REVIEW | Sharp Objects


Criada por Marti Noxon (O Mínimo Para Viver), baseada na obra de Gillian Flynn (Garota Exemplar) e dirigida por Jean-Marc Vallée (Big Little Lies), Sharp Objects é uma minissérie em oito capítulos da HBO, que estreou com alarde mediano, mas conquistou os amantes de thrillers e terrores psicológicos.

O ritmo vagaroso e a não linearidade da trama oferecem mais que uma estória de suspense, colocando a audiência na pele da repórter angustiada – e alcoólatra – Camille Preaker (Amy Adams). Uma construção feita de forma apropriada e muito bem-sucedida.

Desde o início do primeiro episódio fica claro que Camille não está confortável com a nova tarefa dada pelo amigo, e editor-chefe, Frank Curry (Miguel Sandoval). Mais do que o incômodo em investigar os recentes assassinatos ocorridos em sua cidade natal, o que afugenta a protagonista é o forçado reencontro com a família, mais especificamente com a mãe, Adora (Patricia Clarkson). Porém, à medida que a trama se desenrola, percebemos que há algo realmente macabro acontecendo no local e que a aparentemente tradicional família de Camille está envolvida de alguma forma.

Foto: HBO

Aliás, o destaque de Sharp Objects está nesse duro núcleo da narrativa, composto pela matriarca, Adora; pelo padrasto e bon vivant, Allan Crellin (Henry Czerny) e pela meia-irmã rebelde, Amma (Eliza Scanlen). A artificialidade das relações entre eles se justapõe com a cumplicidade em que guardam seus segredos. Embora não compactue com a vida de aparência da família, a própria Camille é conivente, quando prefere fugir ao invés de enfrentar seus traumas. Tanto no passado, quanto no presente.

Com uma atuação excepcional, Amy Adams (A Chegada) prova novamente porque é considerada uma das melhores atrizes de sua geração. Sua protagonista traz ainda mais complexidade para a trama. Seu tom de voz, olhares e até mesmo o andar externam a dor da personagem (muito antes da câmera mostrar as marcas que seu corpo carrega). Da mesma forma que o ritmo imposto pela direção de Vallée, a Camille de Adams é lenta, revelando não apenas a embriaguez constante da personagem, mas reforçando sua indiferença com a própria vida. 

Sharp Objects também proporciona ao espectador uma experiência intelectual curiosa, graças ao ótimo trabalho de edição. A constante mudança entre presente e passado, através do uso de flashbacks, deixa a estória propositalmente confusa. Do início ao fim o público é tão desorientado quanto Camille, e, assim como a personagem principal, o espectador demora a encontrar sentido no que vê.

Foto: HBO

O resultado final é uma sensação inebriante, desconfortável, mas realmente satisfatória. Assistir Sharp Objects é como vivenciar em primeira pessoa os tormentos de Camille Preaker. Uma experiência rara nas produções televisivas atuais.

Excelente

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Lívia Campos de Menezes é apaixonada por filmes, séries e boa música (leia-se rock'n'roll). Adora ler e viajar. Mora em São Francisco (CA), onde trabalha como produtora de cinema independente.

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