5 Filmes de Cineastas Mulheres



Em 1993, Jane Campion entrou para a história como a primeira mulher a vencer a Palma de Ouro, no Festival de Cannes, por seu trabalho em O Piano. Um ano depois, em 1994, Campion tornou-se a segunda mulher a concorrer na entrega do Oscar ao prêmio de direção. Perdeu para Steven Spielberg, por A Lista de Schindler, mas ganhou como Melhor Roteiro Original. Somente em 2010 uma mulher levaria a estatueta de direção, uma categoria em que, até hoje, somente QUATRO mulheres foram indicadas: Jane Campion, Lina Wertmuller, Sofia Coppola e, a única vencedora, Kathryn Bigelow.

O mundo do cinema é predominantemente dominado pelos homens, uma mentalidade machista onde as mulheres servem apenas para ocupar atividades ainda tidas como próprias a elas: atriz, figurinista, diretora de arte e montadora. É incrível como, no século XXI, ainda vemos tamanha desigualdade de gênero na indústria cinematográfica. Mas com certeza, nós, mulheres cineastas estamos lutando para ter nosso espaço e trabalho reconhecidos. Então, trago aqui alguns exemplos de filmes dirigidos por mulherões da p0##@ do mundo do cinema!


Operação Cupido (The Parent Trap, 1998), de Nancy Meyers


Comédia dirigida por Nancy Meyers (Do Que as Mulheres Gostam, 2000) e produzida pela Disney, Operação Cupido é um remake baseado no filme de mesmo nome, filmado originalmente em 1961. Tendo como estrela principal a estreante Lindsay Lohan (Sexta-Feira Muito Louca), a obra conta a história de duas garotas que se encontram num acampamento de verão e descobrem que são gêmeas, separadas logo após o nascimento pelos pais que não queriam mais se encontrar. Elas então resolvem trocar de lugar para conhecerem seus pais.

Annie, criada em Londres por uma mãe fashionista, vai para a casa de Hallie, filha de um fazendeiro de vinícolas nos Estados Unidos, e vice versa. Quando Annie descobre que o pai delas vai casar com uma megera, um plano de emergência é bolado pelas gêmeas para fazer com que seus pais voltem a se encontrar.

O fato da Lindsay Lohan estrear no cinema fazendo dois papéis impressiona, e mostra o talento que tinha desde pequena, algo que, infelizmente, foi deixado de lado pela atriz posteriormente. Até a diferença de sotaques ela faz muito bem feito.

Em termos de estilo e conteúdo, um filme de Nancy Meyers tem uma identidade própria que nem todo mundo compra. São longas esteticamente agradáveis, sempre em tons suaves, com uma iluminação bonita. Seus temas são focados nas relações humanas e na maneira como elas afetam diferentes personagens, especialmente as mulheres. Suas protagonistas têm conflitos que podem parecer pequenos quando colocados em perspectiva, mas que são relevantes para elas e, assim, são levados a sério, sem dispensar o bom humor.

Embora Meyers já tenha sido chamada de rainha das comédias românticas, seu primeiro filme, escapa à especificação. Mesmo que o objetivo das irmãs gêmeas seja reviver o casamento de seus pais, o principal relacionamento que vemos se firmar é o delas próprias. É claro que é um filme clichê, mas também é fofo, divertido e ótimo para se assistir em família.


Como Nossos Pais (idem, 2017), de Laís Bodanzky


Falando em família, o novo filme de Laís Bodanzky (As Melhores Coisas do Mundo) conta a história de Rosa (Maria Ribeiro), uma mulher insatisfeita com o trabalho, com problemas em seu casamento e que, durante um almoço de família, descobre não ser filha do homem que a criou.

Bodansky é uma especialista em contar situações que parecem mundanas, mas que tem um enorme teor humano. Famílias que precisam se aceitar e perceber que as diferenças sempre vão existir. Foi assim em Bicho de Sete Cabeças e, agora, em Como Nossos Pais.

