CRÍTICA | Dona Flor e Seus Dois Maridos

Direção: Pedro Vasconcelos
Roteiro: Pedro Vasconcelos
Elenco: Juliana Paes, Marcelo Faria, Leandro Hassum, entre outros
Origem: Brasil
Ano: 2017


Um dos grandes clássicos da literatura brasileira e sucesso de bilheteria nos cinemas está de volta. Dona Flor e Seus Dois Maridos foi escrita por Jorge Amado (1966) e lançada originalmente na tela grande em 1976 sob a direção de Bruno Barreto (Flores Raras), e contava com o protagonismo de Sônia Braga (Aquarius), José Wilker (O Bem Amado) e Mauro Mendonça (Redentor). Quarenta anos depois, e após uma minissérie de igual sucesso lançada pela Globo a década de 90, somos agraciados com uma nova versão da obra, agora sob a batuta de Pedro Vasconcelos (O Concurso).

A história gira em torno de Flor (Juliana Paes), uma sedutora professora de culinária, casada com Vadinho (Marcelo Faria), um marido malandro, sedento por noitadas e jogatinas, ainda que um excelente amante. Ele acaba morrendo de maneira precoce em um domingo de carnaval e, pouco tempo depois, Flor se casa novamente com o correto, polido e gentil farmacêutico Teodoro (Leandro Hassum). Apesar da estabilidade na nova união, a protagonista não está plenamente feliz, sente falta do jeito elétrico e fogoso de Vadinho, e consegue trazê-lo de volta como um fantasma, que só ela pode enxergar, formando-se assim o triângulo amoroso que dá título à obra.

Evidentemente Vasconcelos não passaria ileso de comparações com o longa-metragem original, tendo uma enorme responsabilidade de entregar uma produção digna da qualidade da literatura do escritor baiano.

Foto: Downtown Filmes

A ambientação nos anos 1940, a retratação das paisagens e dos prédios de Salvador, bem como o cotidiano e os costumes de época do povo baiano são apresentados com fidelidade ao que consta na obra de Jorge Amado, soma-se a isso os diálogos com roupagem lírica e em ritmo de prosa. Palavras mais fortes e chulas, e o sotaque soteropolitano, reforçam a dramaturgia. Tudo é feito de forma sistemática e para inserir o espectador no contexto e na realidade da época, o que ocorre de maneira eficiente.

O longa opta por utilizar uma narração em off, de forma a complementar a apresentação dos capítulos em flashback, não comprometendo a qualidade da produção. Além disso, o ritmo em que se dão as histórias ocorrem de forma fluida e correspondente à origem literária, outro ponto positivo do filme.

As atuações, em boa parte, são acima da média. Juliana Paes (A Despedida) mostrou ter percebido todos os cernes que envolvem Dona Flor, como suas paixões e seus ideais, além de esbanjar muita sensualidade e vitalidade, lembrando muito Sônia Braga na primeira versão. Marcelo Faria (O Carteiro), por sua vez, se mostra leve e seguro no papel de Vadinho, tendo em vista que o ator já encena o personagem há anos no teatro. Sua desenvoltura chama a atenção até mesmo nas cenas mais quentes e completamente despido, desde que retorna do além até o fim da projeção. Curiosamente, Leandro Hassum (Até Que a Sorte Nos Separe) é o elo fraco do trio. Estava sob sua responsabilidade representar um papel que exige seriedade, porém, em momentos cruciais, é possível ver o ator deixar escapar o riso, comprometendo o desenrolar de algumas cenas e transformando seu Teodoro em uma caricatura.

Foto: Downtown Filmes

Outros pontos que deixam um pouco à desejar são as repetições de ideias, como a resistência de Flor às investidas de Vadinho, ou mesmo o uso constante da diminuição do ritmo da música de fundo nas cenas de amor entre Flor e Teodoro. Se em determinados momentos o recurso funciona de forma cômica, em outras não funciona, cansando o público. 

No fim, o saldo da nova versão de Dona Flor e Seus Dois Maridos é positivo, afinal, nos deparamos com uma obra retratada com beleza e elegância, uma digna homenagem ao filme original e ao saudoso Jorge Amado.

Ótimo

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