longo de aproximadamente seis horas, o cineasta entrevistou diversos personagens que evidenciavam as grandes influências musicais de Robert Allen Zimmerman, ou Bob Dylan, no início dos anos 1960. Neste primeiro longa, assistimos o auge do cantor na cena folk e protestante, mas que também não esteve imune às críticas poucos anos depois, quando transformou seu estilo e enveredou para o rock 'n' roll.

Eis que, em 2019, somos agraciados com mais um resultado da parceria Scorsese/Dylan, com o lançamento de Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese, que poderia simplesmente também ser definido como um documentário, não fosse uma característica especial: nem tudo que você assiste ali realmente existiu ou aconteceu.

Aqui acompanhamos a volta de Bob Dylan aos palcos. Após um hiato de oito anos (marcado pelo acidente de moto que iniciaria a pausa), o cantor anunciava seu retorno acompanhado pela The Band, na turnê Rolling Thunder Revue, em 1975. No longa é possível ter uma pequena noção do período conturbado que a nação norte-americana enfrentava após o escândalo do governo Nixon, o fracasso na Guerra do Vietnã e a onda de movimentos sociais. Esse sentimento de desilusão seria um contraponto à proposta que a turnê apresentava, remetendo aos movimentos culturais de rua e circenses, e levando a música para lugares e públicos pouco acessíveis.

Foto: Netflix

Um dos elementos lúdicos que torna essa história um misto de ficção e realidade são alguns personagens selecionados para as entrevistas, além de depoimentos do próprio Bob Dylan, que embarca na aventura com devaneios. O título, inclusive, é uma baita dica sobre a fusão narrativa criada pela dupla. E há momentos realmente engraçados pra quem conhece bem a persona do cantor, sempre oscilando entre o mistério e uma esquisita simplicidade.

Além dos diversos recortes à parte - muitos retirados do filme Renaldo & Clara (1978), com direção do próprio cantor - é impossível não se deliciar com o rico material em ótima qualidade que temos dessa turnê. Dylan e a The Band apresentam ótimas performances, misturando grandes clássicos, que já eram consagrados naquele período, em releituras impressionantes. O retorno aos palcos com a banda foi um grande passo para o artista, que certamente encontrou nessa repartição de atenção uma oportunidade para se sentir mais à vontade nas apresentações e menos pressionado enquanto músico.

Há quem não faça muita questão do material adicionado pela dupla nessas quase duas horas e meia de execução, preferindo apenas o retrato mais fiel possível dos fatos. Porém, toda essa aura independente e cultural vivenciada por esses artistas que embarcaram em uma viagem de ônibus na estrada, na melhor referência à Kerouac (relembrado no filme em ótima cena, por sinal), é o grande ápice de criação que tanto importa para Bob. Independente do que foram e do que se tornaram, a sintonia criativa entre aqueles músicos e poetas, naquele determinado período, é o que afeta as pessoas - seja no sentimento materializado em lágrimas após um show, ou em uma música exigindo justiça a um homem inocente. 

Foto: Netflix

A máscara tão falada e vista no longa é o indício do que Bob Dylan quer reforçar com seus mais de 50 anos de carreira: quando há verdade no que se cria e compartilha, você consegue chegar até as pessoas. Depois disso, tudo pode virar cinzas, nada mais importa.

Ótimo

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