Com diálogos inspirados, trazendo sentimento de pertencimento das situações, a diretora não teme tratar de temas complexos como o dilema da "super mulher". O longa tenta equilibrar seu drama com alívios cômicos e diálogos mais leves. Desentendimentos e descobertas levam a protagonista a um processo de autoconhecimento e uma eterna busca para entender qual deve ser o seu papel na estrutura da vida.

Maria Ribeiro (Tropa de Elite) dá um show ao lado de Clarice Abujamra (Confia em Mim), que interpreta sua mãe. Maria passa a frustração de uma mulher que sente o peso de não ter sido a favorita na vida de sua mãe e, por isso, as personagens vivem esse eterno embate, em uma relação de amor e ódio, que rege a história.

O compositor Belchior diz em sua música que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, porém, Rosa é uma personagem mais forte até do que seu pais e com um desejo maior de mudar. Trata-se de um estudo da mulher moderna, como vive e como quer viver e, principalmente, mostra os novos tempos em que não somos mais as mesmas.


Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2009), de Kathryn Bigelow


A história do longa-metragem foi baseada no livro de Mark Boal, responsável pelo roteiro. Guerra ao Terror foi venceu o Oscar de Melhor Filme em 2010, levando ainda a estatueta de Melhor Direção, Melhor Roteiro Original, entre outras.

O filme fala sobre um esquadrão antibombas enviado à Guerra do Iraque em uma área onde qualquer pessoa poderia ser um potencial inimigo. A jornada é focada na figura do sargento James (Jeremy Renner), mandado à companhia Bravo de fuzileiros em Bagdá, justamente quando faltavam 38 dias para sua dispensa. As bombas não são desarmadas pela "glória da nação norte-americana", é apenas mais uma tarefa a ser cumprida por um homem. Um serviço.

Uma das características destacadas pela crítica foi a utilização de atores desconhecidos e jovens para os principais papéis. Isso ocorre, pois, em Guerra ao Terror, a preocupação não é retratar a guerra com base em ideologias políticas e, muito menos, apresentar o conflito como um espetáculo de destruição em massa. Na visão de Bigelow, os soldados são mostrados como uma personificação exata do propósito do conflito: passar para a próxima fase. Em suas tramas, tarefas e, até mesmo no relacionamento com outros militares e iraquianos, os soldados são caracterizados pela diretora como homens corajosos que, em meio à aspereza das batalhas, tornam-se meras ferramentas da funcionalidade, meritocracia e burocracia.

O longa é mais relacionado com a expectativa do que com a ação, ou como cada personagem encara a situação. E é nisso que a diretora se concentra: em mostrar o suor no rosto, as mãos tremendo de tensão, o olhar das pessoas. Vemos a alma de cada um envolvido, seja qual for o lado. Bigelow faz a escolha correta de não querer analisar os porquês de estarem ali, ou quem está certo em uma guerra que já perdeu o sentido há muito tempo. A história foca em um grupo de homens e é isso que ela mostra. Não há heróis, o que vemos são seres humanos. Não são necessários tiroteios e um herói imbatível para se fazer um filme de guerra, e muito menos de um diretor homem.


Jeanne Dielman (Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles, 1975), de Chantal Akerman


Considerado a obra-prima de Chantal Akerman (O Estado do Mundo), embora tenha a dirigido com apenas 25 anos. O longa retrata três dias da vida de Jeanne Dielman (Delphine Seyrig), uma solitária, viúva e alienada dona de casa, que faz seu trabalho diário sem grandes reflexões e mora com seu filho adolescente Sylvain. Ocasionalmente, ela se prostitui para ganhar dinheiro extra.

Jeanne Dielman esbanja maturidade ao representar de uma maneira extremamente fria e desesperançosa o cotidiano de uma dona de casa, retratando bem a alienação e a rotina, sendo um dos primeiros filmes centrados em explorá-la através de longas cenas de afazeres banais, passando uma sensação de repetição. Enquanto em quase todas as obras cinematográficas a montagem tem como objetivo deixar a narrativa mais dinâmica, tirando "partes entediantes", em Jeanne Dielman, Chantal faz questão de deixá-las, já que é exatamente esse o tema abordado na obra.

