CRÍTICA | Entardecer


Direção: László Nemes
Roteiro: László Nemes, Clara Royer e Matthieu Taponier
Elenco: Juli Jakab, Evelin Dobos, Susanne Wuest, Björn Freiberg, entre outros
Origem: Hungria / França
Ano: 2018


A identidade reúne informações importantes e essenciais sobre uma pessoa, desde suas raízes até características próprias, como raça e etnia. O sentimento de pertencimento a uma região e a identificação com uma determinada cultura dizem muito sobre cada um de nós e tudo isso é único e intransponível. A importância dessa ideia move Entardecer (Sunset), novo longa-metragem do premiado László Nemes (O Filho de Saul), que nos apresenta uma protagonista disposta a se encontrar e a definir seu papel no território para o qual regressa.

Budapeste, Hungria, 1913. Em um período pré primeira Guerra Mundial, da Belle Époque, época de ouro das ciências e artes, a jovem Irisz Leiter (Juli Jakab) retorna à sua cidade natal com a esperança de conseguir emprego em uma loja de chapéus que leva o sobrenome de sua família. Porém, a reação contrária de toda a cidade à sua permanência a levará a investigar o passado de seus familiares. E quando um homem estranho a aborda e questiona sobre Kálmán Leiter, o irmão perdido, Irisz se recusa a perder sua única pista que poderia fazê-la se reconectar com o passado perdido e vai em busca do parente. Suas buscas a levam pelas ruas escuras e casarões da cidade, onde apenas a loja de chapéus brilha, no turbilhão de uma civilização às vésperas de sua queda.

Foto: Califórnia Filmes

Logo de início o espectador se depara com longos planos-sequências e com a câmera próxima ao rosto da protagonista, ilustrando o desconforto e estranhamento dela para com aquele território até então desconhecido. A medida que a narrativa se desenvolve e ela passa a descobrir mais sobre o irmão e os acontecimentos que se passaram em Budapeste, Irisz não só passa a ter uma visão mais clara de quem é, como também seu papel no mundo. Seus objetivos ficam mais bem definidos. Sua postura inicial de errante, sem um destino certo e em movimentação constante são trunfos iniciais para que o espectador se insira na história e se mantenha interessado em seus desdobramentos.

A fotografia ilustra ambientes de alta luminosidade, a loja de chapéus em cores límpidas e uma Budapeste vivendo de aparências, disposta a esconder um cenário opressor prestes a surgir. A direção de arte e montagem são primorosas, capazes de ilustrar perfeitamente um cenário pré-guerra do início do século XX e também o glamour que existia na sociedade europeia. Quem passeia pelos ambientes nota um clima de otimismo e deslumbre com tamanhos luxos, e isso se torna uma espécie de alívio durante a trama, dominado pela tensão e constantes ameaças que a personagem central sofre ao longo dos 142 minutos de duração da obra.

Apesar do clima de suspense existente com a busca incessante do público e da protagonista por respostas, o roteiro também apresenta ações repetitivas. Não existem em Entardecer grandes reviravoltas, seu próprio desfecho não é dos mais satisfatórios, deixando a sensação de que falta alguma revelação. Juli Jakab (O Filho de Saul), por sua vez, entrega uma atuação enigmática, que dá margem para diversas interpretações, pois não se sabe se ela está entediada ou se planeja alguma vingança. Vítima ou heroína? Depende da interpretação do espectador, e isso é interessante.

Foto: Califórnia Filmes

A busca pela identidade, a opressão e a luta pela emancipação. Entardecer é tudo isso, e é também um filme de cunho íntimo, de uma personagem que tenta romper barreiras de uma sociedade dotada de costumes polidos e intransponíveis em um ambiente considerado uma bomba relógio prestes a explodir.

Bom

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