CRÍTICA | O Destino de uma Nação

Direção: Joe Wright
Roteiro: Anthony McCarten
Elenco: Gary Oldman, Lily James, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, entre outros
Origem: Reino Unido
Ano: 2017


O Destino de uma Nação abre com cenas silenciosas de soldados no campo de batalha, mergulha em uma sequência grandiosa e barulhenta no Parlamento Inglês e, finalmente, através do olhar ansioso da jovem datilógrafa Elizabeth Layton (Lily James), nos apresenta Winston Churchill (Gary Oldman). Envolto por uma escuridão que só é quebrada com a chama que utiliza para acender um de seus muitos charutos, é quase como se ele fosse revelado para o espectador, ainda de pijamas e tomando seu café da manhã. Não por acaso, essa cena de Churchill é a primeira que abraça uma visão mais simples e humana, sem floreios, deixando claro onde vai residir o maior interesse do filme – e onde espera-se que resida o do espectador também. E, claro, quando se tem uma interpretação brilhante quanto esta de Gary Oldman (O Espião Que Sabia Demais) como o Primeiro Ministro, não faria sentido se o foco fosse diferente.

Cobrindo um período de pouco mais de um mês, a trama acompanha Churchill no início de seu mandato. Era também o início da Segunda Guerra e a Alemanha já havia invadido a Bélgica, França e Holanda, tornando a ameaça nazista um terror muito mais próximo e uma ameaça mais clara do que antes havia sido antecipada. Ele então é escolhido por acreditarem ser quem conseguiria suporte de todos os partidos que compunham o Parlamento, além de ter sido um dos primeiros a se opor ao novo regime imposto por Hitler. Ainda assim, não era uma escolha que agradava a todos, já que, em vista do avanço desenfreado alemão, havia uma parcela do governo que preferia pensar na possibilidade de um acordo de rendição.

Ao colocar essa disputa política como o ponto central de sua trama, o roteiro de Anthony McCarten (A Teoria de Tudo) busca contar o rumo que a guerra teve através das decisões tomadas em seus bastidores, pelos líderes da época, em reuniões tidas em salas trancadas e de acessos restritos, nos subterrâneos do Gabinete de Guerra e andares do Parlamento. Os personagens se movimentam por entre corredores e salas iluminadas pela fotografia do francês Bruno Delbonnel (Across the Universe), que remete ao estilo noir, com elegantes e teatrais feixes de luz marcados e cortinas de fumaça. Jogando com sombras, mapas ocupam paredes inteiras e o som de máquinas de datilografar torna-se quase uma constante.

Foto: Universal Pictures

Joe Wright (Desejo e Reparação), que sempre faz muito bom uso dos espaços, aproveita-se dessa dança por entre lugares fechados e estreitos utilizando recursos visuais e sonoros que poderiam parecer exagerados, mas que aqui funcionam como uma peça de teatro, tornando-se algo maior conforme a história avança. Suas câmeras atravessam paredes para nos levar a núcleos diferentes e criam a sensação de dinamismo que esses cômodos não permitiriam, enquanto a iluminação de uma simples lâmpada muda a cor de todo um ambiente e reflete a mudança de tom na passagem de um ato para outro. Para acompanhar, a trilha sonora de Dario Marianelli (V de Vingança), compositor que trabalhou com o cineasta em quase todos os seus filmes, eleva essas sequências e confere ao espectador a urgência que os personagens experimentam.

Essas passagens e mudanças que acontecem, no entanto, são todas marcadas no tempo de seu personagem principal. Churchill é quem dita o ritmo da obra, que respira conforme seu protagonista. A performance de Oldman, uma das melhores de sua carreira, é de fato transformadora. Auxiliado pelo impecável trabalho de maquiagem protética de Kazuhiro Tsuji (O Curioso Caso de Benjamin Button), o ator some para dar vida à figura histórica, compondo um personagem incrivelmente complexo que, como diz sua esposa Clementine (Kristin Scott Thomas), carrega “o peso do mundo nas costas”, e Oldman faz com que seja possível sentir esse peso.

Trata-se de uma figura política em primeiro lugar, mas o roteiro dá espaço para que esta não seja sua única faceta. Através das nuances de sua interpretação – e são realmente pequenos elementos que aos poucos desenham uma figura cheia de camadas –, é possível vê-lo preocupado, temeroso, derrotado, furioso, decidido e tudo mais que couber entre essas emoções. Além do político, há o Churchill que se preocupa com sua esposa e filhos, o que se mostra indeciso, e o que consegue perceber quando uma batalha precisa ser deixada de lado para se dar atenção as pessoas próximas, e o filme se apoia na humanização do personagem.

Foto: Universal Pictures

Graças a força com que Oldman o conduz, o longa pode se dar ao luxo de ter uma cena em que Churchill discute, aos berros, com uma sala lotada de políticos, passando como um furacão para, logo em seguida, mostrá-lo em um ligação com o Presidente Roosevelt, em cômodo fechado, que nada tem além de um copo de uísque, ouvindo do outro líder que a ajuda não chegará, sem nenhum do vigor que demonstrava antes. O trabalho de voz do ator é também primoroso, tendo como comparação os áudios que se tem registro, praticamente não há diferença.

O poder de oratória do Primeiro Ministro é talvez a principal característica pela qual é lembrado, e aqui é também um território amplamente explorado. Inserido em um universo onde todos os personagens se sentem à beira de um colapso do mundo que conhecem, O Destino de uma Nação oferece refúgio no poder das palavras bem orquestradas de um líder que sabia organizá-las, deixando-se até arriscar alusões ao cenário político atual vez ou outra, e se apoia muito no processo de composição de seus discursos. Apesar de já conhecidos e exaustivamente repetidos, o filme faz um trabalho notável de mostrar suas construções, desde a menor das ideias até cenas em que Churchill, sempre cercado de papéis, pede para sua secretária ler as palavras ditadas para ela de volta. E, quando esses discursos são enfim declamados, seja no Parlamento ou em transmissões de rádio, o longa e seus personagens dão espaço para que Oldman assuma o palco sozinho.

Passando pela guerra com olhos que vêem do alto, como se os soldados fossem parte de um mapa, O Destino de uma Nação procura sempre o ponto de vista de seu protagonista para guiá-lo, tornando-se um estudo de personagem cuidadoso. Com essa escolha, Wright se distancia do risco de tornar-se repetitivo, afinal, o mesmo já havia visitado essa parte da história em Desejo & Reparação, onde fez uma das sequências mais belas e devastadoras do cinema nas praias de Dunquerque (tema recente do último filme de Christopher Nolan, que, aliás, é um ótimo complemento a esta obra). Aqui, Churchill negocia a evacuação de seus soldados entre conversas e ligações em suas salas escuras e, ainda que saibamos o desfecho final, a construção do personagem multidimensional de Oldman, atrelada a um roteiro e direção que sabem ser este seu triunfo, faz com que essas palavras ditas tenham um peso e efeito tão grandes quanto um campo de batalha.

Ótimo

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