HQ | Fragmentos do Horror


Um dos nomes mais proeminentes no cenário do terror japonês atual é, sem sombra de dúvidas, o mangaká Junji Ito. Dono de uma imaginação inimaginável, mesmo em histórias aparentemente inofensivas, o autor puxa o tapete do leitor, submetendo-o a uma nova e inacreditável compreensão.

Responsável por obras celebres como Tomie, Uzumaki e Gyo, o bizarro sempre o acompanha. Suas influências são autores como H.P. Lovecraft e Hideshi Hino, e o tema mais recorrente em seus trabalhos é o chamado terror biológico. Este gênero é associado principalmente a transformações grotescas, degeneração e destruição de corpos, como em A Mosca, de David Cronenberg. A série Fragmentos do Horror, no caso, é uma coletânea de histórias não interligadas, mas deveras instigantes. Falarei brevemente sobre cada uma delas à seguir:

O primeiro conto, Futon, é, de certa forma, a preparação para o universo bizarro em que ele será inserido. Na história, uma mulher estranha entra na casa de um casal e todos passam a enxergar monstros e coisas inimagináveis.

Em Monstro de Madeira, uma jovem estudante de arquitetura vai visitar uma casa considerada mal assombrada, mas ela acaba por revelar um estranho fetiche por aquela habitação. Aqui o erótico e o estranho andam lado a lado.

Tomi: Gola Rulê Vermelha narra a história de um jovem que está segurando a sua cabeça, enquanto todos acreditam que ele tenha pirado. A tensão e aflição de Tomio é capaz de deixar até o mais casca grossa de olhos abertos.

Suave Adeus conta a história de uma garota que passa a ver pessoas que estão mortas, no entanto, não pensem que trata-se de uma historia de terror. Nela é possível refletir sobre os entes queridos, a efemeridade da vida e pensar se valeria a pena tentar fazer um último contato com aqueles que já se foram.

Dissecação-Chan mostra a história de um estudante de medicina que está em uma aula onde é necessário fazer a dissecação de um corpo, porém, o corpo é de uma mulher que ele conhecera na infância, que ficou fascinada por dissecação e queria ser dissecada viva! Apesar do ritmo alternar entre o contemplativo e o recheado de ação, principalmente nas partes da dissecação, ele consegue surpreender em uma história invariavelmente bizarra.

Magami Nanakuse fala de uma jovem que tem fascínio pelas histórias de terror de sua autora favorita. Ela está viajando para encontra-la, porém, fica horrorizada ao ver na casa da escritora que suas fontes de inspiração são das mais absurdas e inenarráveis possíveis. Acho que aqueles que possuem tiques nervosos, ficarão de queixo caído.

Pássaro Negro fala de um rapaz perdido nas matas mais ocultas do Japão, onde ele encontra uma criatura gigantesca e negra, até finalmente ser resgatado por um outro rapaz. No hospital, o paciente conta sobre a tal criatura, que lhe alimentava todos os dias. Então o médico acaba descobrindo que a tal alimentação é vem de uma fonte muito curiosa.

O último conto, A Mulher que Sussurra, é sobre uma garota incapaz de decidir nada em sua vida, nem mesmo se deve ou não respirar. Devido a essa condição especial, seu pai se encarrega de contratar pessoas que ajudem a auxiliar sua filha nessa fase difícil e turbulenta pela qual está passando, mas ninguém fica no cargo por muito tempo. Até a chegada de uma mulher misteriosa que consegue ajudar a garota, ainda que essa relação vá ficando contraditória.

As histórias são chocantes e os traços muito bem feitos. Apesar de alguns contos não serem tão bons, como Suave Adeus, no geral, a publicação se sai bem. Na própria capa do livro é possível ver que o universo apresentado por Ito busca inspiração até mesmo em artes famosas como O Grito, de Edvard Munch, além de introduzir os principais elementos de todos os contos da publicação, direta ou indiretamente.

A ilustração a ser destacada é a de página inteira de Futon, onde todos os elementos presentes no quadro são grotescos e capazes de trazer medo até mesmo aos que se dizem durões. O resultado é uma obra que alterna entre o explicito e o sugestivo, focando mais no horror psicológico e chocando em momentos estratégicos.

Fragmentos do Horror certamente não é uma obra a ser apreciada por todos. Tem ritmo variante entre as narrativas, nem todas causam um impacto imediato ou são capazes de impressionar quem gosta de terror japonês, mas vale a leitura, caso queira algo descompromissado. Os traços não buscam a violência desenfreada, digna do cinema gore, mas conseguem causar aflição e temor em momentos selecionados, uma qualidade presente em todas as obras de Ito. Ela pode servir como porta de entrada ao mundo peculiar do autor, mas se quer ver o mestre brilhar, recomendo a leitura de suas obras mais imponentes.

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