CRÍTICA | Me Chame Pelo Seu Nome

Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: James Ivory
Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, entre outros
Origem: Itália / França / Brasil / EUA
Ano: 2017


1983, em algum lugar no norte da Itália. É assim que inicia Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name), uma introdução que confere um tom de fábula a obra, e que se mostraria pertinente dali em diante. Esse longa italiano, com participação brasileira na produção, é cinema clássico filmado em tempos contemporâneos, quase como se assistir um filme da década de 70 produzido hoje em dia, ainda que se passe, evidentemente, na década de 80. E digo isso da forma mais positiva possível, pois estamos diante de um grande filme.

Elio (Timothée Chalamet) é um adolescente norte-americano que está passando as férias de verão com sua família na residência que possuem na Itália, algo rotineiro em suas vidas. Eles são judeus, poliglotas de descendência italiana e francesa. Seu pai (Michael Stuhlbarg) é um historiador renomado, que todo verão recruta um estudante em formação para auxiliá-lo em suas pesquisas, dando-lhe residência e familiares por alguns meses. É aí que conhecemos Oliver (Armie Hammer), o inter cambista norte-americano que chega para conviver com eles, trazendo mudanças significativas na rotina de todos que o cercam.

Muito provavelmente ao ouvir falar de Me Chame Pelo Seu Nome, você deve ter tido alguma associação ao fato do filme contar a história de um romance homossexual. Ledo engano. Há sim um relacionamento entre Elio e Oliver, mas esse ao meu ver não é o foco. A obra fala sobre paixões, sobre descobertas, sobre vivenciar algo especial com alguém, não importando o sexo dessa pessoa. Isso fica claro ao vermos ambos os personagens se envolverem também com mulheres ao longo da narrativa, da mesma forma que cultivam um relacionamento familiar com todos ali.

Foto: Sony Pictures

Nesse ponto, tenho que chamar a atenção para a soberba atuação de Timothée Chalamet (Interestelar), que apresenta diversas nuances a Elio, humanizando-o e fazendo a identificação com o espectador ser inevitável. Afinal, quem nunca viveu um amor de verão, ou se viu completamente envolvido na expectativa de encontrar a pessoa que deseja, de tocá-la, abraçá-la, amá-la? Atrelada a essa expectativa está a imaturidade que a idade escancara, o que faz o personagem de Armie Hammer (A Rede Social) um excelente contraponto, pois o estudante, no auge de sua beleza e vigor físico, esbanja confiança em suas ações e no modo que conversa com as pessoas, tornando-se uma figura de admiração.

É na forma que esse relacionamento nasce que o diretor Luca Guadagnino (Um Sonho de Amor) mostra seu exímio trabalho. Através de enquadramentos e movimentos de câmeras cuidadosamente selecionados e de extremo bom gosto, que o cineasta constrói uma sensação de paixão crescente que vai tomando conta dos personagens e do público. E é curioso como a aura de fábula, que citei lá no inicio, acompanha toda a obra, que não apresenta grandes conflitos ou momentos de antagonismo dramático. Tudo é levado em uma crescente prazerosa em que duas horas passam como se fossem dois minutos de projeção.

Elegante artisticamente falando, Me Chame Pelo Seu Nome também entrega uma reconstituição precisa dos anos 80, que vai dos figurinos à fotografia estonteante, que valoriza a luz do sol e as belíssimas locações do verão italiano, fazendo com que o espectador se sinta naquela cidade durante alguns bons momentos. A edição e a mixagem de som têm papel importante aqui, valorizando os sons ambientes da natureza que os rodeia.

Foto: Sony Pictures

Uma crítica repleta de elogios nem sempre traz uma boa análise, mas não posso deixar de destacar também a trilha sonora, que faz um trabalho interessantíssimo, mesclando canções típicas da década de 80 (e se tem uma coisa que essa década fez bem foi música) com músicas instrumentais tocadas predominantemente por piano, conversando diretamente com seu protagonista, que toca o instrumento em algumas oportunidades durante a narrativa.

Me Chame Pelo Seu Nome encontra tempo ainda para nos presentear com uma das mais belas cenas do cinema em 2017, quando pai e filho, após algum tempo afastados, sentam para conversar sobre a vida. O que é dito ali não detalharei, pois não quero entregar o desfecho do filme para ninguém, mas foi um momento que me levou às lágrimas. Um fragmento de esperança no mundo tolo em que vivemos, protagonizado por esse que é, desde já, um dos melhores filmes do ano.

Excelente

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