CRÍTICA | Gabriel e a Montanha

Direção: Fellipe Barbosa
Roteiro: Fellipe Barbosa, Kirill Mikhanovsky e Lucas Paraizo
Elenco: João Pedro Zappa, Caroline Abras, Alex Alembe, Leonard Siampala e John Goodluck
Origem: Brasil / França
Ano: 2017

“Você não acha ridículo estudar pobreza morando em Beverly Hills?”

Esse era o pensamento de Gabriel Buchmann, economista carioca que em 2009 foi encontrado morto no Monte Mulanje, no Malawi, aos 28 anos. Amigo de Gabriel desde a escola, o diretor Fellipe Barbosa (Casa Grande) apresenta sua história com imenso carinho e frescor cinematográfico.

O longa foca sua narrativa nos últimos setenta dias de vida do brasileiro na África e surpreende o espectador logo de início, abrindo o filme com uma homenagem a Gabriel, algo que costumeiramente acontece no final de cada obra. Logo em seguida, temos um emocionante plano-sequência, que destaca a beleza local, bem como a surpresa e indecisão dos trabalhadores da região, ao descobrirem o corpo de Gabriel. 

Gabriel e a Montanha é divido em quatro capítulos, que representam os quatro últimos países africanos em que o protagonista esteve. Em sua primeira parte, há uma observação das ações diárias de Gabriel, que o introduzem como um bom samaritano. O espectador se encanta pelo "mzungu" (homem branco) humilde que quer se tornar um "masai" (grupo étnico africano semi-nômade, que se localiza no Quênia e norte da Tanzânia), trocando sua hospedagem em hotéis por casas de pessoas que acabou de conhecer.

Crédito: TV Zero

No entanto, a máscara de “bom moço” de Gabriel é destruída com a chegada da namorada Cris (Caroline Abras). A partir daí, conhecemos a verdadeira face de Buchmann, que era conhecido como “o pobrólogo da turma de reacinhas da PUC”. Seus colegas economistas não entendiam porque ele queria ver de perto a pobreza. Ele não cabia nessa ortodoxia acadêmica. Tinha que ver o mundo, subir montanhas, mostrar que se importava mais. 

E falando em montanhas, não há explicação espiritual ou ideológica no interesse de Gabriel por elas no filme. Ele apenas queria vencer o desafio no menor tempo possível. Assim como se acha melhor do que a namorada, que os companheiros de faculdade e que os outros turistas. Chega ao ponto de se considerar melhor do que os guias, por não "ser preguiçoso", ignorando suas indicações. 

Sua intensa jornada pelas montanhas africanas não busca autoconhecimento ou estudo, e sim uma fuga, um respiro para o que estava por vir, como Cris afirma. Portanto, para mim, essa sinceridade em humanizar Gabriel, expondo suas qualidades e defeitos, foi o que me conquistou, humanizando o personagem.

O longa reconstrói sua trajetória com base em e-mails, mensagens, fotografias e narrações de pessoas que cruzaram seu caminho. As lembranças de quem conheceu o economista são contadas por elas mesmas, encenando os momentos que passaram com ele e narrando o sentimento que tiveram ao saber de sua morte. Essa estratégia de cruzar a fronteira entre ficção e documentário é o diferencial de Gabriel e a Montanha

Crédito: TV Zero


A atuação de João Pedro Zappa (Boa Sorte) é carismática e cheia de energia, fazendo com que a família de Gabriel se espantasse com a semelhança do ator com o verdadeiro Gabriel em cena. Barbosa refez a trajetória do falecido amigo e trouxe sua viagem como um aprendizado, dando um significado profundo para jornada do rapaz, trazendo paz à sua precoce despedida. 

Ótimo


Confira abaixo a entrevista com o diretor Fellipe Barbosa, durante o Festival do Rio 2017: 



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