CRÍTICA | O Cavaleiro Verde

Direção: David Lowery
Roteiro: David Lowery
Elenco: Dev Patel, Alicia Vikander, Joel Edgerton, Sarita Choudhury, entre outros
Origem: Irlanda / Canadá / EUA / Reino Unido
Ano: 2021

Assim como no trailer, nos primeiros minutos de O Cavaleiro Verde (The Green Knight) notamos que a trama aparenta estar em um tempo semelhante à Idade Média com cores frias no enquadramento, acompanhado de iluminação natural e de velas. Ambientação composta por um feudo, um rei e uma rainha, plebeus, castelos, animais na cidade e, não menos importante, alguém com a esperança de se tornar um príncipe.

Gawain (Dev Patel) é um plebeu, ele vive em um lugar humilde, com sua mãe e sua amada por perto. O Rei é seu tio, porém ainda não encontrou a missão correta para que possa ser nomeado como príncipe. Durante as festividades do Natal, o rei recebe a visita inesperada do Caveleiro Verde (Ralph Ineson), um homem com aspecto de árvore e coloração verde, assim como seu nome, adentra o castelo e desafia alguém a enfrenta-lo.

Gawain se oferece e com a ajuda da espada que o rei lhe alcança, ele arranca a cabeça do Cavaleiro Verde. Sem combate ou relutância. Mas, por sua vez, o Cavaleiro não morre, pega sua cabeça caída do corpo e desafia o futuro príncipe a encontra-lo em sua capela após um ano, para que acertem as contas.

Ao contrário do que muitos pensam, o glamour da Idade Média só existe nos quadros pintados que, em boa parte das vezes, não reflete a realidade da época. Mesmo nos romances de cavalaria, em que era contada uma história de teor fantástico, misturada aos fatos sobre algo que ocorreu à população, formando uma imagem de alguém temível e nobre, como no caso de Gawain.

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O roteiro de David Lowery (Sombras da Vida) segue quase todos os 12 passos da Jornada do Herói. O protagonista tem uma vida comum e recebe o chamado à aventura, precisando enfrentar desafios e provas de cavalheiro durante seu percurso. Vários elementos de cena aparentemente inúteis acabam soando fundamentais à jornada, fazendo referência até mesmo a mitos da cultura grega.

Em determinado momento Gawain é perseguido e acaba fazendo amizade com uma raposa. Ele a interpreta como uma presença dócil, podendo servir de guia até seu objetivo, já que viu representações do animal em uma iluminura, junto a outros cavaleiros. No entanto, o animal não é visto assim em muitas culturas, até mesmo no cristianismo, em que a espécie é tida como traiçoeira. E vale lembrar que Gawain segue tal doutrina, por comemorar o nascimento de Jesus logo no início do filme.

No que diz respeito aos aspectos técnicos, é interessante notar como a presença do Cavaleiro Verde é sempre acompanhada de elementos de fotografia da mesma cor. Apesar de tons verdes serem geralmente associados a natureza, aqui ele é atrelado ao sobrenatural, mas de maneira venenosa, assim como vemos na cor da bruxa de O Mágico de Oz (1939), por exemplo. É algo que corrói a todos, tornando a população temerosa do retorno do Cavaleiro.

Perto de seu destino final, o protagonista é acolhido em um castelo e ali nota a semelhança com seu vilarejo, já que há mulheres de olhos vendados que possuem sensibilidade paranormal e escrevem cartas com mensagens do além, além de poderes voltados à cura, assim como a sua mãe. Estas mulheres remetem às parcas ou moiras, da mitologia romana e grega, respectivamente. São divindades que controlavam o curso das vidas dos mortais, decidindo o que acontecerá entre a vida e a morte, assim como as que vemos em obras como Hércules (1997), da Disney, por exemplo.

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Antes de encerrar, vale mencionar a cena em que Gawain é agraciado por um beijo de outro homem. Momentos antes o protagonista sela um acordo falado com o lorde do castelo (Joel Edgerton), para que divida melhor a caça que conseguir com Gawain, algo que não é concretizado até o dia seguinte. Na Idade Média, o "selinho" era um costume para se "selar" contratos, sem qualquer cunho sexual.

O desfecho de O Cavaleiro Verde não é necessariamente inovador, mas surpreende o espectador que se deixar levar pela narrativa, sendo marionete do destino, assim como o protagonista.

Excelente



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