CRÍTICA | Corrente do Mal

Direção: David Robert Mitchell
Roteiro: David Robert Mitchell
Elenco: Maika Monroe, Lili Sepe, Olivia Luccardi, Keir Gilchrist, Bailey Spry, Jake Weary e Daniel Zovatto
Origem: EUA
Ano: 2014


Corrente do Mal (em uma tradução péssima que tira toda a impessoalidade gélida do título original) conta a história de Jay (interpretada por Maika Monroe, a nova jovem musa do horror vintage), uma bela e tranquila garota que se vê dentro de um pesadelo após transar com seu namorado pela primeira vez. Ela acaba descobrindo que foi propositalmente "infectada" com um tipo de "DST espiritual" que funciona da seguinte forma: a partir daquele momento, ela será perseguida por algo, uma criatura indefinida, que pode tomar a forma que desejar (de um estranho completo até sua mãe, por exemplo), que estará sempre em movimento, caminhando (nunca correndo) em sua direção, com o objetivo de matá-la de forma terrível e brutal. Qual a única maneira de escapar? Transando com outra pessoa e passando a maldição adiante. No entanto, se aquela pessoa morrer, a entidade voltará a perseguir o "hospedeiro" anterior, e assim sucessivamente. Dali pra frente, Jay e seus amigos terão que lidar com essa nova e assustadora realidade enquanto buscam formas de tentar contornar o problema e escapar com vida.


Corrente do Mal torna literal a metáfora que alimentou boa parte dos filmes de horror dos anos 70/80: transar (fora do casamento, especialmente) é assinar a sua própria sentença de morte. Porém, enquanto naquelas obras o ato sexual era punido com a perseguição de um maníaco de força sobrenatural (Sexta-Feira 13) ou parasitas de origem desconhecida (Calafrios, de Cronenberg), aqui o castigo é muito mais aterrorizante, justamente por não se prender a um espaço e tempo limitados. Não importa onde você esteja ou aonde vá, nunca estará a salvo.

Um dos diversos aspectos positivos do longa é, sem dúvida a sua atmosfera onírico-decadente, fruto de um design de produção e direção de arte extremamente competentes. A escolha de situá-lo em Detroit (o diretor é natural de Michigan) foi acertadíssima, já que boa parte da cidade encontra-se em ruínas ou abandonada, contribuindo para o desconforto causado pela produção. Além disso, não fica claro em que época os eventos retratados se passam, pois se em um momento vemos casas antiquadamente decoradas, com ultrapassados televisores de tubo transmitindo filmes de horror em preto e branco, em outro vemos uma personagem lendo O Idiota de Dostoiévski (não por acaso, claro) em um moderno (apesar de estranho) e-reader.

É curioso também o fato do roteiro não apresentar nenhum adulto como personagem ativo, apenas como figurantes, com seus rostos embaçados em enquadramentos tortos. O que importa para a narrativa são os jovens, ainda inocentes e corrompíveis, enquanto os adultos, já decadentes, permanecem distantes.


É preciso elogiar enfaticamente o trabalho do diretor (e roteirista) David Robert Mitchell, o qual conduz o filme de forma magistral, com um trabalho de movimentação de câmera que gera momentos de tensão desesperadora sem a necessidade de recorrer aos cansativos jump scares (aqueles sustos baratos causados por barulhos altos) dos longas de horror padrão. Em certo ponto, Jay e seus amigos vão à diretoria de uma escola tentar descobrir mais sobre o seu ex-namorado agora foragido. Nesse momento, o diretor deixa a câmera parada em seu eixo e faz um giro de 360 graus que resulta em um efeito extremamente perturbador pois, ao mesmo tempo que estamos cientes da fragilidade dos protagonistas, parados e à mercê da morte ambulante, vemos uma série de pessoas andando em diversas direções, sendo que qualquer uma delas pode ser a "coisa". Aliás, ao empregar um vilão silencioso e obstinado, o filme faz como que o espectador naturalmente fique atento a todos os detalhes mostrados na tela. Será que aquela pessoa andando lentamente ao fundo é o "monstro"?

Por fim, é necessário mencionar a trilha sonora de Richard Vreeland (cujo nome artístico é Disasterpeace, até então mais conhecido por sua ótima trilha para o game indie Fez). Ao emular e modernizar aquilo que John Carpenter fez em Halloween e outros dos seus clássicos dentro do gênero, o artista conseguiu imprimir em sua obra ainda mais tensão apocalíptica, com seus sintetizadores ora estridentes, ora nefastos. Vide, por exemplo, o momento em que Jay e seus colegas se dirigem a uma piscina pública, num casamento perfeito de imagem e som, gerando momentos do mais puro e belo estranhamento.

Corrente do Mal é uma obra de horror única que fica melhor a cada vez que é assistida. A riqueza de detalhes e easter eggs presentes em cada cena torna a produção um prato cheio para aqueles obstinados em tentar entender "o que realmente está acontecendo". Feito pela bagatela de 2 milhões de dólares (uma mixaria para os padrões de Hollywood), ele é a prova cabal de que para fazer um bom filme de gênero basta boa vontade e talento.

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