CRÍTICA | O Jogo da Imitação

Diretor: Morten Tyldum
Roteiro: Graham Moore
Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Mark Strong, Charles Dance, Matthew Goode e Rory Kinnear
Origem: Estados Unidos / Reino Unido
Ano: 2014


Sou fã confesso de filmes que retratam a Segunda Guerra Mundial e suas vertentes. Não que eu seja admirador do evento em si, pelo contrário, acho um dos episódios mais tristes da humanidade, no entanto, é inegável que trata-se de um período histórico riquíssimo e que já rendeu algumas obras-primas para o cinema, como a A Lista de Schindler ou A Vida é Bela, que tinham o holocausto como principal tema, por exemplo. O Jogo da Imitação (The Imitation Game) chega então para contar um capítulo importantíssimo dessa história. Capítulo esse que por mais de 50 anos foi ocultado, mas que agora certamente figurará entre os mais importantes daquele evento, assim como, aposto ficará marcado entre as grandes obras cinematográficas.

Trata-se da cinebiografia de Alan Turing (Benedict Cumberbatch), um matemático inglês fascinado por criptografia que, durante 2ª Guerra Mundial, é convidado pelo governo britânico à ingressar em uma equipe ultra secreta que tinha como objetivo decifrar o código de comunicação nazista, tido como o "código impossível", tamanha a quantidade de variações apresentadas diariamente. Para atingir seu objetivo, Turing desenvolveu um complicado e caro mecanismo, mas teve como principal barreira a sua imensa dificuldade em se relacionar com as pessoas.

Não citei na sinopse acima, mas Turing era homossexual. Reprimido, como a maioria daqueles que tinham tal opção sexual e viveram àquela época, visto que o homossexualismo era tido como crime na Grã-Bretanha, com severas punições para suas práticas. Esse fato, altamente relevante para trama, é também um dos fatores que elevam a interpretação de Benedict Cumberbatch (Álbum de Família) para um patamar maior. Desprovido de qualquer maneirismo ou esteriótipo, o ator constrói uma persona difícil, reclusa, por vezes arrogante, mas nunca menos fascinante. Sua inteligência e genialidade vão além de suas ambições humanas, mas a todo momento o vemos sofrer por isso. Sofrer por ter que fingir ser alguém que não é. A matemática era seu refúgio e assim foi até o fim de sua vida (não abordarei detalhes da trama para não estragar a experiência de quem ainda não conhece a história de Turing).

Há detalhes na interpretação de Cumberbatch que chamam a atenção, como a sutileza com que notamos que o mesmo se sente atraído por um colega de profissão, ou mesmo como vemos o descontrole contido em sua voz quando percebe que seu trabalho corre o risco de ser encerrado abruptamente por falta de resultados. Esse mergulho na personalidade de Turing só é possível graças ao competente roteiro de Graham Moore (estreante em longa-metragens), adaptado do livro de Andrew Hodges, que habilmente mescla os acontecimentos da Guerra com momentos passados e futuros da vida do matemático.

Contando com uma narração em off do protagonista, que pontua os acontecimentos e facilita nosso entendimento sem, no entanto, subestimar nossa inteligência, a obra acerta em mesclar cenas de bombardeios e soldados feridos no campo de batalha, de forma a nos lembrar a importância do trabalho realizado por aqueles matemáticos. A quebra do código nazista significa o fim da Guerra, e esse imediatismo é sentido a todo momento no filme. Mérito do diretor Morten Tyldum (Headhunters) que, apesar de inexperiente, mostra que é conhecedor da técnica cinematográfica, ao diferenciar as linhas temporais com sutis mudanças na paleta de cores (um trabalho conjunto com o fotógrafo Oscar Faura, evidentemente).

Devo citar também a trilha sonora de Alexandre Desplat (O Discurso do Rei), merecidamente indicada ao Oscar. A música permeia toda a narrativa e pontua com destreza o sentimento empregado em cada cena, seja um momento de grande excitação ou de tristeza absoluta de nosso protagonista, sem a necessidade de apelar para o sentimento do espectador.

Tido à mim como um clássico instantâneo, por reunir tantos aspectos positivos que cercam um longa-metragem, essa obra é, acima de tudo, um importante capítulo da história mundial. E se no ano passado 12 Anos de Escravidão - merecidamente - foi distribuído como material didático nas escolas norte-americanas, certamente O Jogo da Imitação também deveria ser, tamanho o poder de sua mensagem e importância.


Excelente!

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 TRAILER LEGENDADO: 

Comentários

  1. Luís Fernando Costa28 de janeiro de 2015 09:15

    Ótima crítica, bom trabalho! 😉

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  2. o melhor do Oscar é visibilizar obras como essa, uma grande historia apresentada de modo genial

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