CRÍTICA | As Duas Irenes

Direção: Fabio Meira
Roteiro: Fabio Meira
Elenco: Priscila Bittencourt, Isabela Torres, Marco Ricca, Suzana Ribeiro, Inês Peixoto, entre outros
Origem: Brasil
Ano: 2017


As Duas Irenes retrata a questão da identidade do ser humano, com uma jornada de autodescoberta como pano de fundo e questões complexas, como estrutura familiar, personalidade e traição. O estreante na direção de longas-metragens, Fábio Meira (Novembro), nos entrega uma narrativa tensa e ao mesmo tempo envolvente, que fará o espectador não tirar os olhos da tela até o seu desfecho.

A história acompanha a vida de Irene (Priscila Bittencourt), filha do meio de uma família que mora em uma cidade do interior de Goiás e se sente um tanto deslocada, tendo em vista não ser o centro das atenções da casa. A irmã mais nova, Cora (Ana Reston), não consegue se virar sozinha, e a mais velha, Solange (Maju Sousa), se prepara para um grande momento de sua vida, o baile de debutante. Isolada e em meio aos dilemas da adolescência, Irene descobre que seu pai tem outra família e uma filha com o mesmo nome e idade (Isabela Torres). Ela resolve se infiltrar nesse novo núcleo familiar, mas sem revelar sua identidade (usa o nome Madalena) e conhecer a realidade de sua meia-irmã.

Quando a protagonista encontra a outra Irene, nota-se um olhar de afrontamento e curiosidade, e várias perguntas vão surgindo na mente do espectador: o que teria acontecido com o pai para ele ter tido um caso extraconjugal e por que as duas filhas são tão diferentes, uma com criação rígida e a outra mais liberal? Não só a figura paterna será questionada, mas também a descoberta da identidade de Irene, quem ela é, sua posição na família e o que ela gostaria de ser.

Crédito: Vitrine Filmes

O roteiro consegue abordar temáticas como amadurecimento, identidade, sexualidade e traição, tudo de forma honesta e precisa. O ritmo inicial da história soa lento, pois apresenta o núcleo familiar de Irene, sua fase de autodescoberta, seguida do segredo do pai por tanto tempo guardado, da existência de uma outra família. Além disso, questões importantes e há tanto tempo enraizadas em nossa sociedade ganham holofotes na história: o quanto as mulheres ainda são reféns dos homens e da família e tudo o que elas enfrentam para anular suas personalidades e manter um casamento.

A fotografia impressiona, com cores pálidas ao retratar a família de Irene e com tons mais pastéis para a segunda família, retratando assim duas diferentes realidades. Além disso, um recurso estético chama a atenção em As Duas Irenes, a representação da figura dupla, e ao notarmos Irene refletida no espelho voltamos para a questão da identidade, ainda confusa, e que desemboca para a questão da libertação, que a mesma tanto busca na história.

O elenco também é um ponto alto. As duas jovens atrizes, Priscila Bittencourt e Isabela Torres, não sentem o peso de representar papéis tão complexos, com dois mundos paralelos que vão se entrelaçar e se complementar, apesar das disparidades. Marco Ricca (O Invasor), por sua vez, consegue transmitir amor através de um olhar, demonstrando delicadeza para com suas famílias, fazendo com que o espectador não consiga sentir raiva incondicional do personagem, ainda que guarde o segredo dessa dupla rotina.

Crédito: Vitrine Filmes

A direção de Fábio Meira não traz ousadia, mas conduz questões como amadurecimento e a importância da figura paterna de maneira firme e convincente. Os personagens são bem construídos, as duas Irenes transmitem naturalidade no que tange às angústias da juventude e as interações funcionam. Uma abordagem que merece toda atenção e destaque, sem esquecer que a história é inspirada em fatos que aconteceram na família do cineasta, o que impressiona ainda mais.

Um filme que ilustra o retrato de muitas famílias, com uma estrutura patriarcal que ainda rege nossa sociedade, e a maneira como os jovens enfrentam os dilemas da adolescência e a busca pela afirmação, muitas vezes de maneira dolorosa, assim definido As Duas Irenes. Reflexivo, emocionante, tenso e cativante.

Ótimo

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