O filme é uma composição única de planos fixos de câmera, acompanhando as tarefas do dia-a-dia da protagonista. Dessa forma, a diretora nos insere na vida de Jeanne, apresentando-a de uma forma simples e extremamente íntima. Até mesmo a elipse, o coito que nunca é mostrado, se dá dentro do plano. Sua construção não se prolonga inconscientemente para o extracampo espacial, e por isso seus filmes raramente permitem contra planos. Cada plano carrega seu peso e sua função. O cinema de Chantal é feito de unidades completas e independentes. Cada quadro tem sua moldura, como se a estrutura plano/contra plano os separasse, em vez de conectá-los. O ritmo monótono que prevalece no filme é fundamental para o funcionamento da obra.

Lentamente, percebemos o desgaste psicológico ocasionado pela rotina repetitiva. O filme usa a personagem para criticar o vazio existencial de uma parcela significativa de mulheres modernas, cuja vida é tão vazia ao ponto de a sua maior preocupação estar em saber se as batatas estão no ponto. Uma forma desconfortável de retratar a futilidade da vida da personagem, conferindo ao filme o ar feminista tão presente na filmografia de sua diretora. Jeanne se prostitui diariamente em sua própria casa para financiar sua vida burguesa e saciar sua necessidade de prazer carnal, aflorada após a morte de seu marido. Todos os elementos reforçam a ótica feminista do filme.


Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006), de Sofia Coppola


Por último, mas não menos importante, temos Maria Antonieta, dirigido por uma das cineastas mais divas do cinema, Sofia Coppola (O Estranho Que Nós Amamos, 2017). Apesar de se tratar de uma narrativa biográfica, pois conta a vida da rainha desde a chegada na corte francesa até sua morte, sendo guilhotinada na Revolução Francesa, a diretora consegue mostrar tudo isso de forma jovem, moderna, cativante e glamorosa, como a própria Maria Antonieta foi em vida.

O filme é protagonizado por Kirsten Dunst (As Virgens Suicidas), que está perfeita dando vida à rainha da França. Acompanhamos a jornada dessa figura histórica controversa desde quando sai da corte austríaca, com 14 anos, e se muda para Paris para se casar com o príncipe Luis XVI, passando pelas dificuldades da relação, bem como seu desajuste e solidão dentro da realeza, que era cheia de regras e costumes com as quais ela não estava acostumada. Além disto, ela enfrenta as constantes pressões para gerar um herdeiro real e assim, perpetuar a linhagem monárquica.

Maria Antonieta também mostra o lado da história pelo qual ela ficou famosa e que gerou sua morte: sua vida cheia de festas e gastos com roupas, sapatos e lazer. Kirsten conseguiu passar isso muito bem, dando graça a futilidade da personagem e deixando claro o descaso de Maria para com o reino. Ela era uma jovem que, com 18 anos, já era rainha, preocupada demais com suas roupas e joias, e que pouco se importava com a miséria da população. Todo o seu luxo era bancado com o dinheiro que deveria servir para satisfazer a necessidade do povo.

O roteiro é bem adaptado e pensado, já que transpõe bem os fatos históricos para o cinema. O figurino é primoroso, deslumbrante e consegue expressar toda a personalidade da rainha, que vai de ingênua e delicada (cores claras e em tons pastéis) à sedutora e manipuladora (cores escuras e tons quentes), conseguindo extrair as diversas faces de Maria Antonieta, motivo pelo qual ganhou o Oscar nessa categoria.

Já a trilha sonora é bem diferente e surpreendente, já que Coppola optou por dar uma aura mais moderna, usando músicas de bandas como do The Strokes no fundo das cenas. A fotografia é incrível, sempre focando em detalhes e fazendo composições lindas de ambientes internos e externos, além, claro, da direção de Sofia Coppola, que conseguiu unir isso tudo e fazer do filme um marco contemporâneo. Uma cineasta de visão única.


Achou pouco? Relaxem, porque logo mais teremos uma segunda parte com mais filmes dirigidos por outras cineastas fantásticas. Aguardem!


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