CRÍTICA | Detroit em Rebelião

Direção: Kathryn Bigelow
Roteiro: Mark Boal
Elenco: John Boyega, Anthony Mackie, Algee Smith, Will Poulter, Jack Reynor, John Krasinski, entre outros
Origem: EUA
Ano: 2017

Vocês já ouviram falar na "maldição do Oscar", certo? Aquela teoria de que, quando um ator ou diretor recebe a estatueta, automaticamente começa a embarcar em projetos de qualidade questionável. Felizmente, para Kathryn Bigelow (A Hora Mais Escura), a única mulher a vencer o Oscar de melhor direção na história, essa "maldição" se mostra infundada, pois estamos falando de uma cineasta que amadurece a cada filme, entregando sempre um projeto bem realizado e impactante para o público. Detroit em Rebelião (Detroit) não é a melhor obra de sua filmografia, mas é o tipo de longa que só pode ser realizado pelos grandes. E Bigelow faz parte desse clube.

A trama é baseada em fatos estarrecedores ocorridos na Detroit dos anos 60, período em que os conflitos raciais transformaram a cidade quase que literalmente em uma zona de guerra. Dentro desse escopo, acompanhamos a história de três personagens: Dismukes (John Boyega), negro, que têm 2 trabalhos para conseguir levar sustento ao lar, um deles como segurança noturno de uma loja de departamentos; Larry, negro, cantor, que sonha em entrar para o time da Motown Records ( gravadora que nasceu em Detroit) e, por fim; Krauss, branco, um policial racista que não hesita em atirar em qualquer negro envolvido nos conflitos que ele deveria apaziguar.

Bigelow adota o tom documental de maneira incisiva, especialmente no primeiro ato de sua narrativa, quando não somos apresentados a nenhum personagem e sim aos fatos ocorridos na cidade. Um processo importante para que sejamos inseridos na realidade que ela está ali representando. Nesse ponto, a utilização da câmera na mão em toda a obra mostra-se essencial, pois ela realça esse aspecto, tornando tudo muito real e visceral.

Crédito: Imagem Filmes

O roteiro de Mark Boal (Guerra ao Terror) - colaborador recorrente da diretora -, combinado com a montagem eficiente, é bem sucedido em inserir fluidamente os personagens em meio aos conflitos, interligando suas histórias. Todo o segundo ato de Detroit em Rebelião se passa dentro de um hotel, quando a polícia local invade o estabelecimento em busca de uma suposta arma de fogo que havia disparado contra eles de uma das janelas. É lá que Krauss exerce seu preconceito vestindo sua farda, oprimindo os negros do local (entre eles Larry) com violência e tudo de pior que o ser humano pode demonstrar perante um igual.

Os fatos estarrecedores que ali ocorrem, testemunhados por Dismukes, mostram um retrato trágico da nossa sociedade. Digo nossa sociedade, pois apesar da história se passar em terreno norte-americano, não é algo diferente do que vemos acontecer no Brasil, ou em outras partes do mundo. Bigelow é eficaz em demonstrar em tela como um trauma pode definir a vida das pessoas. A perda da esperança e a disseminação do ódio também faz nascer o preconceito, transformando tudo em uma bola de neve triste de se ver. Nesse ponto, o arco narrativo do cantor Larry mostra-se o mais interessante.

Costumo dizer que nenhuma grande história funcionaria sem um bom elenco, e aqui temos um conjunto de atores que se destaca pela naturalidade em cena. Aquela sensação de realidade que filmes como Cidade de Deus nos passa, ainda que aqui, não tenho conhecimento se foram usados figurantes não profissionais. O fato é que a obra ainda se dá ao luxo de trazer rostos conhecidos em papéis pequenos, como Anthony Mackie (Capitão América: Guerra Civil), que vive um ex-militar, hóspede do hotel; e John Krasinski (The Office), interpretando o advogado que defende os atos dos policiais em julgamento.

Crédito: Imagem Filmes

Detroit em Rebelião é daqueles filmes difíceis de se assistir, que você provavelmente não vai querer revisitar um dia, tamanha a barbaridade dos fatos que vivenciamos em tela. E isso não é demérito algum. Basta assisti-lo uma vez para absorver o impacto de sua mensagem. Apenas o fato de, durante a cabine de imprensa que participei, terem profissionais dando risada de algumas cenas estarrecedoras da obra, mostra que a mensagem não é apenas atual, mas importantíssima para a sociedade que sonhamos que um dia possa existir. Nós talvez não estaremos aqui para vivê-la, mas quem sabe nossos netos.

Ótimo

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