[crítica] O Lobo de Wall Street

Diretor: Martin Scorsese
Roteiro: Terence Winter
Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Jon Bernthal, Kyle Chandler, Jean Dujardin e
Matthew McConaughey
Ano: 2013


Martin Scorsese é mesmo genial. Apenas 2 anos se passaram desde seu último lançamento, A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2010), seu primeiro e belíssimo filme “infantil”, que também é uma declaração de amor ao Cinema que o mesmo tanto ama. Dito isso, é impressionante perceber que aos 71 anos, e tão pouco tempo depois, o diretor entregue ao espectador uma obra tão complexa e bem feita como O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street). O tipo de longa-metragem que não se faz mais hoje em dia, do tipo que poucos sabem fazer bem feito, talvez do tipo que só Scorsese saiba fazer, ao menos da forma que foi feito.

Baseada na autobiografia do apelidado Lobo do título, a trama narra a história de Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), um corredor da bolsa de valores que se viu deslumbrado pelo sucesso de seus negócios, o levando a abrir sua própria empresa em Wall Street e passando a praticar transações ilícitas para faturar mais dinheiro do que já ganhava. Belfort também era conhecido por ostentar os milhões que lucrava diariamente com “agrados” para si e seus empregados, como prostitutas, drogas e festas homéricas. Um prato cheio para o FBI, que passou a investigá-lo severamente.

A obra é uma ode aos obsurdos praticados por Belfort, que realmente não tinha limites em seus atos. Cada insana situação é destacada com bom humor e maestria pela frenética câmera de Scorsese, que pouco se preocupa com a censura, entregando cenas de nudez e abuso de entorpecentes ao bel prazer, mas sempre conferindo uma linguagem única e característica para seu filme, como quando aproveita de seus belos planos sequências. Outro artifício costumeiro em sua filmografia, como fora em Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1990) e Cassino (Casino, 1995), é o uso da narração do protagonista ditando o ritmo da trama. No entanto, o diretor inova ao quebrar a quarta parede, fazendo com que DiCaprio, por vezes, olhe diretamente para a câmera e comunique-se com o espectador, em diálogos inspiradíssimos escritos pelo roteirista Terence Winter – “Let me tell you something. There's no nobility in poverty. I've been a poor man, and I've been a rich man. And I choose rich every fucking time.”
 
Outro aspecto muito bem trabalhado é a composição de época. Seja por meio de figurinos, penteados, ou mesmo a trilha sonora (que é datada conforme os anos vão se passando), cada detalhe é cuidadosamente articulado para que acreditemos plenamente que a trama se passa no fim da década de 80. Scorsese ainda brinca com a linguagem de vídeo e propaganda da época, por vezes diminuindo o aspecto da tela e deteriorando a imagem, de forma a emular os comerciais daquela década.

Se a obra tem um defeito, certamente é a longa duração. Fica claro que o diretor (que não teve tempo hábil para editar seu filme, apressado para que a data de estreia fosse compatível com o período das premiações) optou por não eliminar sequências que valorizaram a atuação de DiCaprio, da qual falarei logo mais. Alguns momentos poderiam ter sido limados para dar um pouco mais de fluidez a narrativa, mas nada que estrague a experiência proporcionada.

As atuações também são memoráveis. Matthew McConaughey (Magic Mike) faz uma pequena, mas engraçadíssima, participação como Mark Hanna, uma espécie de mentor de Belfort. Também pequenas, mas importantíssimas para a trama, são as participações de Kyle Chandler (Super 8) e Jean Dujardin (O Artista), vivendo um agente do FBI e um banqueiro suíço, respectivamente. Jonah Hill (É o Fim), por sua vez, novamente se destaca num longa de grande importância para premiações, vivendo o braço direito do Lobo, Danny Porush. Utilizando de uma de dentadura e óculos de armação típica da época, Hill mostra-se fisicamente diferente do que estamos acostumados, mas não menos talentoso e engraçado. Dois momentos merecem destaque: quando o mesmo fica drogado em uma festa da piscina e, também, quando alega que uma “laranja” é sua funcionária, pois carrega seu dinheiro em seus seios.

Não há dúvida, no entanto, que o dono do filme é Leonardo Dicaprio (Django Livre). Em sua quinta contribuição com Scorsese, o ator entrega a sua atuação mais memorável desde O Aviador (The Aviator, 2004), e merecidamente foi lembrado pela Academia. DiCaprio está entregue ao papel, passando inclusive por situações embaraçosas perante as câmeras, que grandes atores de Hollywood talvez não topassem fazer. Seu trabalho cresce à medida que Jordan Belfort ascende em seu “império”, de forma que o interprete que vemos no começo da narrativa é completamente diferente daquele que enxergamos no início do terceiro ato. E se há uma cena que seguramente ficará na lembrança de todos é a de quanto o protagonista, após extrapolar na dose de entorpecentes, tenta desesperadamente entrar em seu carro.

O Lobo de Wall Street é um filme extremamente engraçado, adulto e chocante, tamanhos os absurdos vistos em tela. E talvez seja isso, aliado a genialidade de Scorsese (sempre moderno em sua linguagem), que faça dele uma obra tão boa. A preocupação com a censura para que se possam atingir lucros maiores, muitas vezes atrapalham a visão de diretores em seus longas, algo que acontecia muito pouco nas saudosas décadas de 70 e 80, épocas em que o cinema alçava voos incríveis. Martin Scorsese parece ter parado no tempo, nesse sentido. E isso está longe, muito longe mesmo, de ser algo ruim.


Excelente!


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Já havia feito um post com o trailer do filme, que você pode conferir clicando AQUI! 


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