Colossal e a crescente força feminina no cinema


O ponto de partida de Colossal é uma premissa bem estranha: uma mulher descobre que pode controlar um monstro do outro lado do mundo. É um daqueles conceitos muito fora da caixa que, no mínimo, vão fazer com que você fique curioso para saber como isso pode ser concebido e se tem como dar certo.

Dirigido e roteirizado pelo espanhol Nacho Vigalondo (Perseguição Virtual), Colossal mostra que esse conceito é, sim, realizável, e vai mais longe ao aproveitá-lo para tratar de muito mais camadas do que apenas a de ficção científica ou fantasia.

Em boa parte das vezes, filmes fazem uso de alegorias e metáforas para falar de problemas reais e sentimentos com que podemos nos conectar. É por isso que interpretamos obras de formas tão distintas, suas construções buscam evocar elementos que são subjetivos e dependem das nossas experiências próprias, as interpretações acabam se tornando inevitavelmente abertas.

O que Colossal faz, então, é transformar seu monstro gigante em uma alegoria para todos os problemas de sua personagem principal, Gloria (Anne Hathaway) e, ao fazer isso, subverter ao mesmo tempo que homenageia os filmes do gênero de uma forma muito inteligente. Tudo isso, com uma personagem feminina como ponto central.


E é aqui que fica tão interessante, porque Gloria é o tipo de personagem que não conseguimos ver com frequência no cinema, muito menos como uma personagem principal, que vai conduzir a história, com nuances, lados bons e lados ruins e tão humana quanto se pode ser. Ela tem inúmeros problemas: não consegue emprego, não consegue parar de beber e precisa voltar para a pequena cidade onde cresceu porque o namorado a expulsa de casa. E esse é o tipo de filme que talvez não fosse ter muito espaço em um cenário indie mais conhecido, caso tivesse sido produzido alguns anos atrás.

A presença feminina no cinema é ainda muito pequena, tanto na frente das câmeras quanto atrás, mas desde 2015 um crescimento relevante tem acontecido. De acordo com um estudo feito pelo Centro de Estudo das Mulheres na Televisão e no Cinema (o estudo completo aqui, em inglês), levando em consideração os 100 filmes com maior bilheteria nos Estados Unidos em 2016, 29% das protagonistas foram mulheres, representando um aumento de 7% de 2015, que por sua vez já representava um aumento dos 12% de 2014. Para este cálculo, o estudo leva em conta personagens que tem a história contada de seus pontos de vista.


Quando olhamos para a diferença entre cenário independente e estúdios, os números são um pouco mais próximos, mas filmes de estúdios têm uma preferência por protagonistas masculinos. E, finalmente, quando a pesquisa observa o gênero dos personagens principais dependendo do gênero do diretor, existe uma diferença grande de 57% de protagonistas femininas em filmes dirigidos por mulheres, enquanto que, em filmes dirigido por homens, esse número cai para 18%.

Embora alguns desses dados pareçam ruins, é importante observar que todos eles significam um aumento em relação ao ano anterior, é só que antigamente essa representatividade era apenas terrível mesmo. O cinema é um reflexo da sociedade que busca representar, e naturalmente tem começado a mostrar as mudanças que estamos sentindo na forma como tratamos e falamos de mulheres. As pequenas mudanças que começamos a notar nas nossas rotinas eventualmente encontram lugar no cinema.

Anne Hathaway, comentou em uma entrevista como ela mesma se percebeu duvidando da capacidade da diretora de Um Dia (One Day, 2011), filme também protagonizado por ela, simplesmente pelo fato de ser uma mulher, e como temos esse preconceito internalizado. A atriz comentou também como acha estranho quando lhe questionam quão difícil foi se transformar para viver Gloria, já que essa é a personagem que ela sente que foi o mais próximo de si mesma que já interpretou.


A sociedade em que vivemos é ainda machista, e o cinema tem como dever ser uma força que vai questionar isso, porque consegue alcançar um público muito maior. Esse questionamento vem justamente nos personagens e nas histórias que eles contam, podemos lembrar de Mad Max: Estrada da Fúria, que tem a personagem Furiosa, uma das melhores protagonistas que vimos em 2015, e também A Chegada, onde Louise, a personagem de Amy Adams, é quem carrega quase toda a emoção do filme.


Colossal entra aqui então, como um produto de uma mudança clara e muito bem-vinda, nos permitindo acompanhar uma mulher que não tem tudo bem resolvido na vida, que se sente perdida, que às vezes procura respostas sobre si mesma em outras pessoas, quando devia olhar para dentro dela. O filme faz isso de forma equilibrada, é engraçado em boa parte do tempo, pesado quando precisa ser. Cresce como um estudo de personagem brilhante e também como um estudo dos problemas que vivemos hoje, mostrando que é possível e necessário falar sobre eles, mesmo que fazendo uso de um monstro gigante para tal. E, ainda melhor, abre espaço para que mais filmes façam a mesma coisa, deixar personagens que existem na vida real existirem no cinema também, e nos lembrar que suas histórias valem a pena ser contadas.

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