Big Little Lies e as Mulheres Sobreviventes


So.ro.ri.da.de
substantivo feminino
União e aliança entre mulheres, baseado na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum.

Uma história dramática? Uma trama policial? Não, Big Little Lies vai muito além disso. Vencedora de cinco Emmys, a minissérie da HBO apostou em cenários deslumbrantes, uma trilha sonora bem encaixada e, sobretudo, em protagonistas femininas fortes para deixar sua marca como uma das melhores produções audiovisuais de 2017.

Baseada no livro de Liane Moriarte, Big Little Lies conta com um elenco de peso que inclui Nicole Kidman (Os Outros), Reese Witherspoon (Livre) e Laura Dern (Star Wars: Os Últimos Jedi). A narrativa gira em torno de um assassinato misterioso e da decorrente investigação policial, e é a partir dessa perspectiva que outros conflitos e tensões vão sendo desvelados ao público. Um dos grandes trunfos da produção é logo inverter os papéis, pois o crime perde a importância frente à descoberta de outros problemas que vêm a tona como violência doméstica, bullying e violência sexual. 

Assista o trailer da série:


Mulheres no poder

Ao longo de sete episódios, o público acompanha o dia a dia das três protagonistas Celeste (Kidman), Madeline (Whiterspoon) e Jane (Shailene Woodley). As amigas representam mulheres de idades, estilos de vida e situações financeiras diferentes, e essa diversidade é o que mais chama a atenção.

De personalidade mais reservada e passiva, Celeste abandonou a carreira de advogada para cuidar dos filhos e parece vivenciar um casamento perfeito. Já Madeline, expansiva e sempre muito correta, é o centro do grupo e uma das mulheres mais influentes de Monterey (Califórnia). Por último, Jane é uma jovem mãe solteira que tenta esconder seu passado ao iniciar uma nova vida na cidade. Renata (Laura Dern) e Bonnie (Zoe Kravitz) também se mostram relevantes na trama, já que as camadas de suas personagens vão sendo aos poucos exploradas. 

O que une essas mulheres? A maternidade. Todas elas são mães e seus filhos estão sempre, de alguma forma, envolvidos nos conflitos que permeiam toda a trama. O trajeto casa/escola se torna um ritual ao abrir todos os episódios, e as crianças são reflexos do meio em que estão inseridas, bem como do interior conflituoso de cada uma das protagonistas. Contudo, é interessante perceber o cuidado que a produção teve ao desconstruir o estereótipo de mãe e o ideal da maternidade. Na série, ser mãe não limita ou simplifica a mulher, pelo contrário, é apenas uma de suas várias facetas. A personagem Renata, por exemplo, encarna uma típica mãe moderna, tendo que conciliar a carreira de empresária, o cuidado da filha e o sentimento de culpa por essa escolha.

Conflitos velados


Para além do assassinato, o clímax da trama se encontra nos detalhes, nas entrelinhas dos diálogos e na delicadeza com que assuntos pesados são abordados. A temática da violência doméstica, por exemplo, é tratada a partir de diversas nuances (o amor tóxico coexiste com a raiva, a manipulação emocional e a dependência sexual) e não necessita de muitas cenas de agressão física para chocar. Somente a presença do casal, até mesmo em momentos tranquilos, já é o bastante para deixar o espectador aflito.

Já através da trama de Jane, é possível perceber as marcas que a violência sexual deixa na vida de uma mulher e como isso reverbera nas pessoas ao seu redor. Apesar da aparente normalidade, aos poucos se percebe que ela ainda está presa ao trauma do passado e constantemente tentando superá-lo.

Sororidade

Por fim, Big Little Lies é uma história sobre mulheres. A luta para se fazer presente e ser dona da própria vida é o verdadeiro foco da narrativa. A superação da aparente “rivalidade feminina” por uma união na qual essas “mulheres sobreviventes” apoiam umas as outras é a herança que se sobressai ao final da temporada. 



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